As incertezas sobre o crescimento da economia africana continuam a ensombrar um continente que depende maioritariamente da exportação de produtos e a não conseguir, durante décadas, concretizar o tão sonhado processo de integração económica almejado pela União Africana, que mais de 26 chefes de Estado ratificaram, em Março deste ano, em Kigali, capital do Ruanda.

Apesar dos esforços empreendidos pelos 54 países que compõem o terceiro continente mais extenso do mundo, depois da Ásia e da América, com cerca de 30 milhões de quilómetros quadrados, cobrindo 20,3 por cento da área total da terra, e o segundo mais populoso do planeta, depois também da Ásia, com cerca de mil milhões de pessoas, vê a sua economia ancorada nos 4.3 por cento de crescimento previsto para este ano, o que só um milagre pode alterar este paradigma macroeconómico vigente.

Recuperação económica
Por outro lado, uma outra visão menos optimista prevê um crescimento acelerado do agregado de África entre 2018 e 2019, a uma taxa de 3,6 por cento, impulsionado pela recuperação das maiores economias do continente, segundo o Banco Mundial (BM). Todavia, o ritmo de crescimento é ainda considerado abaixo dos níveis necessários para erradicar a pobreza extrema, conforme estipulado no Objectivo de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.
Tal crescimento continuará reduzido para os exportadores de petróleo, ao passo que os de metais deverão registar um aumento moderado, como um forte sinal positivo de crescimento. No quadro deste ambiente, a promoção do investimento público e privado deve ser, para o BM, prioritário nesses países, com destaque para Angola que tem o petróleo como principal produto de exportação.
Já as estimativas do Banco Africano para o Desenvolvimento (BAD) atestam que os cálculos das subidas constantes do preço do petróleo e da sua procura interna, assim como na recuperação do clima económico em quase todos os países, depois de um período de contracção no período 2014-2016, fez com que a economia africana se expandisse em 2017 para 3,4 por cento, uma aceleração relativamente superior a de 2016, que teve um crescimento de 2,2.
Na visão do BAD, é um sinal positivo para os próximos dois anos para o continente, ainda que os desempenhos económicos dos 54 Estados observados no relatório sejam desiguais. Quanto aos Estados que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), só a Guiné Equatorial apresenta perspectivas de prolongamento da recessão. Para o caso de Angola, o relatório do BAD estima que a economia nacional cresça apenas 3,2 por cento este ano, fruto do processo de diversificação e um pouco a brecha do aumento do preço do petróleo, actualmente perto dos 80 dólares norte-americanos.

Esperança nas matérias-primas
Este ano, a África vai beneficiar dos preços das matérias-primas, que começaram a subir no final de 2016, do aumento da procura interna privada, da gestão melhorada das políticas macroeconómicas já assimilada em muitos países, do ambiente de negócios favoráveis e de uma estrutura económica mais diversificada, particularmente nos sectores dos serviços e da manufacturação interna.
Por outro lado, os países exportadores de matérias-primas, entre os quais Angola e Guiné Equatorial, que enfrentaram um ano de 2017 difícil, começam a retomar o seu ciclo de crescimento normal. Os outros Estados puderam, em contraponto a este facto, apresentar crescimento económico e cimentar evoluções de anos anteriores.

Financiamento externo
Os relatórios do FMI, do BM e do BAD, por exemplo, apresentam três factores essenciais para acautelar o desenvolvimento do continente africano, nomeadamente a diversificação das exportações para reduzir a exposição aos choques de preços das matérias-primas, o melhor aproveitamento da capacidade do comércio intra-África e, por último, o foco dos governos em fazer andar as iniciativas de integração regional, tudo para permitir que o financiamento externo apresente um crescimento ligeiro ou superior aos 179,7 mil milhões de dólares registados em 2017.
De acordo com dados do BAD, as maiores fontes de financiamento do continente continuam a ser o Investimento Directo Estrangeiro (IDE), calculado em 57,5 mil milhões de dólares em 2017, e as remessas de emigrantes, que perfazem 66,2 mil milhões de dólares, valor que pode vir a ser superior este ano caso o comportamento económico positivo se mantenha.
As duas maiores economias de África, a África do Sul e a Nigéria, anunciaram, recentemente, o crescimento do PIB no segundo trimestre do ano, após vários meses em recessão.
“Enquanto o crescimento sul-africano está com tendência ascendente, a situação na Nigéria continua muito frágil”, considerou John Ashbourne, economista da Capital Economics para o Continente Africano.
A União Africana estima que o comércio inter-africano pode crescer de 44 pontos percentuais para 60 até 2022, desde que todos os membros entrem no acordo. As projecções do crescimento populacional do mercado livre também quase que dobram para 2, 5 mil milhões de consumidores em 2050, o equivalente a 26 por cento do que está projectado para a população mundial.

Banca de retalho
A banca de retalho em África é a que vai continuar a crescer e a inovar, além de que os mercados bancários africanos estão entre os mais interessantes do mundo, segundo um novo relatório da McKinsey Global Banking, publicado em Março deste ano.
O mercado bancário global do continente é o segundo com maior crescimento e o segundo mais rentável a nível mundial, e um viveiro de inovações, de acordo com o estudo.
Actualmente, quase 300 milhões de africanos são bancarizados, um número que pode aumentar para os 450 milhões em cinco anos. O relatório segmenta o mercado africano em quatro tipologias, nomeadamente os mercados avançados como a África do Sul e o Egipto, os de transição e rápido crescimento, como o Quénia, o Ghana e a Costa do Marfim, a gigantes adormecidos como a Argélia, a Nigéria e Angola e os mercados bancários nascentes, como a RDC e a Etiópia.
A banca africana mantém o segundo custo de risco mais elevado do mundo e com uma fraca disponibilidade de dados como parte do problema, onde os bureaus de crédito cobrem apenas 11 por cento dos africanos, comparativamente aos mais de 90 nos mercados avançados.

Crescimento por regiões
A África Oriental é a parte do continente que mais cresceu no ano passado, apresentando indicadores de 5.7 e previsões de crescimento de 6.0 este ano. Esta zona é seguida pela região Ocidental, com 5.5 por cento do crescimento real do PIB este ano. Já a África Central, com 3.8, o Norte de África, com 3.7 e a África Austral com 2.6 são as zonas do continente que menos vão crescer em 2018.
A África possui o segundo mais alto valor de custos sobre activos quando comparado com as demais regiões de outros continentes, com cifras de 3.6 por cento e com uma trajectória negativa. Somente as significativas margens têm protegido os bancos africanos e as economias no geral de uma queda no custo sobre receitas, o indicador de eficiência mais usado.
O relatório da McKinsey Global Banking, aprofunda quatro temas de inovação emergente em África, nomeadamente as transformações digitais de ponta a ponta, as parcerias com as empresas de telecomunicações, a construção de um banco digital e a construção de um ecossistema interligado continentalmente que pode vir a fazer a diferença no futuro.