Os custos operacionais, de navegação, a concorrência desleal, os preços dos bilhetes, a manutenção, as taxas aeroportuárias, a entrada em cena de companhias de transporte rodoviário interprovincial ditaram a falência e o encerramento de muitas companhias aéreas privadas no país. As empresas aeronáuticas privadas com as quais abordamos esta matéria queixam-se de um mercado desleal, onde as operadoras do Estado beneficiam de tratamento especial em relação às demais. Muitas destas companhias privadas praticavam tarifas que já não se ajustavam à realidade do país, com custos operacionais que rondavam os 500 mil kwanzas por voo, o que na sua óptica, nem sempre garantia o retorno do investimento inicial para muitas. Esta informação foi avançada por Paulo João, antigo técnico aeronáutico da extinta Air Gemini, que entre outros dados, afirma que no cenário de paz dificilmente as companhias aéreas resistiriam se não fossem protegidas pelo Estado, porque teriam que melhorar os serviços prestados, a segurança e baixar os preços dos bilhetes de acordo com as rotas. Já para Júlio Malaquias, da antiga Air Charter, não se trata de falência propriamente dita o que aconteceu com muitas operadoras, mas sim desistência dentro de um mercado que deixou de ser rentável para as companhias áreas, porque o mercado foi eé ainda excessivamente desleal. Para ele, as empresas privadas do sector deviam merecer de uma redução dos preços das taxas aeroportuárias e do combustível para poderem se manter no activo. “Muitas delas dificilmente poderão vir a operar no mercado, devido as exigências e características do negócio”, afirma.

Importância económica
O sector aeronáutico angolano viveu um período de glória, que fez surgir, nos anos 90 e na primeira metade de 2000, várias companhias que disputavam os céus angolanos e facturavam milhões de kwanzas com o transporte de passageiros e carga, em destinos como Soyo, Cabinda, Luena, Saurimo, Lucapa, Benguela, Huambo, Menongue, Lubango e Ondjiva e outras rotas irregulares.
Juntas, essas companhias eram responsáveis pela garantia de mais de cinco mil postos de trabalhos directos e indirectos e uma facturação anual de mais de cem milhões de dólares, transportando mais de dois milhões e cem mil passageiros neste período. De acordo com dados a que tivemos acesso, quer no site do Conselho Nacional de Carregadores (CNC) e do Ministério dos Transportes, com a consolidação da paz, muitas delas não resistiram à concorrência e as exigências do mercado, principalmente aquelas que são impostas pela Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA), em matéria de segurança.

Companhias encerradas
De acordo com alguns ex responsáveis e antigos trabalhadores de transportadoras privadas contactadas pela nossa reportagem, umas decretaram falência e outras desistiram do mercado, como é o caso da Air Gemini, Air 26, Sal, Air Charter, Air Guicango, Heli Malongo, Gira Globo, Fly540, Diexim Expresso, entre outras, tendo apenas sobrevivido a estatal Sonair e a privada Air Jet. Tarifas praticadas
As companhias privadas de aviação que operam em Angola continuam a praticar preços acessíveis nos seus serviços de transporte de passageiros, variando os custos dos bilhetes entre os oito e 40 mil kwanzas, conforme constatou a nossa pesquisa nos pontos de venda do aeroporto de Luanda e em algumas agências de viagens. Actualmente, os preços dos bilhetes não foram alterados em relação aos praticados há já cerca de cinco anos, o que permite ainda que alguns cidadãos possam viajar de avião quando necessário, mas este factor não garante, segundo Márcia Costa, que uma agência sediada no aeroporta, tenha lucros e consiga manter-se operacional. “O mercado ficou quase que insustentável. Nós hoje dependemos mais dos voos internacionais para manter esse negócio”, revelou.

Segurança operacional
No que toca a questões de segurança, a Associação Internacional de Transportes Aéreo (IATA), fez recomendações duras, no mês de Janeiro do corrente ano, ao Governo angolano sobre as questões de segurança aérea. Para aquela organização internacional, a segurança é um aspecto fundamental e deve ser sempre um desafio em Angola, embora reconheça ter havido grandes melhorias nos últimos anos, mas recomendam que para manter e melhorar ainda mais esse desempenho de segurança é necessário um esforço contínuo que utilize as normas e as melhores práticas globais. Este factor levou já o Executivo a anunciar um investimento na segunda fase do programa para modernização do espaço aéreo, para cumprimento das normas internacionais, com um investimento de 63 milhões de dólares, com o objectivo de melhorar a segurança no espaço nacional.