O presidente da Mesa da Assembleia Geral da Cooperativa de Criadores de Gado do Sul de Angola e proprietário da Fazenda Santo António, Fernando Teles, diz que não há vontade do Governo em subsidiar os combustíveis, sobretudo o gasóleo, em virtude de a promessa ser antiga, quando nos outros países é um assunto prioritário.
O também presidente do Conselho de Administração do Banco BIC advoga a necessidade da criação de algumas medidas para que haja mais postos de trabalho no campo e se dinamize ao mesmo tempo a actividade dos agricultores.

Quais os desafios e preocupações prementes que se vive no sector agro-pecuário em Angola?
A agricultura é muito importante para o desenvolvimento económico e social, pois é a única forma de o país deixar de depender tanto de divisas, porque muitas delas, são utilizadas para a compra de alimentos.
Há centenas de milhões de dólares gastos em importação de frangos, de vaca e de porcos.
Além disso, importa-se cereais, trigo, etc. Isso acontece porque Angola não produz o suficiente. Quase tudo se importa. O milho é importado de forma significativa, e pouca gente, está a fazer soja devido a altos custos na produção. O milho e a soja representam 92 por cento da ração e com isso, faz-se carne. Em outros países do mundo, os governos apoiam ou financiam a sua agricultura.

Mas aqui há um esforço do Governo para que se aumentem os níveis de produção à escala nacional?
Com certeza, mas é preciso fazer mais, porque nas outras realidades, a situação é diferente. Por exemplo, na União Europeia, 45 por cento do orçamento é destinado a incentivos aos seus agricultores para fazer face às importações dos Estados Unidos da América (EUA), Brasil e da Argentina. São países com enormes extensões de terra, fazendas e com níveis grandes de rentabilidade. E, normalmente, a produção fica abaixo custo. E quando se produz em grandes quantidades, há condições para se fazer com preços atractivos.
Angola tem condições para fazer tal e qual os brasileiros, argentinos ou americanos, mas tem que haver políticas para que isso aconteça, pois alguns produtos são essenciais para que o país cresça. Por exemplo, para se produzir dentro da média, tem que se ter combustível ou energia. Em Angola, grande parte das fazendas não tem energia para que no dia-a-dia se consiga ter os pivots a funcionarem e garantirem a sequeira, mas a produção de sequeira faz-se em 2 ou 3 toneladas por hectare e se for de regadio, a produção pode ser de 9.5 ou 10 toneladas por hectare, três ou 4 vezes mais, daí que tem de haver medidas acertadas.

Ainda vivemos enormes dificuldades financeiras...
Todos nós sabemos das dificuldades, mas Angola precisa de colocar o “pão na boca” aos agricultores, criando algumas medidas para que haja mais postos de trabalho no campo e ao mesmo tempo dinamizar a actividade dos agricultores.
Deve haver renda para a compra de sementes e adubos que são fundamentais para a pequena actividade. Precisamos de produzir mais e melhor, e nós na Fazenda Santo António, estamos disponíveis para falar com quem quer que seja para transmitir a nossa experiência.

Com a produção em pleno, verificar-se-á uma baixa na importação de farinha de milho ou nem por isso?
Estamos a importar muita farinha porque as moageiras em Angola estão todas paradas, mas os nossos silos estão completamente cheios.
E não podemos vender a baixo custo. Podemos até fazê-lo e resistirmos até 2/3 anos, mas depois seremos forçados a parar.

Gastos em combustíveis
acima de Usd 2 milhões/ano

Com as dificuldades enumeradas, então fica bastante oneroso apostar-se na agricultura em Angola?
Não é que seja oneroso. É que na fase inicial não conseguimos produzir a exemplo de outros países com condições semelhantes a de Angola, pois eles têm subsídio em combustíveis e conseguem desenvolver a agricultura. Vais ao Brasil ou mesmo a Portugal, não há fazenda que não tenha electricidade.
Para garantir uma produção ininterrupta, nós gastamos 2 milhões de dólares/ano em combustível, valor muito superior do que se gasta num projecto semelhante no Brasil. Há duas sugestões que acho oportunas aplicar-se: 1- Incentivo à produção com a introdução de subsídio ao gasóleo ou vamos parar as nossas actividades, pois já mostramos que é possível produzir e se não houver produção, nunca teremos mais divisas e vamos sempre ficar a depender do petróleo, que é um produto finito; 2- Apoio à produção (incluindo os pequenos agricultores), com incentivos à produção de milho, redução na importação ou se baixe o preço do milho, pois a farinha não se pode importar porque há muito milho a ser moido no mercado.

Acha que os 5 milhões de toneladas de cereais a serem produzidos até 2022 conforme previsão do Governo, contra os 2 milhões actuais, reduzirá o défice?
Quanto mais se acredita nas políticas do Governo, mais pessoas vão apostar ou entrar na produção agrícola em grande escala. Esse é o caminho.
Nós não vamos reduzir as importações do dia para a noite, mas há esse esforço dos produtores. As grandes fazendas estão em condições de produzir em grande escala. Creio que ao fim de 5 ou 7 anos, Angola estará a eliminar a importação de carne ou de alguns cereais. E as divisas dariam para fomentar a indústria ou canalizar para outras áreas de que o país precisa.

