O país entrou no leque do restrito grupo de nações com potencial na indústria de telecomunicações espaciais, com o lançamento em órbita, na passada terça-feira, 26, do Sistema de Satélite Nacional (Angosat-1).
O acto de lançamento foi feito por meio do foguete transportador ucraniano Zenit, a partir de Baikonur, no Cazaquistão, numa operação coordenada pela Roscosmos, a agência espacial russa, presenciado pelo ministro de Estado do Desenvolvimento Económico e Social, Manuel José Nunes Júnior, na companhia do ministro das Telecomunicações e Tecnologias de Informação,
José Carvalho da Rocha.
O satélite que levou pouco mais de sete horas para chegar em órbita, terá três meses de testes. Findo este período, o equipamento estará apto para ser usado, até completar os 15 anos previstos de vida útil. O Angosat1 terá a capacidade de cobrir um terço do planeta.
Um dos propósitos desse projecto, parte integrante do Programa Espacial Nacional, que está a ser desenvolvido pelo Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação é o da criação de competências nacionais no domínio das tecnologias
de comunicação por satélite.
O Programa Espacial Nacional visa também apoiar o desenvolvimento sustentável, medida que visa contribuir para o posicionamento de Angola como um dos “líderes” na área espacial em África.
Depois da África do Sul, Nigéria, Egipto, Marrocos, Tunísia e Argélia, Angola é o sétimo país que, dentro de três meses poderá garantir o acesso da população ao serviço universal de comunicações electrónicas, a preços acessíveis e através de serviços variados, com destaque à expansão dos serviços de comunicação via satélite, acesso à internet, à rádio e transmissão televisiva.

Infra-estruturas de apoio
O centro de controlo e missão de satélites do Angosat-1 encontra-se na comuna da Funda, município de Cacuaco,
na província de Luanda.
Possui um centro primário de controlo e missão em Angola e outro secundário na Rússia, em Korolev.
Para garantir o funcionamento do Angosat1 um total de 47 engenheiros espaciais foram formados na Argentina, China,
Coreia,  Brasil, Japão e Rússia.
A equipa de engenheiros é composta por 13 em canal de serviço, nove em análise de sistema, sete em planeamento, seis em administração de redes, igual número de directores de voo, quatro em balística e dois em gestão de projectos.
Os especialistas, formados em sete fases, concluíram três mil horas de aulas em engenharia e tecnologia espacial, construção de nano e pico satélites, revisão e aceitação técnica de projectos espaciais, formação sobre HUB Vsats, operações e missões espaciais, certificação em arquitectura do Angosat-1 e certificação de especialização em operação e controlo do Angosat1.
Construído na Rússia, o Angosat1 tem mil 55 quilogramas e 262.4 quilogramas de carga útil. Ficará na posição orbital 14.5 E e terá uma potência de três mil 753 W, na banda CKu, com 16C+6Ku repetidores.
O satélite geoestacionário artificial estará localizado a 36 mil quilómetros acima do nível do mar, e a sua velocidade coincidirá com o da rotação da terra. Conseguirá cobrir um terço do globo terrestre.

Estratégia
Na sua política os indicadores do sector sobre as políticas públicas para a área têm um impacto em todo território nacional, com realce nas regiões em que o acesso era difícil.
No âmbito do Programa Nacional de Desenvolvimento 2017/2022 existem metas que o sector do Ministério das Telecomunicações e das Tecnologias de Informação deverá atingir para permitir que os serviços ligados as TIC sejam mais acessíveis à população.
Neste sentido, destaca-se a implantação de infra-estruturas, de transferência do conhecimento e na geração de inovação tecnológica materializada em serviços na sociedade, com especial realce para a expansão de pontos de retransmissão nacional de fibra óptica, implementação dos cabos submarinos da rede da mediateca e do Angosat-1.
O projecto governamental ressalta ainda a necessidade de se instalar uma rede estruturada de voz e dados nas províncias.
Prevê igualmente assegurar a migração da transmissão analógica de rádio e TV para a transmissão digital em todo o território nacional, além de garantir o apetrechamento tecnológico da administração pública, bem como implementar uma estratégia de cibersegurança a este nível.

