Sociedade

Zonas minadas condicionam pesquisas sobre a Batalha do Cuito Cuanavale

Carlos Paulino | Menongue

Jornalista

O registo de muitas áreas ainda minadas está a condicionar o trabalho de arqueologia militar e investigação científica para a elaboração de um dossier que deve ser apresentado à UNESCO para a candidatura do sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale como Património da Humanidade.

29/03/2024  Última atualização 14H26
Um monumento em homenagem à vitória na Batalha no Cuito Cuanavale foi erguido naquele município histórico © Fotografia por: Edições Novembro
Em declarações ao Jornal de Angola, o coordenador da comissão para a elaboração da candidatura do sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale a Património da Humanidade, João Pedro Lourenço, explicou que, neste momento, a componente desminagem constitui a grande dificuldade para se dar início ao trabalho que envolve escavações, restituições de trincheiras e outras tarefas nos locais que acolheram os fortes combates entre as então Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) e as tropas do regime do apartheid da África do Sul.

João Pedro Lourenço disse que a comissão multissectorial criada para trabalhar na elaboração deste dossier recebeu, recentemente, um memorando do Ministério da Defesa Nacional, Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, que indica os sítios que já foram desminados, nomeadamente o Triângulo do Tumpo e alguns lugares ao redor, mas ainda existem zonas minadas junto às margens dos rios Chambinga e Nianey, que deverão constar do processo de candidatura.

"É importante esclarecer o porquê do alargamento do sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale, porque existem informações fornecidas que dão conta que nestas zonas há restos mortais de militares angolanos e sul-africanos, razão pela qual se  deve fazer um trabalho de arqueologia militar e forense, que envolve escavações e restituições de trincheiras, entre outras tarefas que têm que ser feitas na área com segurança”, disse.

João Pedro Lourenço disse ser difícil adiantar quanto tempo vai levar o processo de apresentação da candidatura do Cuito Cuanavale a Património da Humanidade, porque, insistiu, está muito condicionado às minas no local, que não permitem estar no sítio e fazer as pesquisas necessárias para documentar esta pretensão.

Estudos feitos no terreno, indicou, permitiram a verificação de que apenas estava classificado para a elevação a Património da Humanidade o Triângulo do Tumpo, mas informações prestadas por militares que participaram na Batalha do Cuito Cuanavale e a documentação disponível revelam que os combates foram muito além daquele local.

João Pedro Lourenço disse, ainda, haver confusão por parte de algumas pessoas, que pensam que o Executivo apenas pretende classificar o memorial à vitória da Batalha do Cuito Cuanavale como Património da Humanidade, quando, na verdade, se trata de uma área mais abrangente, onde aquela imponente infra-estrutura também faz parte.

"O sítio é uma coisa mais alargada e que vai até à zona que ainda não foi trabalhada. Por isso, é preciso reconstituir esta batalha que, segundo informações, teve início em Setembro de 1987 e estendeu-se até Março de 1988”, disse o coordenador da comissão, acrescentando que quando se fala da Batalha do Cuito Cuanavale não se refere apenas ao perímetro em que se encontra o Memorial, nem o Triângulo do Tumpo, porque, assim sendo, a história estará incompleta.

Por este facto, adiantou, o âmbito da batalha deverá ser alargado do ponto de vista da dimensão da classificação a nível nacional e, depois, será feita a candidatura junto da UNESCO, para a avaliação final do sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale como Património da Humanidade.

Segundo João Pedro Lourenço, o primeiro passo foi dado há já alguns anos, com a integração do sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale na lista indicativa da UNESCO, um procedimento que é feito bem antes de ser classificado como Património da Humanidade.

Antes de tudo, esclareceu, o sítio histórico deve constar da lista indicativa da UNESCO, uma espécie de pré-candidatura, para depois se dar os passos subsequentes, entre os quais a elaboração do dossier  da candidatura que deverá ser submetida à avaliação final.

A elaboração deste dossier, disse, exige um trabalho aturado de arqueologia militar e forense, para provar até que ponto as informações sobre o que aconteceu no sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale são realmente verdadeiras.

Para o êxito deste trabalho, referiu, as autoridades angolanas têm contactos com um instituto de investigação em Portugal e pessoas que têm experiência em arqueologia militar e outro tipo de pesquisas relacionadas com este processo.

