O acesso ao financiamento de kz 5.000.000 (cinco milhões de kwanzas) reservado a 500 Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME), pelo Banco Angolano de Investimentos (BAI), está uma autêntica “dor de cabeça” para os interessados, tudo porque a exigência primária é a apresentação de uma contabilidade organizada.
Ao que apurou o JE, até ao momento nem ainda uma centena (100) de empresas, do total de 500 que o banco quer financiar, já reuniu condições conforme regulamento do crédito.
Sabe-se no entanto que os 2,5 mil milhões de kwanzas com que se pretende financiar as empresas angolanas resultam de um acordo entre o BAI e o BAD (Banco Africano de Desenvolvimento), tendo este último desembolsado 100 milhões de dólares ao homónimo angolano.

Facilitar comércio externo
Numa primeira intenção, o objectivo do BAD junto do BAi era o de garantir financiamento em divisas para que as empresas angolanas possam manter a sua ligação ao exterior, onde além de comprar insumos e outras maquinarias necessárias pudessem também criar pontes para futuras vendas de bens produzidos localmente.
Para tal, “o BAD aprovou uma linha de financiamento de 100 milhões de dólares a favor do BAI, destinada a apoiar o comércio internacional de 500 Pequenas e Médias Empresas (PME) em Angola”, conforme se lê numa nota divulgada pelo banco continental.
Atendendo aos processos de organização que os bancos angolanos têm vindo a efectuar, numa resposta já também ao compliance e às normas internacionais, os gestores do BAI colocaram entre os requisitos para o acesso ao financiamento a demonstração do balanço financeiro auditado dos dois últimos exercícios da empresa candidata.
Nesse quesito, as intenções das empresas esbarram-se, pois a organização contabilística é assumida como sendo a maior fragilidade das empresas, ainda mais as que actuam no segmento das pequenas e médias empresas.
Ainda assim, um gestor de cliente, numa das agências contactado sobre o assunto e que aceitou falar sob anonimato à nossa equipa, disse ser um processo com alguma morosidade mais da parte do cliente/empresa interessado do que do banco.
Assegurou que aquelas empresas que facilmente reúnem os requisitos conforme exigência do banco num prazo de até 30 dias recebem o financiamento, com carência de 12 meses (1 ano) e prazo de reembolso nos 36 meses (3 anos) posteriores.
O BAI, de acordo com o gestor, pode aceitar a renegociação dos prazos de reembolso em função da especificação do projecto financiado e das condições que possam alterar as já previamente definidas.
Um dado avançado pelo bancário é o de que a instituição credora, no caso o BAI, assume a tarefa de monitorar a utilização dos valores financiados e que em caso de o beneficiário em 12 meses não movimentar os valores disponíveis na sua conta/empresa poder vir a ser cativado o mesmo, seguindo-se uma eventual anulação do contrato de mútuo.

Contabilistas são escassos
Numa recente entrevista ao Jornal de Economia & Finanças, na Huíla, o vice-presidente da Ordem dos Contabilistas e Peritos Contabilistas de Angola (OCPCA), Tomás Faria, reconheceu serem poucos os técnicos certificados pelo país, sendo estratégia do pelouro o reconhecimento e cedência de carteiras aos profissionais que exerçam e tenham também frequentado os cursos de actualização realizados pela Ordem.
Na ocasião, Tomás Faria adiantou que o rácio entre contabilistas disponíveis e o número de empresas existentes em Angola é ainda muito baixo, aquém das necessidades do mercado, pois que a Ordem controla, neste momento, perto de cinco mil membros para atender o universo de cerca de 100 mil empresas.
“Os contabilistas existentes no país ainda não correspondem às exigências e à demanda da economia angolana, cuja avalanche de empresas, de acordo com cálculos do banco mundial, ronda às centenas de milhares”, argumentou.