primeiro aviso sobre as possíveis consequências nefastas das alterações climáticas tinha sido dado em 2017, pelo Departamento de Alimentação, Agricultura e Recursos Naturais da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), quando, na altura orientou os Estados-membros em risco a criarem condições para combater os efeitos da La Nina e El Niño (fenómenos climáticos que alteram o clima), com a construção de represas e sistemas de armazenamento de alimentos para colmatar as situações de maior profundidade.
De lá para cá, quase nada foi feito a nível dos países da região, principalmente no Sul de Angola, zona do país mais afectada pela seca. As represas, no caso, serviriam para atender as pessoas e os animais, bem como para a irrigação dos campos para a produção agrícola.
O segundo aviso surgiu em 2018, desta vez dado pela Organização Meteorológica Mundial e pela própria SADC, que chamaram atenção que a região Austral seria uma das zonas do hemisfério Sul, que mais sofreria com os efeitos das alterações climáticas. Enquanto Moçambique sofria com as chuvas em excesso, o Sul de Angola vivenciava a falta de chuvas. Países como a Namíbia, Zâmbia, Zimbabwe, Botswana, Madagáscar, África do Sul, Lesotho e Malawi, também passam pelo mesmo problema, tendo recebido menos 75 por cento de chuvas, o que afectou a produção agrícola e a criação de gado sobretudo, mas muitos com consequências e soluções à medida das condições económicas e financeiras locais.

Consequências são visíveis


Hoje as consequências são visíveis e precisam de soluções imediatas de curto, médio e longo prazos por parte dos Estados. Por exemplo, no caso de Angola, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estima que quase 2,3 milhões de pessoas carecem de ajuda humanitária, das quais cerca de 900 mil pessoas estão em estado de calamidade.
Desse total, 500 mil crianças estão em risco e 43 mil necessitam de ajuda urgente. No entanto, os reais danos da seca no sul de Angola parece estarem ainda longe de serem avaliados. Várias regiões das províncias da Huíla, Namibe e Cunene estão a viver a pior seca de todos os tempos.

Problema longe do fim
De acordo com dados avançados, em 2020, previa-se que entre 75 e 250 milhões de pessoas no continente sofreriam com o aumento da seca devido às alterações climáticas. Nesse mesmo ano, em alguns países, os rendimentos da agricultura de sequeiro podem ser reduzidos em até 50 por cento.
O aquecimento global de 2ºC coloca mais de 50 por cento da população do continente em risco de desnutrição. As projecções estimam ainda que, até 2040, as mudanças climáticas levarão a uma perda anual equivalente a dois e quatro por cento do PIB na região Austral. Muitos países como Angola e Moçambique, sobretudo, não acataram os sinais de alerta dados em 2015-2017.

