Como avalia a dimensão económica da quadra festiva tendo em conta o contexto actual de crise financeira?
Na quadra festiva desse ano, decorrente do actual contexto económico e financeiro do país, teremos um cenário diferente em relação às épocas anteriores. As famílias têm mais dificuldades em adquirir os bens necessários para realizar os seus convívios, justificada principalmente pela redução do seu poder de compra, e veem-se obrigadas a alterar o nível de consumo e a forma de comemoração da quadra festiva.

O que se recomenda às famílias?
A situação actual do país leva as famílias a fazerem um maior controlo dos gastos nessa época, fruto não só da depreciação da sua capacidade aquisitiva, mas também do nível de emprego que foi muito afectado nos últimos períodos. Importa referir que hoje as famílias estão mais cientes de que muitos gastos que eram feitos nessa época, no passado, eram desnecessários e algumas vezes impulsivos. Outras alterações bem notórias são os movimentos e as afluências nos supermercados que registaram uma redução acentuada, as publicidades de Natal e Ano Novo também registaram uma redução, os bairros e avenidas estão menos enfeitados e as famílias estão a poupar mais.

Que influência os bancos devem adoptar para ajudar os seus clientes a poupar?
Os bancos comerciais têm exercido um papel de destaque no comportamento dos seus clientes em relação à poupança com a implementação de políticas de educação financeiras criadas pelo BNA e de iniciativa própria, com o desenvolvimento de estratégias para massificar a literacia financeira e para aumentar o nível de bancarização da população angolana.

Quais os destaques na sua opinião?
Dentre estas políticas e estratégias, destaca-se a sensibilização para a adesão aos produtos de poupança, mais propriamente as contas de depósito a prazo nas suas diferentes modalidades, de modo a se garantir que as famílias não gastem todo o rendimento adquirido, mas que guardem uma parte para situações futuras e para se ter a cultura de rentabilizar o dinheiro não gasto. Todavia, os bancos comerciais têm incentivado as famílias a planear os gastos e a poupar em detrimento de gastos desnecessários e mostram que não se deve gastar tudo o que se ganha para se poder suprir as questões de emergência que possam surgir e para uma maior qualidade de vida no futuro.

Qual deve ser a intervenção governativa para tornar a quadra festiva num momento de felicidade para as famílias?
Para tornar a quadra festiva num momento de felicidade para as famílias, o Governo deve, por um lado, garantir a disponibilidade dos produtos da cesta básica e dos bens mais consumidos nesta época e, por outro lado, criar medidas para impedir comportamentos abusivos por parte dos agentes comerciais que ponham em causa o bom funcionamento dos mercados e violem os direitos dos consumidores, com destaque para o aumento abusivo de preços. A Lei da Concorrência foi aprovada no primeiro semestre deste ano com entrada em vigor na mesma data (Lei n.º 5/18 de 10 de Maio) com a finalidade de suprir algumas lacunas existentes no mercado e evitar situações tais como: a fixação de preços de forma indevida, falta de compromisso e de responsabilidade para com o cliente e a falta de preocupação com a qualidade dos produtos. Esta lei tem como fins últimos proteger os direitos dos consumidores e garantir o funcionamento saudável do mercado.
É nesta fase que se tem verificado a fixação de preços de forma indevida, com aumento injustificado de preços de alguns bens de consumo.

Como podemos caracterizar os comportamentos dos grupos?
Estes comportamentos dos grupos económicos são anticoncorrenciais, pois violam os direitos dos consumidores e contribuem para o agravamento das imperfeições e lacunas já existentes no mercado. Como disse, a aprovação da Lei da Concorrência perspectiva-se que nesta quadra festiva se verifique um bom ambiente económico com definição de preços justos.

Não tem havido alguma atitude oportunista dos comerciantes?
De certa forma sim, tem havido comportamento oportunista por parte de alguns comerciantes, pois estes têm noção da incapacidade da oferta de bens e serviços em satisfazer o aumento da procura e implementam subidas de preços de forma desordenada e algumas vezes abusiva, pondo em causa o funcionamento saudável da economia. Cientes do aumento do volume de vendas em relação às outras épocas do ano, alguns agentes económicos têm a pretensão de ganhar os rendimentos previstos para o período e compensar os períodos de menores ganhos ou de perdas.

O que está na base da subida dos preços nessa fase do ano?
Na base da subida dos preços está a lei da procura e da oferta, isso para todas as fases do ano. Em véspera da quadra festiva, a procura de alguns bens de consumo aumenta comparativamente às outras épocas do ano, e este aumento supera o da oferta, o que origina o aumento do preço. Outro aspecto que também tem estado na base do aumento dos preços é a ambição dos ganhos desmedidos por parte de alguns agentes económicos. Com a aprovação Lei da Concorrência, espera-se que este ano a situação seja diferente sendo que a subida de preços de forma indevida constitui crime e é punível por lei.

Como avalia a questão do poder de compra dos angolanos?
O poder de compra dos angolanos vem reduzindo ao longo dos últimos anos, e como consequência, as pessoas adquirem a cada vez menos bens com os mesmos rendimentos.
As famílias veem-se obrigadas a ter uma educação financeira que lhes permita cobrir as necessidades de consumo com menor poder aquisitivo e a procurar alternativas de bens e serviços com preços mais baixos ou a comprar em menores quantidades do que no passado. Com o reajuste salarial previsto para o início de 2019, espera-se que o poder aquisitivo das famílias seja restituído.

Acredita que com o reajuste salarial poderá conferir maior poder de compra das famílias angolanas?
O reajuste salarial anunciado visa repor o poder de compra das famílias que vem reduzindo de forma considerável nos últimos anos. A redução do poder aquisitivo também se reflecte nas despesas efectuadas na quadra festiva. Esta medida que o Governo pretende implementar baseou-se na análise da capacidade aquisitiva dos rendimentos das famílias, que registou uma tendência de redução nos últimos períodos, sendo que desde 2015 a inflação acumulada situou-se em cerca de 116%.

Os angolanos têm ainda o hábito de ser excessivamente consumistas?
A população angolana está a deixar de ser excessivamente consumista. Não obstante nesta época festiva, os gastos sejam maiores em relação às outras épocas do ano, não se tem verificado o alvoroço registado nos anos anteriores. Os supermercados registam um número de compradores muito reduzido em comparação aos anos anteriores porque as famílias estão cientes de que devem poupar mais para evitar “apertos financeiros” nos períodos que se avizinham.
De uma forma geral, poupa-se mais do que nos anos anteriores, fruto do contexto económico e dos programas de literacia financeira.

Uma pergunta particular: quanto vai gastar na quadra festiva?
Não vou gastar tudo nesta fase, vou gastar o necessário para ter uma quadra festiva de qualidade com a família, ou seja, gastarei menos do que tem sido hábito, cerca de 60% dos gastos feitos nos anos anteriores.
Por outro lado, também vou poupar, por uma questão de prudência e porque estou ciente que o período económico que o país vive e as incertezas futuras exigem de todos nós uma postura mais racional e cautelosa a nível dos gastos.