uando as estradas não oferecem conforto exigido como acontece com as nossas nacionais, a procura por aviões aumenta. Independentemente dos preços altos praticados pelos serviços aéreos, a verdade é que os aviões para Benguela, e acreditamos que o mesmo se passa para outros pontos do país, vão cheios.
As aeronaves da Taag e da Sonair, só para citar estas, voltaram a ser a solução e deixaram de constituir as alternativas. De Luanda a Benguela são apenas 35 minutos de voo. Para quem gosta de avião, viagem curta. Subir e descer. Logo, pouco apreciada. Para quem não gosta, é o encanto. Como dizia a viajante Teresa Máquina que, por ela, que fossem em 10 minutos. Pois é tanta a sua aversão às máquinas voadoras.
Apesar de parecer haver pessoas mais fóbicas, a verdade é que quer em Luanda, quer em Benguela, as “listas de espera” acabam insuficientes para resolver a procura. Há quem fique em terra por indisponibilidade de lugar.
Tudo isto se passa porque as estradas estão em processo de recuperação porquanto, depois de serem reabilitadas há alguns anos, elas voltaram a degradar-se, tornando as viagens fastidiosas e muito arriscadas, para não falar dos desgastes das viaturas. A situação actual em que as estradas se encontram tem sido igualmente palco de acidentes que já ceifaram muitas vidas.
Sobre as estradas nacionais muito já se falou. Sabe-se que sem as vias de comunicação rodoviárias, verdadeiramente operacionais, atrasamos no cumprimento de metas económicas e recuamos na vontade do resgate da felicidade das famílias.
O Jornal de Economia & Finanças, na sua edição da última sexta-feira, trouxe, no seu Destaque, o assunto sobre a Campanha Agrícola 2018/2019 e, entre as várias queixas dos produtores, a questão do escoamento teve acento tónico. O péssimo momento das vias constitui um empecilho no relacionamento entre o campo e a cidade.
Com certeza, como os produtos do campo têm de chegar aos grandes centros urbanos, por via de um exercício duro e cansativo, logo onera os custos. Pretende-se diminuir a importação de produtos que componham essencialmente a cesta básica, como se quer alavancar a economia doméstica. “Sem estrada não se faz nada”, observa um dos passageiros a bordo do Boeing 737-300, que às 18.55 regressava a Luanda.
O avião tinha lugares vazios, mas dos 12 passageiros da “lista de espera” apenas 7 conseguiram um lugar. Os demais regressaram para o hotel ou para casa.
O apelo geral é que as estradas “regressem”, à semelhança do que havia por altura do Campeonato Africano de Futebol realizado em Angola, em 2010.
Não se sabe se por razões de manutenção, mas é voz corrente que as estradas reabilitadas tiveram uma duração precoce e o país voltou a transformar-se em Ilhas.
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As vantagens das viagens por terra
As pessoas viajam por vários motivos. Visitar familiares e amigos, casamentos, negócios, férias e até mesmo por gosto. E a nossa terra oferece motivos inenarráveis. Cidades lindas, as maravilhas naturais, a hospitalidade das pessoas e também encanta o comércio feito ao longo das estradas, onde os preços convidam a uma breve paragem. É sempre uma solução para quem não consegue trazer o que produz à cidade. Mas o movimento de viaturas cessou e os vendedores regressam para casa com os produtos e pouco dinheiro.
A circulação é mais feita por camiões e autocarros que teimosamente continuam a desafiar os quilómetros de terra “mal” batida transportando para este ou outro ponto do país.
É verdade que há quem opte pelos autocarros por causa dos preços, ao contrário das viagens de avião. Claro, mais confortável e de pouca duração. Por estradas, são as gritantes peripécias por que se passa e conhecidas.
Mas aí está, como a onerosidade do serviço de táxis personalizados ainda afugenta, quem se desloca para uma outra cidade se vê a braços com limitações em termos de mobilidade e tem, por isso, de encontrar soluções internas.

Os incansáveis kupatatas
Curiosamente, salvo opinião contrária, os kupapatas (moto-táxis) começaram com o negócio em Benguela. Parecia meio estranho na altura. Mas depois o serviço se espalhou pelo país. Na cidade das Acácias Rubras, são de localização fácil. Cruzam constantemente a cidade e arredores. Estão sempre juntos dos principais pontos de concentração de pessoas.
Por cada viagem cobram 150 Kzs. À noite pode subir a 200. Não tem o conforto dos carros particulares que, no mercado municipal de Benguela onde ficam estacionados, podem cobrar por uma corrida de 10 quilómetros entre 3 e 5 mil kzs. Mas, lá estão os kupapatas a desempenharem o seu papel social. Afinal no aproveitar está o ganho. Ganha também quem por exemplo esteja nesta cidade e precisa de se movimentar.
Os kupapatas passaram a ser uma referência curiosa em Benguela. Percebe-se que são jovens que ocupam o seu tempo ganhando a vida porque têm famílias para cuidar, ao invés de levarem a vida praticando delinquência.
Eles também sonham por uma vida melhor porque, como nos disse o jovem motoqueiro Ilídio Salatiel, “kota, esta vida é dura. Todos os dias de manhã cedo e ainda nos roubam as motas conseguidas com muito sacrifício.”
Olha atentamente e pergunta: “Estou a ver o kota vestido, não é de cá né? Veio sem carro?” Acertou na mosca, como se diz. Em gesto de solidariedade concluiu dizendo: “As estradas não estão boas e muitos vêm de avião e p’ra nós até é bom”.
É bom para os kupapatas mas não é bom para quem pratica o comércio rural, como não é para os negócios do mercado da Canjala e outros de todas as estradas nacionais do país. Resumindo, não é bom para a economia que quer caminhar firme e estável.