O tempo de vida útil de um carro é definido pela qualidade da sua revisão, trato do condutor ou proprietário e o estado das vias que utiliza. Se houverem outros factores, todos vêm de acrescímo aos anteriores.
Paulino Viti é um empresário, que aos 37 anos sabe olhar para trás e compreender as lições que a vida lhe proporcionou e que ele soube interpretar a seu proveito.
A sua viatura Mercedes chama atenção pela chapa de matrícula AF no final, e no seu verde vislumbra esperança de quem quem vive o ontem, o hoje e o amanhã com a mesma determinação.
Viti é simples, mas um homem de mãos cheias. Possui bombas de combustíveis contentorizadas e faz entregas interprovinciais de produtos de vários tipos também com a sua “verdinha”.
Em sua posse, o carro que lhe ajudou a construir o seu “mini-império” empresarial conta com cerca de sete anos, mas como o recebeu às mãos de outrem, acredita que o mesmo bateu a meta da década. Aliás, esta viatura e a outra de chapa de matrícula AK são sempre interpeladas pela polícia sob a desconfiança de as ter mafiado (expressão usada para designar o uso de chapas de matrículas falsas em carros no activo).
Estes carros que lhe dão milhões de kwanzas todos os meses e sustentam o negócio da camionagem de Viti já pernoitaram em esquadras de polícia. Só a história de como adquiriu-as, cuida-as e reforçada pela documentação verídica devolvem-lhe, vezes sem conta, o seu ganha-pão.
“Dos meus carros cuido eu mesmo. Felizmente, entendo de mecânica básica e supero as avárias. Mas nunca abri o motor de nenhum destes. Continuam impecáveis”, disse.

Cobiça

Paulino Viti diz que por altura das entregas, sobretudo na região Norte (Uíge e Zaire), onde frequentemente se desloca, as tentativas de aliciamento para que venda a sua “verdinha” são sucessivas.
Segundo disse, talvez qualquer dias destes aceite as ofertas tentadoras, mas por agora resiste, pois sabe da qualidade e resistência dos motores mercedes. Esta é a razão da existência de um elevado número de interessados no seu camião.
O dono do “carro-empresa”, pois o veículo factura tal qual muitos dos seus negócios formalizados e cadastrados no controlo oficial, recomenda que as pessoas devem investir recursos em meios que resistem às adversidades.
À semelhança de Viti, na centralidade do Sequele, em Cacuaco, província de Luanda, encontramos Inácio Alberto Pedro.
O jovem começou a falar-nos, em gesto de apresentação, da sua carrinha Isuzu de forma peculiar.
“Está aqui o carro que o japonês fez assentado”, disse, soltando risos.
De sua titularidade desde 2001, os 16 anos de andamento nas estradas angolanas que já percorreu o carro de Inácio Pedro só são contrariados pelo estado do veículo.
Já alguém dizia: nem parece. Tem a idade de muito boa gente e parece melhor que outros tantos.
A Isuzu, com a matrícula LDN, é um caso de reflexão.
A história do carro junta-se o facto de o seu proprietário ser jovem. A referência é de que nessa idade desperdiça-se tudo e mais qualquer coisa, pois o futuro sempre pode dar outras e melhores oportunidades.
No parqueamento da Centralidade do Sequele ver um carro com mais de 15 anos em andamento deixa à vista dos olhos comuns um caso de extrema raridade. Seguramente, pelas estradas de Angola existirão muitos.
“Era solteiro quando recebi este carro. Hoje, sou pai de três filhas e marido de uma linda esposa, que também ajudam-se e muito no cuidado deste carro”, manifesta.

Exemplos a seguir

Como estes dois angolanos há muitos outros espalhados por aí, com histórias incríveis, mas com um coisa em comum: eles sabem valorizar o que conquistaram com trabalho árduo.
No caso dos carros, há mesmo quem mude de ano em ano ou um pouco acima disso. O importante como disse Inácio Pedro é que as pessoas vivam dentro de suas possibilidades sem ilusões nem falsas modéstia.
Para quaisquer dos casos, nota-se que ao longo destes anos, Paulino Viti e Inácio Pedro conseguiram reservar algumas economias, pois os anos de duração de vida útil dos seus veículos fazem com que estes poupem alguns trocos.
Não de só menos importância, é também o facto de ambos estarem abaixo dos 40 anos. São frutos da nova geração, que mostram de forma clara que também são capazes.
Eles provam ainda que nada é impossível, desde que nos mostremos com disposição e capacidade de superação, independentemente das várias circunstâncias vivenciadas.