Por sua vez, Ruth Salgueiro, explica que as aulas no ensino geral arrancam e já preparou as vendas de manuais para o quinto até o oitavo ano de escolaridade. “Estamos a comprar a 1.500 kwanzas, o conjunto dos livros e a revender a 2.000 kwanzas”, conta. Mas sem revelar onde os adquire.
“Já decidi que vou apenas dedicar-me à venda de cadernos porque vai ser uma fase em que os cadernos terão maior saída e com maior facturação”, observa a vendedora da zona do mercado do Zango, em Luanda.
Helga Finéias disse que as vendas continuam muito baixas, clientes não há, de vez em quando compram um ou dois livros, e há dias que mesmo com clientes, não se consegue vender, devido à pressão dos agentes da fiscalização.
“Encontramos os locais onde vendem esse material escolar a grosso, da 3.ª classe, estamos a comprar cinco livros no valor de 700 kwanzas e vendemos a 1.000 kwanzas, os da 1.ª classe vendemos cada livro a 200 ou 500 kwanzas e os da 5.ª classe vendemos cinco livros a 2.000 kwanzas”, revelou.
Com o negócio em baixo, a vendedora ambulante prefere esperar pelo arranque das aulas, para fazer contas à vida.
O gestor Luís Waldecir disse que tem feito muita matemática porque a sua renda mensal não permite que se façam gastos avultados. Explicou ter já comprado cadernos, batas e mochilas. Afinal as aulas arrancam já a 5 de Fevereiro e prolongam-se até Dezembro.
Os mesmos cálculos são feitos pela funcionária pública Patrícia de Sousa, mãe de duas estudantes para quem as dificuldades na aquisição do material escolar resultam do baixo poder de compra actual, com salários inalterados, inflação a disparar devido à crise e preços especulativos na venda dos materiais.
“Só de pensar que tenho de comprar mais de cinco ou seis livros já é complicado. Por exemplo, só para a compra de cadernos devo gastar não menos de 7.000 kwanzas, sem contar os livros, a mochila ou a bata, que são 3.500 kwanzas, ainda as esferográficas. No mínimo tenho de ter mais de 70.000 kwanzas, para cada uma e é muito complicado”, desabafou.
Ainda assim, disse que faz “o sacrifício” pelas filhas.
“A solução é apertar o cinto, para ver as minhas meninas na escola e bem equipadas”, replica.
Dificuldades que Lúcia Aleixo, contabilista, também conhece, já que teve de pedir o adiantamento de dois meses de salário para fazer face às despesas do material escolar para os seus três filhos, um no ensino secundário e dois do ensino primário.
“Não dá para comprar tudo de uma só vez. Então, comprámos aos poucos. Tenho três filhos e já gastei quase 100.000 kwanzas. Com aquilo que ganho não dá para conciliar com os gastos da casa, daí que tive de pedir adiantamento salarial”, contou.

Gabriel Ganga
Vendedor ambulante -o dia-a-dia das vendas tem sido difícil, porque actualmente as escolas têm estado a fazer a distribuição dos livros

Helga Finéias
Vendedora ambulante-as vendas ainda continuam baixas. Não há clientes. de vez em quando, compram-nos um ou dois livros. sabe que temos de lidar com os fiscais

Patrícia de Sousa
Funcionária Pública-só de pensar que tenho de comprar mais de cinco ou seis livros já é complicado. só para cadernos devo gastar não menos de kz 7.000

Ruth Salgueiro
Vendedora ambulante-vou apenas dedicar-me à venda de cadernos porque vai ser uma fase em que os cadernos terão maior saída e com maior facturação

Luís Waldecir
Gestor-tenho feito muita “matemática” porque a renda mensal não permite que se façam gastos avultados. Mas já comprei os livros e cadernos, felizmente

Lúcia Aleixo
Contabilista-Não dá para comprar tudo de uma só vez. Então, comprámos aos poucos. recorri a um empréstimo para atender este objectivo

Propinas ainda “roubam” o sono
No início de cada ano lectivo, para o ensino geral, ou o académico, para a formação superior, o debate sobre as propinas e emolumentos cobrados pelos serviços de educação vêm sempre à tona e centralizam os debates.Neste capítulo, retomamos um artigo publicado no diário Jornal de Angola, que abordou a problemática do ensino privado, as propinas e a lei.
Na publicação, pôde-se ler que o serviço de educação em Angola enquadra-se no regime de preços vigiados. Estranhamente, apesar da lei, por força do Decreto Presidencial número 206/11, de 29 de Julho, definir que o aumento das propinas compete ao Ministério das Finanças, o aumento dos serviços prestados nas instituições de ensino privado tem contrariado este diploma legal. Os “clientes”, de forma mesmo ameaçadora, ficam privados vezes sem conta dos seus direitos enquanto consumidores. Por tudo isto, fica-se sem perceber em que se baseiam as instituições de ensino privado para procederem, unilateralmente, aos aumentos de preços dos serviços prestados. A questão, que se arrasta há anos, levanta sérias dúvidas quanto à sua definitiva resolução.

Já em finais de Dezembro de 2017, o presidente da Associação Angolana dos Direitos do Consumidor (AADIC) considerou a prática, de abusiva e tremenda impunidade com a anuência dos Ministérios da Educação, Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação. O que deverá ocorrer este ano é uma novela que vai levar 10 meses.