João Pedro Lourenço referiu que na lista ilustrativa da UNESCO constam três bens de Angola: o Corredor do Kwanza, o sítio histórico da Batalha no Cuito Cuanavale e a pintura rupestre do Tchitundo-Hulo, no Namibe. Do ponto de vista do tratamento documental, disse, o projecto mais avançado é o do Namibe, mas, do ponto de vista da SADC, sublinhou, a prioridade recai ao sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale.

Nova cartografia

O outro elemento que também está condicionado é o da cartografia, por causa do alargamento que se fez do sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale. Por isso, é necessário fazer uma nova cartografia, de acordo com os moldes exigidos pela UNESCO.

João Pedro Lourenço informou que a cartografia existente não tem os requisitos técnicos que a UNESCO exige. Conforme já se fez no Centro Histórico da Cidade de Mbanza Kongo, é preciso criar as condições logísticas para que se faça também este trabalho no Cuito Cuanavale.

O coordenador da comissão para a elaboração da candidatura do sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale a Património da Humanidade disse que muitas das cartografias existentes no país foram produzidas nos anos 60 e 70 e outras são fundamentalmente militares.

"Algumas são do tempo colonial e outras feitas no período de guerra, mas que agora é necessário fazer cartografias com outros requisitos técnicos, tendo em vista que a tecnologia está muito avançada e, hoje, são exigidos outros tipos de pormenores que têm um custo considerável”, disse.

João Pedro Lourenço salientou que este mesmo processo para fazer uma nova cartografia também está condicionado, por conta da desminagem e que até foi contactada uma empresa que se vai responsabilizar por este trabalho, mas que precisa colocar referências ou pontos para que seja feita uma cartografia aérea.

O coordenador da comissão disse não ser possível ir ao terreno e colocar esses pontos, porque as zonas estão minadas, sobretudo as margens do rio Nianey e na nascente do rio Chambinga. Apesar desta situação, sublinhou, fazendo uma comparação relativamente há três ou quatro anos, concluiu haver já um avanço significativo na desminagem no Cuito Cuanavale.

João Pedro Lourenço precisou que enquanto não se receber um certificado a dizer que estas zonas estão livres de minas, não existem garantias para que as equipas técnicas possam trabalhar ou circular. "Vamos esperar até que haja algum avanço quanto à desminagem e que nos permitam avançar com a parte cartográfica, porque se esses dois elementos fundamentais forem concluídos, o resto será fácil para, oficialmente, formalizamos a candidatura”, reiterou.

O responsável realçou que há uma série de elementos que devem ser tratados no terreno, porque senão vai se limitar apenas ao Triângulo do Tumpo onde aconteceu a etapa final da batalha e não se conseguirá explicar as histórias antecedentes até chegar ao dia 23 de Março de 1988, como é o caso dos combates que foram travados em Outubro de 1987, nas áreas de Chambinga.

João Pedro Lourenço defendeu que, por este facto, é importante fazer-se a cartologia militar, que exige a recolha de artefactos e a reconstituição das trincheiras, admitindo que se trata de um trabalho que requer "algum cuidado e tratamento arqueológico”.

Rota da luta de libertação da África Austral

O coordenador da comissão para a elaboração do dossier de candidatura do sítio histórico da Batalha do Cuito Cuanavale a Património da Humanidade informou que a SADC tem a intenção de criar uma rota da luta de libertação da África Austral e outra rota dos lugares da luta contra o regime do apartheid da África Sul.

João Pedro Lourenço anunciou que em Angola já está a ser organizada essa rota, que começa no município do Cuito Cuanavale e vai até às províncias da Huíla e Cunene, zonas que também estão relacionadas com as invasões dos sul-africanos.

Por esta razão, o responsável considerou que há toda a necessidade e interesse da constituição da luta e libertação da África Austral, assim como a rota dos lugares da luta contra o apartheid, porque o Cuito Cuanavale é o ponto máximo nas memórias destas batalhas. "Quando falamos de paz, de liberdade e o facto de a Batalha do Cuito Cuanavale ser o símbolo da libertação da África Austral, é preciso pensar que estamos a falar num lugar de memórias”, disse.

João Pedro Lourenço sublinhou que uma das tarefas que estão a realizar é de ter contactos com os arquivos militares sul-africanos e de recolha da documentação de Cuba sobre algumas informações sobre a Batalha do Cuito Cuanavale, que já estão disponíveis online.

Quanto aos arquivos militares angolanos, disse que estes já estão disponíveis no Ministério da Defesa Nacional, Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, que integra a comissão, mas sublinhou que o seu acesso obedece sempre aos protocolos, porque a Lei Geral dos Arquivos estabelece critérios e modalidades de acesso à informação.

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