O Banco Nacional de Angola (BNA) avaliou, no final de 2019, vários activos de instituições por si monitorizadas, medindo carteiras de crédito de 26 bancos comerciais que actuam no mercado angolano, para perceber a extensão do problema do crédito malparado.

Com isso, o BNA procurou forçar os bancos a assumirem o crédito vencido e a reforçarem o capital. Nessa intervenção, o BNA não só quis quantificar, mas qualificar a verdadeira dimensão do malparado, além de forçar as sociedades a um aumento de capital que, acima de tudo, buscou compensar e fazer com que os bancos voltem a ter capacidade de financiar a economia e fazer com que o mercado financeiro volte à normalidade.
O relatório de Dezembro do banco central mostra que, em 2019, o crédito total dado a outros sectores residentes correspondeu a aproximadamente 4,659 biliões de kwanzas e o crédito líquido à administração central esteve acima dos 2,509 biliões de kwanzas.
De Setembro de 2018 a Setembro de 2019, o crédito vencido malparado aumentou 49%, somando 1,55 biliões de kwanzas. Por sua vez, de Janeiro a Setembro de 2019, o malparado nos 26 bancos comerciais avaliados saiu de 28,9 para 34,72 por cento.
Em Setembro de 2018, o crédito ficou avaliado em 4,060 biliões de kwanzas, tendo o malparado sido estimado em 1,037 biliões de kwanzas, com rácio CVMP pelo crédito total de 25,54 por cento. Até Setembro de 2019, os bancos comerciais emprestaram 4,467 biliões de kwanzas, na mesma altura em que foram contados 1,546 biliões no malparado, com rácio CVMP pelo crédito total de 34,62%.
Apesar desses dados, fontes ligadas ao assunto admitem que o crédito não tem dilatado tanto, já que as condições económicas ainda não são favoráveis à concepção de novos empréstimos. Um outro elemento inibidor é o facto de a própria economia estar numa fase em que os mutuários têm sérias dificuldades de pagar o crédito.
O certo é que com o agravar do crédito vencido malparado (CVMP) os bancos tornaram-se menos dispostos a consentir novos empréstimos, mesmo que eles sejam um elemento fundamental para o crescimento da economia.
A juntar-se a isso, está a degradação da conjuntura macroeconómica do país, sobre a qual é agregado o facto de muitas das empresas que beneficiaram de empréstimos o terem feito no quadro da importação de matéria-prima, de que dependiam as respectivas actividades.
A conjuntura é mais agravada com a depreciação cambial, que muito provoca uma subida e retracção no pagamento do crédito, ao mesmo tempo que o problema passou a ser, para alguns clientes, um grande pesadelo. O crédito feito em moeda estrangeira agrava todas as iniciativas dos particulares, uma vez que essa questão degradou e encareceu a prestação creditícia dos clientes junto dos bancos comerciais.

O que é o crédito malparado?
O crédito vencido malparado é uma prestação creditícia em atraso por mais de 90 dias, na legislação angolana. Em qualquer mercado financeiro, é característico os bancos estarem sujeitos ao risco de não receberem parte ou a totalidade dos fundos que canalizaram para as empresas ou para particulares, por via de empréstimos.
Nisso, um banco que apresente grande parte do crédito vencido malparado já é eminência de problema a qualquer momento para o sistema bancário. Por isso, quando um determinado banco comercial tem uma carteira em atraso por mais de três meses, o regulador do mercado, no caso o Banco Nacional de Angola (BNA), mostra-se preocupado.
Isto porque o BNA existe para garantir os depósitos e a primeira confiança que um regulador ou supervisor oferece aos clientes bancários, é que à data em que um cliente vai buscar o dinheiro que depositou, o mesmo esteja disponível.
Se o banco emprestou mal, aparece o risco de, na data de se ir buscar dinheiro, o mesmo não estar disponível. Daí o BNA manter uma espécie de cautela e persuadir sempre para que um determinado banco seja bem gerido, ao mesmo tempo que procura medir o peso e a relevância de determinada gestão em toda a carteira de crédito.
É dado certo, que a grande componente do indicador específico de crédito malparado é que ele inclui o crédito vencido há mais de 3 meses. Além disso, há o crédito vencido a cinco ou sete meses. Porém, quando um crédito vence por seis meses, o banco é obrigado a tirar o cliente do balanço e colocar o mesmo num acompanhamento extra-patrimonial (fora do património). Se o cliente ressarcir o banco, este regressa na forma anterior.