Desenvolvimento tecnológico
Em declarações à imprensa, minutos depois de ter assistido ao lançamento do primeiro satélite angolano em órbita, o ministro de Estado do Desenvolvimento Económico e Social, Manuel José Nunes Júnior, que chefiou a delegação angolana, considerou o acto como histórico.
Segundo disse, o Angosat-1  contribuirá para que o alcance de vários desafios, entre os quais a soberania, o desenvolvimento científico e tecnológico de Angola “e também os benefícios económicos e sociais que este projecto representa”.
Após o acto de lançamento, o ministro das Telecomunicações e Tecnologias de Informação, José Carvalho da Rocha, que falava à imprensa, nas vestes de coordenador geral do Programa Espacial Nacional, explicou que o projecto é complexo tudo porque “tivemos que gerir um contrato de 3 mil páginas e produzimos cerca de 12 mil páginas de documentação”.
Dados indicam que 80 por cento da capacidade do Angosat-1 será destinada para a comercialização, 10 para o sector de defesa e segurança e os restantes 10 para o segmento social, com realce para  a medicina (telemedicina)
e educação (teleeducação).
O Programa Espacial Nacional prevê também a construção de mais dois satélites, um dos quais para fins meteorológicos.

Oferta de serviços
garante reembolso

O Sistema de Satélite Nacional (Angosat-1) começa a funcionar em pleno daqui há três meses, o que poderá assegurar a estabilidade da oferta de serviços de telecomunicações a nível do mercado nacional.
A forte aposta começou a ser desenhada há cerca de 10 anos, com negociações entre Angola e a Rússia, seguindo-se a construção, iniciada em Novembro de 2013, num investimento global de 320 milhões de dólares norte-americanos.
Prevê-se que com a entreada em funcionamento do Angosat-1 se reduza os custos operacionais das operadoras de prestação de serviços, principalmente de telefonia móvel.Dados do Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação indicam que, actualmente, as operadoras do sector das telefonia alugam segmentos espaciais e satélites que “iluminam” esta região, e todas elas juntas gastam em média por mês entre 15 a 20 milhões de dólares.
Com o investimento aplicado pelo Governo angolano, acredita-se que em dois anos poder-se-á recuperar o dinheiro aplicado.
Até 2015, o país contava com cerca de 14 milhões de utilizadores das redes móveis, três milhões de internet e mais de 400 mil de mediatecas.
No quadro do processo de registo e actualização de dados dos utentes dos serviços das comunicações electrónicas, que, desde 2014, registou 11.396.238 contactos activos.
Até ao mês de Novembro, os números já registados correspondem a 95 por cento da base de números activos.

Comercialização
Cerca de 40 por cento da capacidade do Angosat-1 já está reservado para a sua comercialização.
As intenções de operadores que já mostraram a sua disponibilidade em usar serviços prestados pelo Angosat-1, destacam-se países da sub-região Austral, nomeadamente Namíbia, República Democrática do Congo, África do Sul e Moçambique.
A intenção do Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação é de continuar a fazer o marketing para se aumentar as reservas e, num espaço de dois anos se possa recuperar o investimento aplicado para a construção do projecto.


Recuperado o contacto
com satélite
O secretário de Estado das Telecomunicações assegurou ontem, à saída da reunião do Conselho de Ministros, que o Angosat-1 voltou a estabelecer contacto com as equipas técnicas em terra tanto angolanos como Russa.
Manuel Homem respondia deste modo às preocupações relativas ao anúncio, quarta-feira, da perda da comunicação.
A este respeito, o ministro José Carvalho da Rocha, ainda na Rúissia, falou em conferência de imprensa aos jornalistas sobre o ocorrido entre o satélite “Angosat-1” e as estações de controlo de Baykanour, no Cazaquistão, e Rovobono Sport, na Rússia.
Na ocasião, disse ser normal e prevista no protocolo de activa­ção do engenho, que tais situações ocorram.
O ministro desvalorizou os cenários criados no sentido de um eventual prejuízo, por se tratar de um acontecimento “normal” em processos do género.
“É normal que as pessoas estejam preocupadas e queiram ter acesso a informações concretas. Fomos informados, pela equipa que está na estação de Baykanour, que o satélite está na sua base orbital. Precisamos, agora, das próximas horas, para que os engenheiros possam concluir com exactidão o que se está a passar, com recurso à observação microscópica”, disse.