O acesso às sementes e fertilizantes tem sido um dos principais constrangimentos que ainda afecta muitos agricultores, cuja intenção é aumentar as áreas de cultivo, o que tem provocado uma baixa na produção agrícola. Com a crise económica e financeira que abala o país desde finais de 2014, a situação para os homens do campo está cada vez pior.
Em entrevista ao JE, o engenheiro agrónomo Adérito Costa disse haver muitas dificuldades na importação de insumos agrícolas, pouca colaboração directa dos bancos comerciais no que concerne aos créditos e apresentam uma série de subterfúgios para dificultar aqueles que têm vontade de ajudar o país, com empregos, serviços e impostos.
O proprietário da rede de fazendas Dgil conta que entre 2008 e 2014, os mercados para importação de insumos agrícolas eram o Brasil, Portugal, Holanda, África do Sul e a China. Hoje, recorre à África do Sul, Namíbia, China, e em último caso, ao mercado nacional que, na sua opinião, não oferece grande coisa.
“Sou pouco usuário de fertilizantes nas nossas plantações. Quanto às sementes, chegamos a gastar acima de dois milhões de kwanzas por ano e, às vezes, com perdas de produção por pragas, chuvas e outras razões”, revelou.

Políticas públicas
Adérito Costa sublinha que a aquisição no estrangeiro, já não se faz em grande escala como antes. “Hoje, as sementes compramo-lás e arrumamos-lás em malas normais para chegar a Angola sem grandes custos, é uma situação triste para um agricultor, mas é a realidade”.
Para o empresário, o Executivo deve rever as políticas públicas que fazem acontecer a agricultura no país, o que passa necessariamente
do discurso à prática.
Afirmou ainda que a convenção da União Africana para a Agricultura diz que os países membros devem ter o saldo do seu Orçamento Geral do Estado (OGE) de pelo menos 10 por cento direccionado para o sector agrícola.
Assegurou que países como Ruanda, que já cumpre com essa convenção, e até chegam a ter um saldo de 12 a 13 por cento do seu OGE, já não têm problemas alimentares como os verificados por exemplo em Angola.
O empresário diz que se devia priorizar, até 97 por cento da comercialização da produção nacional às grandes superfícies, que até ao momento são abastecidas com bens importados. Ele afirma que a agricultura deve ser encarada como uma fonte de rendimento das famílias de média e baixa renda. Deste modo, é que vai dar vida e velocidade a esse veículo que se chama agricultura.
Localizadas em Luanda, as fazendas Dgil produzem desde hortaliças, legumes, tubérculos e frutas, cuja capacidade trimestral varia entre 15 e 24 toneladas. Anualmente chega a atingir mais de 83 mil toneladas de produtos diversos. Para o ano de 2019, a empresa prevê produzir 70 mil toneladas de produtos diversos.

Preços em alta
Já o agricultor, Edgar Somacumbi, além das dificuldades para aquisição de sementes, há também a incompatibilidade dos preços, o que torna o produtor fragilizado.
Segundo o homem do campo, desde o início da crise, há muitos campos de cultivo que foram abandonados. Assegura que tais dificuldades resolver-se-iam com os créditos de campanha e caso os bancos comerciais fossem mais abertos no apoio ao campo com taxas de juros atractivas.
Revelou que, em média, o custo de sementes por hectare corresponde a cinco toneladas para uma cultura de milho e não fica por menos de 450 mil kwanzas, a soja também fica neste valor, com uma margem de lucro de 75 a 150 mil. O agricultor tem fazendas nas províncias do
Cuanza Sul, Huambo e Bié.
Explica que com as restrições no acesso às divisas tem recorrido à província de Benguela para a compra de sementes através de fornecedores como a FertiAngola, Cengonha e Globalway, mas que também enfrentam muitas dificuldades.
Por essa razão, defende que o apoio por parte do Executivo deve obedecer toda a cadeia agrícolapara que haja sucesso.
Assegura igualmente que as sementes e fertilizantes são factores imprescindíveis para o desenvolvimento da agricultura. Aponta que uma das soluções é a aposta na investigação e a criação de indústrias com fontes de matérias-primas locais.
“Outro elemento fundamental é a produção de calcário, principalmente para as regiões do planalto que precisam de correcção dos solos”, apontou.
De acordo com Edgar Somacumbi, não basta a fertilização dos campos, pois é importante que haja melhorias no PH dos solos para assegurar o crescimento das plantas.
Acrescentou que as adubações verdes também são uma solução para o sucesso das culturas agrícolas.

Parceria
com marrocos

Com unidades de produção instaladas em vários países, o Reino de Marrocos quer tornar-se no maior produtor e exportador de fertilizantes do mundo.
Com o foco no aumento da produção, o país situado no Norte de África, exporta dois milhões de toneladas de fertilizantes por ano.
Essa informação foi avançada à imprensa angolana, pelo vice-presidente da Confederação de Empresas de Marrocos, Moulay Elalamy. Em África estão instaladas fábricas de produção de fertilizantes na Nigéria e Etiópia.

Importação
O JE apurou que em Junho de 2017, Angola recebeu várias toneladas de fertilizantes vindas de Marrocos, no quadro de uma parceria estratégica entre os dois países.
O objectivo é que aquele país do Magreb passe a fornecer fertilizantes a preços mais acessíveis.
A visão do Ministério da Agricultura e Florestas é tornar barato o acesso aos agricultores dos fertilizantes.
A falta de fertilizantes por constituir um dos factores estranguladores para o sucesso da actividade agrícola, levaram o Ministério a estabelecer esta parceria com Marrocos.
Contudo, além do fornecimento de fertilizantes, existe a possibilidade da instalação em Angola, de uma fábrica, através de investimento marroquino.
Dados do Ministério da Agricultura e Florestas apontavam para a necessidade de importação de 70 mil toneladas de adubos entre 2016 e 2017, com o Governo a defender a necessidade de instalação no país de uma indústria nacional de adubos e fertilizantes tendo em conta o aumento da produção agrícola.