A falta de organização dos músicos e produtores angolanos é um dos principais factores de entrave ao desenvolvimento do trabalho dos fazedores de música no país. Esta constatação é do produtor musical Valeriano Joaquim Calei, o conhecido Presilha no mundo artístico, que em entrevista ao JE sobre a produção musical em Angola, afirmou que este sector da cultura passa por uma fase difícil da sua história.
Segundo o músico, o produtor é aquela pessoa que tem a responsabilidade de fazer o acompanhamento total da criação de uma música, mas não necessariamente tem de tocar um instrumento. Este, só necessita de conhecimentos e ter um bom ouvido para dirigir e organizar o arranjista e os instrumentistas. E é esta área chave do processo de criação, que a sua visão apela a uma maior organização dos profissionais, no que diz respeito à produção musical.

Trabalho árduo
Para Presilha, ainda há muito trabalho pela frente, mas reconhece que “estamos no bom caminho”. Ele afirma ainda que hoje a maioria das músicas consumidas no mercado nacional já é orquestrada pelos produtores angolanos, que representa um indicador motivador, embora faltar, na sua óptica, alguma responsabilidade de muitos produtores e cantores. “A música não é uma brincadeira. É algo que fica para toda vida. Não aconselho ninguém a entrar para esse mundo se não tiver tempo para fazer pesquisas constantes. Se for para ter só fama, que procure outra actividade e isto tem acontecido muito
nos dias de hoje”, alerta.
O produtor reafirma a sua posição de que no mercado falta organização da parte dos artistas. “Temos que ter conhecimentos básicos e científicos para uma melhor actuação no ramo. Pensarmos primeiro nos estilos nacionais, só depois podemos fazer da música angolana um ritmo equiparado
ao world music”, afirma.

Produção musical
De acordo com o também instrumentista, o passo importante para uma produção de sucesso e um bom produtor, é saber arranjar as ideias para as converter em boas músicas e isso deve ser executado pelas pessoas certas.
No que diz respeito às suas produções, Presilha afirma que a produção de um disco varia muito. O mesmo não tem um custo fixo, depende muito do que o artista quer, mas este pode atingir valores que podem ser inferiores ou ultrapassar os 40 mil dólares norte-americanos.


Efeitos da crise
Entre os altos e baixos da actividade que abraçou ainda muito jovem, o produtor afirma que, tal como o mercado no geral, ele também foi afectado, adiantando várias razões, entre as quais a falta de procura e divisas.
Para ele, essa actividade sempre foi lucrativa, mas de um tempo a esta parte sofreu uma quebra significativa. “Já ganhei muito dinheiro, embora não o suficiente para fazer um investimento em outros negócios e
na minha vida pessoal”, frisou.

Sucessos da carreira
Segundo o produtor, já foi autor de muitos sucessos ao longo da carreira, onde se destacam produtos como “Senta mais um pouco” e “África” dos Irmãos Almeida, “Salalé” de Dog Murras, “Luz” do grupo de rap Génesis, “Quem será” de Big Nelo, “Sangue bom” de Karina Silva, “Tu és o amor” de Yuri da Cunha, “Say ho” de Yola Semedo, “Cocó” de Lutchiana Mobulo, “Maria dos kalundos” de Matias Damásio, “Mãe ngo” de Kelly Silva e “Mana Luna”de Rei Helder.
“No que toca aos lucros, estes são acordados entre cantor e produtor, e depende muito do momento em que se formula o contrato. Normalmente, tem sido 50 por cento para cada”, concluiu.