Lá foram os tempos em que, para comprar uma viatura usada não era necessário tanto exercício como se verifica nos dias de hoje. Pois bastava dirigir-se a uma casa de câmbio ou dobrar uma esquina para adquirir os dólares nas kinguilas e posteriormente seguir a um stand ou parque automóvel e comprar a viatura desejada.
As viaturas usadas eram na sua maioria Toyota, pois devido à sua durabilidade se adaptava às condições financeiras e do mercado. Por exemplo, para comprar um Toyota Starlet num Stand, o cidadão bastava adquirir no mínimo usd2.500 e para um Corolla 3.500, um Carina E, 4.500 e um Rav 4, usd 10 mil (Dubai) e 12 mil (Europa).
Era tão simples e fácil de modo que a prática de compra de viaturas usadas (no exterior) e venda (no mercado nacional), virou um negócio próspero para muita gente. Aliás, muito boa gente dava-se ao luxo de mudar de carro em cada dois anos.
A maior parte dos carros usados era proveniente do mercado europeu como Bélgica e Alemanha. Mais tarde o negócio alargou-se para os Emirados Árabes Unidos, onde apesar de as viaturas terem volante à direita e serem menos duráveis, eram mais novos e com um certo conforto.
Os que faziam negócio de carros usados eram na sua maioria despachantes oficiais, pois tinham maior facilidade de viajar devido a certas prerrogativas que gozavam. Aliás criaram milhares de empregos para jovens.
Por exemplo, quem fosse aos parques da Filda, no Cazenga e do Porto Seco, em Viana, podia encontrar motoristas, mecânicos e electricistas.
Cada um desses “profissionais” tinha uma certa tarefa. Os motoristas prestavam serviço às empresas que adquiriam frotas de carros e muitos deles não tinham condutores para tirar as viaturas do parque para a empresa.
O mesmo sucedia com os despachantes oficias que adquiriam 10 ou 15 carros e solicitavam os serviços dos motoristas. E quando o carro apresentava problemas em função do tempo solicitavam os serviços dos electricistas ou mecânicos.
Por isso, muita gente fazia dos parques de automóveis o seu local de trabalho onde diariamente levavam para casa kz 10 a 20 mil.
Foi assim durante muitos anos, tanto mais que muitos conseguiram construir as suas residências e dar formação aos seus progenitores .
Mas, a situação mudou em 2014, por força do Decreto Presidencial 62/14 que estabeleceu um limite para importação de veículos usados até 3 anos de idade para Ligeiros e 5 para Pesados.
Com essa medida os cidadãos foram forçados a desistir do negócio, pois não possuíam recursos suficientes para dar continuidade, deixando assim para traz um rasto de desempregados, pois um carro de ate´3 anos no mercado europeu era como quase novo.
Foi assim que em 2014, os cidadãos tiveram que enveredar pelo crédito automóvel de carros novos.
Os bancos comerciais foram chamados a conceder este tipo de crédito, mediante condições pré-estabelecidas e cujos salários fossem compatíveis com o tipo de viatura pretendida.
Por essa razão, nem todos conseguiram realizar o sonho do carro próprio. Alguns com salários mais baixos enveredaram pela compra dos Hyundais i10, Suzuki Spark e Celerio, outros com salários mais confortáveis apostaram nos KIAS Sportage, Hyundai Accent e Elantra.
Em função dessas dificuldades, o Governo recuou na sua decisão, e o Decreto Presidencial 71/15 veio alterar os procedimentos, passando os Pesados para 8 anos. E o Decreto 161/18 alterou para 6 anos nos Ligeiros e 10 anos nos Pesados.
Segundo especialistas, estas alterações tiveram como motivação facilitar o acesso à aquisição de viaturas por parte de particulares e empresas com menos recursos financeiros.
Mas o impacto não teve o resultado que se esperava. Primeiro porque o recurso às divisas não é fácil e por outro, o custo provocado pelo efeito da desvalorização, recurso eventual à compra de divisas no mercado paralelo e custo de manutenção de veículos muito usados, tornam inviável a sua aquisição.
Agora, muitos cidadãos estão à espera que o Governo faça alguma coisa para facilitar a vida, quanto à aquisição de uma viatura.
Até porque nos dias que correm, ter uma viatura já não é uma questão de luxo, mas de necessidade crescente em função da exiguidade dos meios de transporte público e do crescimento das cidades.