O economista Simão Gamba é mais uma voz que se junta a muitas que, face ao actaul cenário macroeconómico, pedem ao Governo para rever a política salarial. Para ele, atendendo a já anunciada subida do Imposto sobre o Rendimento do Trabalho (IRT) é expectável que haja actualização em níveis da actual taxa de câmbio.

E isso justifica-se ainda mais por causa da depreciação da moeda que está a causar uma subida quase que generalizada dos preços dos bens essenciais, retirando às famílias o poder de compra.
Simão Gamba lembra que os angolanos comem mais do que compram no exterior e essa opção também pesa nas Reservas Internacionais Líquidas.
Sobre a actualização salarial, diz não ser uma boa notícia para os patrões, pois sabem que isso encarece o custo com pessoal e se não for acompanhada com o aumento da receita, também originaria outros estragos.
Mas, o economista vê contra-senso na decisão de a Assembleia Nacional aumentar ou ajustar salários, quando o Presidente da República, recentemente, disse não existir condições para esse fim na função pública.
“Por mais que se justifique o ajuste no Parlamento como uma decisão que já decorre do ano passado, é claro um contra-senso, pois vai em direcção contrária aos discursos oficiais”, disse.

Lições que se devem rebuscar
Já Filomeno Vieira Lopes disse que, apesar do ajustamento no Parlamento ser normal é visto de forma antipopular sobretudo porque vem a destempo e a maioria dos cidadãos não sabe do decreto presidencial.
A Assembleia poderia ter optado por solidarizar-se com a situação de degradação da condição social dos angolanos, mas detém uma maioria ávida de poder económico, o grupo do “vem a nós” e isto dificulta uma posição de algum sacrifício.
Pior que o salário são alguns subsídios e as ajudas de custos e despesas de representação, não só dos deputados, mas de toda alta administração pública, que acabam por ser um complemento ao salário e não um custo efectivo, ou seja, só atribuível quando se realiza uma despesa que corresponda a natureza da rubrica. Para tanto, toda a função pública deveria utilizar cartões de crédito e justificar pelo custo real o respectivo subsídio. Esse simples procedimento corresponderia a uma poupança pública significativa, de muitos milhares de milhões de dólares.

Salários

Austeridade feroz levará vulneráveis
à pobreza

O economista Filomeno Vieira Lopes questionado sobre o não ajustamento dos salários face ao actual quadro depreciativo da moeda disse ao Jornal de Economia & Finanças que o Executivo aposta numa política de austeridade feroz que elevará a pobreza dos grupos mais vulneráveis. Para ele, o país tem estado à saque – já toda a gente percebeu que os cofres têm estado abertos para o núcleo depredador minoritário - e quem vai pagar isto são os cidadãos em geral. “Repare que não se fará ajustamentos salariais, este ano, quando a inflação é galopante, os impostos e taxas administrativas aumentam também. Veja-se o caso da taxa de circulação, por exemplo, e mesmo dos serviços públicos, como extrair certidões, etc. “O pior ainda é que não temos um orçamento que seja uma verdadeira peça de gestão e que há muitos furos nas finanças públicas por onde se escapam rendimentos que não vão contribuir para a realização de despesas públicas com impacto na economia e no rendimento das pessoas”, disse.
Filomeno Vieira Lopes acredita também que não há segurança de que a inflação seja um fenómeno passageiro, pois há um certo desnorte na política económica – o controlo da massa monetária parece complicado - que não conseguiu prever o “push” inflacionista aos níveis que se verifica.
O também investigador social afirmou ainda que o quadro é na realidade crítico. “Tivemos uma inflação altíssima nos dois últimos anos que justificaria um aumento salarial de mais de 70%. Há uma inflação actual criada pela expectativa da flutuação cambial que, em muitos produtos, chega aos 80%. Vivemos num país em que a pobreza está diagnosticada como baixos rendimentos familiares, sobretudo das famílias produtoras de bens e de conhecimentos (professores)”. Na sua visão, hoje, um operário especializado na função pública ganha menos de Kz 40.000, ou seja, menos doze vezes que o salário de um ministro, sem que aquele tenha outras “alcavalas”, pois o salário líquido do ministro triplica com outros rendimentos.
Disse ainda que está à vista um maior empobrecimento das famílias no presente ano, pois os investimentos sociais, que poderiam funcionar como almofadas, são igualmente exíguos. Não há apoios em água potável barata, nem em energia, também nas escolas e sobretudo nos hospitais, pois o Orçamento em debate mostra que não há mesmo verbas para o “social”.
“Ao manter-se significativa a diferença entre as taxas de câmbio oficial e do paralelo, isto quer dizer que a taxa oficial vai continuar a subir e a maioria dos agentes económicos vai tomar como referência a do paralelo. Sem ajustamento salarial, significa que a depreciação da moeda transmite uma quase equivalente depreciação do próprio salário”, esclarece.