Verifica-se a produção em grande escala de milho e da soja…
Se fosse governante, chamaria os produtores. Primeiro, visitaria 10 ou 20 fazendas que estão a produzir bastante e que podem ajudar no défice alimentar.
É preciso estabelecer preços mínimos para que os produtores possam sobreviver. E com maior atractividade, passaria pela subvenção do preço do gasóleo.
Se o caminho não for este, nunca mais teremos produção suficientes em Angola, porque se na África do Sul, Zâmbia, Namíbia e Zimbabwe estão a produzir e a ganhar dinheiro fruto da actividade, por que nós não?
Nós temos condições para fazer e igual ou superior a esses países africanos. Temos que ir visitar esses países para a busca de experiência. A fase inicial é mais difícil porque tem que se desmatar e fica muito caro. São 1.000 dólares por hectare.

A previsão do Governo não é realista?
É realista se apostar nos agricultores e tomar algumas medidas necessárias. Se não fizer isso, não haverá produção nenhuma. E também deve-se estabelecer preços mínimos e subsidiar os combustíveis.

É charme do Governo assumir publicamente incentivos aos agricultores e a encorajar o financiamento bancário? Acha que há uma frustração iminente dos produtores?
Há muitos embaraços à actividade. Se há problemas de escoamento de produtos é o Governo que tem que resolver. Tem que falar com as pessoas para sair desse ciclo de não produção. Às vezes, o financiamento bancário não resolve nada. Há sempre mau pagador aos bancos porque não conseguem concretizar os seus projectos, devido à falta de escoamento.

São aventureiros os que investem na agricultura, como disse em tempos, um economista bem conhecido da nossa praça…
Não se trata de aventureiros. As pessoas devem apostar na agricultura e deve haver uma política governamental mais agressiva.

Falou da definição de um preço mínimo de referência de produtos agrícolas... o Governo está analisar o mecanismo para ajudar no escoamento de mercadorias...
É isso que se deve fazer e estamos à espera dessa medida, porque quem está a produzir terá muitos prejuízos no futuro.

A diversificação da economia é uma miragem?
Há muita gente a trabalhar na agricultura e deve contribuir para o Produto Interno Bruto (PIB).

Por que não somos um grande produtor agrícola da região? 
Para o alcance da auto-suficiência alimentar passa-se pela massificação de fazendas. Não existe outra maneira. A isso, o Governo já deu passos, mas é preciso muito mais. Acredito que as reformas serão dadas para ajudar no crescimento do sector agro-pecuário. 40 por cento investidos na Fazenda Santo António provêm de um financiamento do Angola Investe e o resto dos 60 de lucros que obtive de outras actividades.

Então, o senhor se considera um herói?
Não. Sou simplesmente um produtor de milho e de arroz. Além do projecto Santo António, invisto na produção de arroz em Camacupa (Bié). Acho que é possível porque os outros fazem para que os constrangimentos sejam eliminados, sobretudo na colocação de electricidade aos projectos agrícolas. Por isso, tem de haver políticas de incentivo. Havia garantia do Governo em subsidiar o preço do gasóleo para os produtores, mas até agora isso não passa de promessa. Se não quiserem optar em subsidiar os combustíveis, então agravem as taxas alfandegárias dos produtos a importar, porque nós estamos a produzir a baixo custo. Se não for feito isso, dentro de dois ou três anos, deixo de investir.

Censo agro-pecuário é bem vindo mas têm de ouvir 50 grandes agricultores e criadores

Falando sobre o sector da pecuária, já estamos perto de atingir a auto-suficiência?
Angola tem condições para se tornar auto-suficiente dentro de 5 ou 7 anos, pois temos uma produção de carne muito alta. Tem que se continuar a incentivar, criando políticas e conversando com associações e cooperativas.

Mas há muitos animais a morrerem?
Risos. Eles estão a morrer não por falta de comida, mas por razões higio-sanitárias que devem ser asseguradas.

Até que ponto o Recenseamento Agro-pecuário vai ajudar no conhecimento real do sector?
É sempre importante fazer-se um censo.
É necessário ouvir todos intervenientes da cadeia, sobretudo os 50 maiores produtores que estão agrupados na Associação dos Criadores de Gado do Sul de Angola e da Associação Agro-pecuária de Angola (AAPA) por conhecerem o número de animais em cada município.

Como avalia a concorrência desleal no mercado?
Não há concorrência desleal no mercado nacional. O que acontece é que há pessoas que estão autorizadas a importar e que vendem a carne mais barata do que outros que fazem sacrifícios enormes para manter a produção nacional intacta, pois os preços no exterior são atractivos. Esses vendem a carne a um preço mais baixo do mercado acima da margem de importação. Aqui, deve haver uma intervenção de quem decide.

Homem da banca

Nome: Fernando Leonídio Mendes Teles
Ocupação actual: Presidente do Conselho de Administração do Banco BIC Angola e Portugal, presidente da Mesa da Assembleia Geral da Coooperativa de Criadores de Gado do Sul de Angola
Formação: Licenciado em Organização e Gestão de Empresas em Portugal e fez um bacharelato em Contabilidade e Administração
Idade: 63 anos
Estado civil: Casado
Nacionalidade: Dupla nacionadade (portuguesa e angolana)
Carreira Técnico-profissional: Entrou na banca aos 14 anos, no longínquo ano de 1966, no Banco de Crédito Comercial e Industrial
Negócios: Fruto da sua experiência acumulada, espírito de iniciativa e capacidade técnica de liderança, criou o Banco BIC em 2005, após ter deixado o BFA, como administrador residente.