Indicadores de solidez financeira
O agregado de 26 bancos mostra que o crédito vencido malparado sobre o crédito total saiu de 28,9, em Janeiro de 2019, para 34,72%, em Setembro do mesmo ano.
O malparado é uma classificação mais conservadora do crédito vencido. O crédito vencido indica qualquer carteira creditícia em atraso e tem vários escalões. Há atrasos de pagamento do crédito que vão de 15 a 30 dias. Para um banco comercial, essa situação creditícia, ainda que seja um sinal menos bom para o sistema bancário, é menos preocupante, pois, o banco entende que o mutuário só não pagou a prestação por algum motivo pontual.
Porém, quando o volume de crédito vencido malparado for muito grande, significa que o banco não está a receber aquilo que emprestou e indicia claramente a hipótese de incumprimento muito elevado, se o depositante for buscar o seu valor.
Do mesmo modo, se o volume de crédito vencido malparado for muito alto, isso mostra que o banco terá dificuldades de pagar os depósitos ou terá mesmo sérias dificuldades de liquidez. Liquidez é a capacidade que um determinado banco tem de cumprir com a obrigação mediante a
solicitação do cliente.
O indicador do crédito vencido malparado sobre o crédito total mostra que quanto maior for tal indicador, pior será para o sistema e pior será para o próprio banco, pois, tal mostra que grande parte dos fundos que o banco canalizou para os mutuários está em problemas, afectando a liquidez e a rendibilidade do banco, uma vez que este começa a ter prejuízos e depois não consegue pagar
os seus depositários.
Nesse aspecto, os resultados de 2019 mostram que o total de activos e o passivo a curto prazo tiveram ligeira melhoria, saindo o primeiro de 21,77 (Janeiro) para 24,27% (Setembro) e o segundo de 29,02 (Janeiro) para
30,43% (Setembro).
No conjunto de indicadores que medem a actividade e performance dos bancos ou empresas - os indicadores de solidez financeira -, percebe-se que a solvabilidade dos bancos comerciais caiu de 29,04% (Janeiro de 2019) para 27,90% (Setembro de 2019), ainda que tenha tido um pico em Março, situando-se nos 31,24%. Os fundos próprios de base tiveram uma variação média de 23,12, com um ascendente de 23,55% em Setembro de 2019.
Na indústria bancária, os operadores têm como actividade chave a intermediação financeira, isto é, a captação de depósitos e a cedência de crédito. Em 2019, o crédito ao sector público variou de forma negativa, saindo de 11,42% (Janeiro) para 9,77% (Setembro), e o crédito ao sector privado teve sentido inverso, saindo de 88,58 (Janeiro) para 90,23% (Setembro).
No entanto, essa actividade tradicional da banca (captação de depósitos e cedência de crédito) encerra riscos, ainda que seja nesse risco que os bancos capitalizam ganhos. Ou seja, quando um banco capta depósito e o transforma em crédito, a diferença entre o juro que é pago na captação do depósito de todos os clientes e o valor que se empresta ao cliente é, no fundo, o grande ganho na actividade bancária.
Em 2019, a rentabilidade dos activos (ROA) teve um comportamento pouco aconselhável à contabilidade bancária, tendo variado pouquíssimos pontos percentuais, deslocando-se de 0,83 em Janeiro para 0,84% em Setembro e com um comportamento volátil
em Junho, Julho e Agosto.
Por sua vez, a rendibilidade do capital (ROE) variou de 4,87%, em Janeiro de 2019, para 6,31, em Setembro, com percurso menos bom em Março (4,63), Junho (2,61), Julho (0,68) e Agosto (1,86%) respectivamente. A taxa de depósitos é outra variável que mais flutuações teve, com pendor descendente, saindo de 5,26 em Janeiro para 4,48% em Setembro.
O “spread” (a diferença entre taxa que se paga de depósito para captação de fundos dos clientes e a taxa que se cobra às entidades deficitárias que precisam de financiamento para as suas actividades) começou o ano de 2019 com 19,49% e teve uma queda em Setembro, situando em 19,13%, ainda que este particular não reflecte o bom comportamento registado nos meses anteriores, sendo 23,82 (Fevereiro), 24,12 (Março), 22,96 (Abril), 21,95 (Maio), 19,94 (Junho), 21,15 (Julho) e 21,14% (Agosto).