Medidas de Estado para travar a seca chegaram tarde

As medidas de Estado para travar a seca no Sul do país, que já abrange seis das 18 províncias,  nomeadamente o Cuando Cubango, Huíla, Namibe, Benguela e Cuanza Sul, chegaram tarde, com o Cunene a ser a região mais afectada de todas, com mais de 176 mil pessoas a passarem fome e um registo de morte, até Maio, de mais de 26 mil cabeças de gado e 16 mil aves  entre Setembro e Outubro do corrente ano.
Segundo especialistas e de acordo com uma nota da Presidência da República que a imprensa teve acesso, os esforços que o Governo angolano tem empreendido para fazer frente ao impacto da seca, só esta semana atingiram uma etapa decisiva, com a conclusão do concurso público para a implementação de medidas que visam a criação de projectos estruturantes, para a construção de barragens, sistemas de captação de água e canais adutores naquela região Sul do país.
A nota que dá conta da aprovação de um despacho que aprovação dos contratos resultantes do concurso público, com início da concretização de seis empreitadas para solucionar, com respostas estruturantes, do cíclico agudizar da seca no Cunene, é possível falar de um real combate à seca e dos seus efeitos.
De acordo com a mesma nota, a primeira medida para solucionar a questão contempla a construção do Sistema de Captação de água a partir do rio Cunene, que prevê igualmente, bombagem, uma conduta pressurizada e um canal aberto, a partir da localidade de Cafu até ao Cuamato, bem como dez chimpacas, para servir de reforço.
Para a construção desta importante infra-estrutura, vai ser celebrado um contrato com a empresa Sinohydro Angola, no valor de 21 mil milhões e 479 milhões de kwanzas.
Por outro lado, está ainda prevista a construção de um canal adutor a partir de Cuamato até Dombendola, um outro canal a partir de Cuamato até Namacunde e,  20 chimpacas  que compreendem a segunda empreitada, a cargo da mesma empresa. Este contrato contempla custo de 22 mil milhões, 889 milhões de kwanzas, sendo medidas de médio e longo prazos.
A terceira empreitada, prevê a construção de uma barragem em Calucuve e vai estar a cargo do consórcio Omatapalo e Mota-Engil Angola. A obra vai custar 57 mil milhões e 850 millhões de kwanzas.
Já a quarta empreitada, compreende a construção de um canal adutor associado à barragem de Calucuve, a partir da localidade da Mupa até Ondjiva. Este canal vai ter um custo de 20 mil milhões e 579 milhões de kwanzas. O contrato será rubricado com a empresa China Road Bridge Corporation.
A empresa Sinohydro Angola recebe também a quinta obra, a construção de uma barragem no Ndúe, orçada em 72 mil milhões e  757 milhões de kwanzas. A quinta e  última obra será celebrado com a empresa GHCB, e prevê a construção de um canal adutor associado à barragem de Ndúe, a partir de Ndúe até Embundo, bem como 15 chimpacas. A mesma vai custar ao Estado 22 mil milhões e 441 milhões de kwanzas.

Perdas económicas
da seca ainda por calcular

Os prejuízos causados pelas alterações climáticas na região centro e sul do país ainda estão por calcular, na medida em que são consequências de um fenómeno natural persistente e com problemas de curto, médio e longo prazos difíceis de auferir num período de médio trecho.
Segundo vários especialistas ouvidos pelo JE, a verdade sobre o problema é muito mais grave e sério do que se pensa, uma vez que o mesmo não passa apenas pela abertura de furos nas zonas afectadas, mas sim por medidas de médio e longo prazo.
Para eles, a criação de raiz, de canais de irrigação, subestações de tratamento de água e a garantia permante de distribuição do precioso líquido às populações e animais, pode servir de solução imediata para o relançamento da economia local, sustentada principalmente agropecuária.
Por exemplo, na visão do especialista em políticas públicas,   Hélder Cafala, os prejuízos económicos já são visíveis, na medida em que aquela população deixou de produzir e consumir do seu esforço de produção diária e muitas outras serão sentidas a longo prazo. “Haverá uma espécie de desiquilíbrio em matéria de desenvolvimento regional. As zonas afectadas vão viver uma quase que paragem no tempo”, afirma.
Além do investimento que o Estado vai aplicar naquela região, em projectos que já deviam existir há muito tempo, este pode precisar de um remanescente de mais de 500 milhões de dólares à medida que for penetrando no problema como tal e ir, com tempo, erguendo as infra-estruturas para o combate aos efeitos da seca. “Alteração orçamental pode resultar de erros de cálculo nos projectos e em função das circunstâncias reais do fenómeno”, afirma o economista, João Henrique. Para o docente universitário e especialista em Administração Local do Estado, Hélder Batalha, o Estado perde porque deixa de produzir com eficácia numa determinada região do país, que deixa  de seguir a velocidade do desenvolvimento das outras regiões do país. “Os efeitos nefastos da seca além de já serem visíveis, serão sentidos na balança do equíbrio do desenvolvimento por regiões, apesar de que agora são ainda imensuráveis, mas são avultados”, referiu.