O “ferro velho” sem nenhuma carga pejorativa é tomado aqui para designar carros com alguns anos de existência para lá do normal. Geralmente têm 15 a 20 anos, desafiando o normal, pois os automóveis quando passam dos 10 anos já apresentam um aspecto de envelhecimento físico (chaparia) e funcional (motor) avançado.
Mas há quem até aos dias de hoje ousa em superar as leis da razão e o sustento de suas famílias provém deste meio.
No mercado do Km 30 encontramos em locais distintos filas de carros. Com produto diverso na sua carroçaria, os proprietários fazem dos seus meios um ganha-pão digno.
Passam dias e dias a espera que o produto seja despachado, mas por um carregamento de ananás, João Mateus, 49 anos, encaixa em menos de uma semana até 200 mil kwanzas em frete.
Alguns até vão ao encontro do camponês e eles mesmos recebem o produto sem intermediação das mulheres.
Com laranjas, abacate, batatas rena e doce ou mesmo tomates em caixa, os “ferros-velho” são preciosos aos olhos dos donos, mesmo que exista quem os despreze pela aparência e estado de chaparia dos carros.
O senhor Lourenço Manuel tem memória do seu IFA que nos anos 90 rasgava do Dondo ao Cuanza Sul, passando por Huambo e Benguela.
Nestes anos da “yula” (encaixe extra e em soma avultada) - 1990/1998, Lourenço Manuel teve o gosto de ter já o seu filho mais velho, hoje engenheiro de petróleo, a estudar no IMIL, ex-Makarenko, o que lhe dava ares de privilegiado.
Mas a camionagem está no sangue e hoje aos 59 anos ainda freta a sua carinha Mitsubishi Canter, que tem consigo faz 12 anos.
A moda de ter um carro também já fez furor aos kotas d’outrora e no bairro Prenda encontramos as lições de vida de Antero Lopes, 72 anos.
“Vendi uma casa e comprei uma IFA. Tive bons rendimentos em cerca de três ou quatro anos, mas depois se foi o carro”, disse.
Dividido entre o sentimento de perda e o de ter vivido a vida que quis, Tio Lopes possui ainda hoje um toyota corola, que ele mesmo confirma ter 14 anos certos em sua posse.