Jorge Baptista percebe as dificuldades por que passam os seus associados que investiram e investem no sector industrial. Preconizado como estratégico, hoje a realidade do sector é a falta de quase tudo, desde matéria-prima a quadros expatriados que se ausentam do país; pelo que só a indústria de bebida está a consolidar a sua posição, enquanto os outros, diz o empresário, vivem dias piores. “É preciso reinventar o sector com visão e coerência”, atira.

O Executivo previu um peso maior da indústria não petrolífera na diversificação da economia no período 2013-2017. Como avalia o sector no país?
É uma pergunta muito pertinente e como já o fizera uma vez, volto a dizer o que penso: estamos a passos de camaleão, não houve evolução no sector, há falta de visão por um lado e por outro insipiência de políticas coerentes para o sector, pois andamos “a brincar de embalar coisas” em nome da industrialização do país. Faltam incentivos para fomentar. Além da indústria de bebida, que vai dando o ar da sua graça, o resto está por se fazer. Não posso aceitar que um país como o nosso com um imenso potencial não conseguiu ter um parque industrial capaz de suprir as suas necessidades. Importamos tudo ou quase tudo. Damos empregos, enviando divisas para o exterior. Falta-nos quase tudo desde uma agulha a um avião. Temos tudo para dar certo. Pessoas por capacitar é claro, recursos naturais, mas nos falta visão e até posso ir mais longe falta competência por parte de quem tem a responsabilidade de fazer o processo produtivo avançar.

Mas os objectivos estavam traçados?
Não voltemos a dar as desculpas da guerra porque a industrialização não avançou por falta de visão, competência e desvios de objectivos. É necessário parar para ver o que falhou e idealizar outras metas, é vergonhosa a realidade do parque industrial nacional, mas é possível reverter a situação com vontade e sem muitas contracurvas e curvas. Está em nós a solução, há gente capaz de fazer a missão sem outros parênteses nas entrelinhas.

Que desafios aponta para indústria depois do PND 2013-2017?
Ora são infinitos; em primeiro lugar, é importante admitir que a máquina administrativa que suporta o ministério e os seus institutos é pesada e pouco produtiva. É uma máquina enorme que não produz resultados e valor para o sector, o país já não suporta isso, temos que ter coragem de dizer a verdade quando estão em jogo os resultados nacionais. Os actuais resultados são lastimáveis e insuportáveis, o sector está a deriva e o Estado ainda quer virar empresário fazendo o papel inverso. Os negócios são vocação dos empreendedores e não do Estado, não é normal ver o Estado a montar qualquer negócio, fábrica que seja em nome de não sei que objectivo.

E vê pelo menos com algum optimismo o ano de 2018 para o sector?
Como podemos achar normal pensar em industrializar o país se as condições não são as melhores para tal? Os pilares do desenvolvimento não funcionam e são controversos e cheios de vícios. Essa ideia de prever o futuro com milagres não é solução para o país. O presidente João Lourenço tem muito a fazer para mudar o paradigma actual e precisa trabalhar e fiscalizar muito, já que as incompatibilidades são reais na máquina que tem a missão de levar a bom porto o sector industrial como um elemento chave para o desenvolvimento de Angola. É preciso reinventar o sector com visão e coerência. Sendo um fazedor de opinião e tendo a experiência que tenho sobre o sector ou mudamos ou pioramos a nossa situação, estamos proibidos de falhar.

Qual é o grau de competitividade das nossas indústrias?
Excepto a indústria de bebidas, o resto não existe. Não podemos falar da competitividade se é uma palavra que ainda não entrou nos ouvidos de muitos gestores da política pública do país; a competitividade é prioridade mas devido a factores diversos estamos muito aquém das metas preconizadas. Não há fabricas, então não há competitividade diversificada.

Que entraves dificultam a diversificação da nossa indústria.
São muitos, a burocracia excessiva, os esquemas, as confusões nas definições dos objectivos para o crescimento, a falta de visão para alavancar o sector, a falta de atractividade para quem sonha ter uma indústria. Há ainda factores tão determinantes como a Lei de Terras e acções impróprias para o crescimento económico e industrial, falta de acessos aos financiamentos bonificados ou fundos para alavancar o sector industrial. Enfim, muita coisa anda mal. Hoje estamos catalogados de incompetentes por excessivos falhanços e por elevadas politiquices introduzidas no sector industrial. Há gente que não entende de desenvolvimento a dirigir sectores importantes da vida do país, que consequentemente por falta de preparação deixam marcas negativas no sector que se pretende fomentar.

Acha que os pólos de desenvolvimento industriais podem ser a alavanca do sector e aumentar a produtividade?
Da forma que estão concebidos não. Pode incluir as Zonas Económicas Especiais que são um fiasco grande. Desta forma, o Estado precisa ter fórmulas mágicas para atrair investidores quer nacionais ou estrangeiros, pois não podemos criar pólos para serem negociatas de venda de terrenos onde se confunde um pólo com outras coisas, gente que quer ter um terreno como herança ou como fonte de ganhar dinheiro, enquanto os objectivos não são cumpridos. Fala-se de pólos mas na verdade não o são, devem ser chamados de outra coisa mas de pólos industriais não. Para ser mais claro: um pólo deve ter condições para receber uma indústria e me parece que o terreno é o verdadeiro negócio desses pólos. É preciso acabar com isso e o Estado, volto a repetir, não deve criar elefantes brancos; o país é urgente e precisamos de dar passos para frente e nunca de recuar.

No Plano Nacional de Desenvolvimento (2013-2017), o Executivo previa impulsionar as infra-estruturas necessárias para apoiar e dinamizar o sector privado, mas a diversificação da economia está aquém do desejado. O que falhou na sua perspectiva?
O que falha sempre é a implementação. Rodeamos os assuntos com espírito político e nos esquecemos da missão e dos aspectos científicos ligados ao crescimento sustentável e a economia do desenvolvimento. Queremos ser bons teóricos e na prática somos contra desenvolvimento. Não bastam bons planos se a realidade é cinzenta ao que se denomina ser um PND, as previsões foram feitas baseadas numa bola de cristal e esquecemo-nos das normas e das boas práticas.

O ministério reafirma que a indústria transformadora já implantada no país cresceu consideravelmente nos últimos anos, apesar de algumas demonstrarem baixa capacidade produtiva e de funcionalidade. Concorda com essa visão?
Se um Ministério como o da Indústria vem dizer isso, a nação devia receber um cartão vermelho do Titular do poder executivo. Volto a frisar que estamos a brincar com o futuro e só estou a falar do sector industrial, mas tenho a certeza de que outros que seriam complemento desse sector estão no mesmo caminho e assim não teremos progresso sustentável tão cedo. Podemos todos trabalhar com missão e visão no sentido de atingirmos metas e objectivos para contribuir no desenvolvimento do país.