Dados  oficiais  relativos ao nível de inflação no ano passado, que se situou em 9,6 por cento, demonstram que os preços dos produtos básicos registaram uma certa estabilidade. Mas, tal não foi o caso do ovo cuja oferta escasseou no mercado durante os dias que antecederam a quadra festiva, facto que fez disparar o seu preço nos mercados formal e paralelo, chegando a custar três vezes mais; ou seja, 150 kwanzas cada ovo ao invés dos habituais 50 kwanzas, que é o preço praticado no mercado informal.

Sobre o assunto, levantam-se três hipóteses para explicar as causas da escassez do ovo e da sua consequente subida de preço. Houve quem acreditasse numa possível proibição do ovo importado, outros culparam a ganância dos agentes económicos na época do Natal. Há uma terceira hipótese que defende que houve uma subida de preço junto dos produtores nacionais.

Produção em alta
A reportagem do JE visitou algumas fazendas para constatar a produção na origem e saber se houve aumento de preço na venda do ovo aos distribuidores e retalhistas. O presidente da Associação dos Avicultores de Luanda, Rui Santos, negou qualquer responsabilidade dos produtores como causa do aumento do preço do ovo no mercado durante o Natal.

De acordo com Rui Santos, os produtores venderam os ovos aos seus clientes ao preço habitual, que varia entre os 20 e 22 kz, sendo que à margem de lucro estipulada oficialmente para a venda deste produto é de 25 por cento. “Não houve aumento de preço da parte dos produtores”, assegurou. “O que se passou, pelo contrário, é que houve limitações na importação e os produtores não conseguiram atender totalmente à elevada procura naquele momento”.

Por sua vez, a administradora da fazenda “A Pérola do Kikuxi”, Elizabete Santos, afirmou que na véspera da quadra festiva os produtores mantiveram os níveis de produção e os preços inalterados. “Não houve falta de produção. Houve sim outros factores e vícios como a especulação de preços pelos agentes económicos. Acredito que as autoridades competentes irão pronunciar-se a respeito disso”, afirmou.

Segundo Rui Santos, que também é sócio-gerente da PECAC (Sociedade Agro-Pecuária do Cacuaco), é possível que tenha havido limitações na importação dos ovos, facto que justifica, em parte, a carência registada.

Aventa-se a hipótese de ter havido imposição de uma quota de importação de ovos na perspectiva de que a produção interna desse conta da demanda. Mas não foi o que aconteceu. O facto é que a produção interna não foi suficiente para responder às necessidades devido ao aumento vertiginoso da procura, situação que afectou principalmente os pequenos produtores.

“Houve, por exemplo, casos de supermercados que triplicaram os seus pedidos em função desta situação. Se antes faziam pedido de 500 cartões semanais, começaram a solicitar acima de 1.500 cartões, o que gerou uma grande pressão junto dos pequenos produtores que não conseguiram acompanhar”, referiu Rui Santos.

Importação deve ser controlada
Entretanto, o sector da avicultura no país apresenta forte potencial de crescimento para os próximos anos. Elizabete Santos, da fazenda “Pérola do Kikuxi”, não tem dúvida disso. “O sector vive uma fase de transição, em que passamos de uma produção artesanal para industrial. Agora é preciso criar sinergias para que possamos dar um contributo significativo ao desenvolvimento económico”, disse, antes de acrescentar que o país possui os recursos naturais necessários para fortalecer o sector produtivo, particularmente do ramo alimentar.

“É de louvar o esforço do Executivo na criação de legislação que impõe condições para que as importações sejam feitas salvaguardando os interesses dos produtores nacionais”, sublinhou.

Mais fiscalização
Para Elizabete Santos, a importação de produtos como o ovo pode continuar desde que não comprometa questões relacionadas com a saúde pública. “É sabido que a qualidade dos ovos importados não é das melhores. São produtos que, nalguns casos, os países que vendem nem utilizam para o consumo das suas populações. Isto é grave”, afirmou.

Mais adiante afirmou que os ovos importados trazem no rótulo informações falsas sobre o período de validade. Para justificar, disse que o ovo é um produto perecível muito sensível, tanto ao choque como às condições de armazenamento que nem sempre são as mais apropriadas. O tempo que se gasta no transporte marítimo, no processo de desalfandegamento, no transporte e armazenagem até chegar ao consumidor compromete a qualidade do produto.

Por isso, apelou aos consumidores no sentido de preferirem o ovo de produção nacional, que não necessita de “estocagem” e chega ao consumidor final logo depois de ser produzido.