A tradição cristã celebra o nascimento de Jesus Cristo na comunhão de Deus, entre 24 de Dezembro e 6 de Janeiro, consoante a liturgia. A Igreja Ortodoxa foge à regra, mas tem de comum a reunião da família num dia especial, à volta de uma mesa recheada de iguarias.
No mundo ideal, é assim que os crentes recordam a anunciada aparição do menino destinado a unir a Humanidade no ideal da paz, concórdia e prosperidade.
A vida de Jesus deixou marcas indeléveis no Próximo Oriente, onde nasceu, e no resto do Mundo. Visionário e apóstolo para os crentes, rebelde, insurreto e impostor para outros, escudado no poder, desafiou a ordem estabelecida com o dom da palavra e acção humanitária.
Arauto da felicidade, o filho de um modesto carpinteiro e de uma doméstica anunciou um Mundo melhor, sem amos nem escravos, uma utopia retomada ciclicamente por idealistas ao longo dos séculos.
Nos dias de hoje, a simbologia do Natal e do Ano Novo é o que resta do ideal de uma sociedade harmoniosa, onde todas as pessoas desfrutam de um modo de vida condigna, em que satisfazem as necessidades materiais e espirituais mais elementares.
O idealismo subjacente à celebração das festas de Natal e Ano Novo encontra pela frente a forte oposição da realidade social. Este antagonismo parte da própria essência das sociedades, estratificadas em classes com mais ou menos posses, ou nenhumas, subdivididas entre os mais afortunados, os auto-suficientes, os remediados e os miseráveis.
Os angolanos remediados ainda dão graças a Deus, se forem crentes, por conseguirem ter à mesa uma refeição quente diariamente e saldar as contas domésticas e outras. Nesta época festiva, os miseráveis, que sobrevivem com o equivalente a um dólar norte-americano em kwanzas por dia, segundo relatórios das Nações Unidas, amaldiçoam a desgraça que se abateu sobre eles.
Fora do gueto, as famílias financeiramente estruturadas podem dar-se ao luxo de “montar” uma mesa farta na noite da Consoada, enquanto o Diabo não faz tropelias, como os mais avisados prevêem para 2019, com o anunciado agravamento das condições de vida.
No topo da pirâmide, os “maiorais” ainda se permitem umas “loucuras” em tempo de crise financeira e económica. Com grande parte da fortuna a bom recato no estrangeiro, depositada a descoberto em bancos comerciais ou oculta em “paraísos fiscais”, nada e ninguém os impede de fazer as malas e festejar o Natal e o Ano Novo em lugares de “encher os olhos”, sem desgraçados a vender na rua, mendigos a pedir esmolas nos passeios, indigentes a viver em casebres e doentes a “despedirem-se” para sempre dos familiares à porta dos hospitais.
Para a maioria dos angolanos, o Natal é mais um dia comum e a passagem de ano é pretexto para fintar a frustração, que depois aumenta, com doses exageradas de bebidas alcoólicas.
Passada a euforia, virá a ressaca. A “queda na real” começa logo em Janeiro, o “mês mais longo do ano”, quando os chefes de família passam a contar o dinheiro a partir do “Dia dos Reis Magnos”.
Depois da festa, começa a contagem decrescente até ao próximo salário. O remanescente do estipêndio de Dezembro tem de chegar para as despesas correntes com a alimentação, combustível, renda de casa ou taxa de condomínio, imposto predial, água e luz, propinas escolares, transportes colectivos e pouco mais, como medicamentos para doentes crónicos ou ocasionais, que custam os “olhos da cara”.
De regresso à “casa de partida”, depois da celebração do Natal e do Ano Novo, doze folhas de calendário fazem lembrar aos angolanos que vem aí mais uma longa temporada de austeridade financeira e económica, que se vai abater de forma desigual sobre todos.
Mesmo os mais abastados, que aplicaram os rendimentos no país, ao contrário dos “espertalhões” detentores de contas em bancos comerciais no estrangeiro e em “offshores”, estão sujeitos à dura situação de gastar apenas de acordo com as necessidades vitais, porque 2019 será um ano de grande aperto financeiro e económico para o Estado.
Que se prepare também a classe média para poupar na despesa, sem ceder à tentação de gastar em bens supérfluos, porque os “ventos” não estão de feição. Para se precaverem de contrariedades, recomenda-se a navegação à bolina, tirando partido das condições para manter o rumo sem percalços.
Os remediados só podem esperar por mais um furo no cinto da austeridade e os miseráveis apenas têm no céu a paz prometida, porque milagres, dizem os crentes, só o Menino Jesus é que tinha o dom de os fazer.
Fora da Paróquia, os angolanos esperam que os mortais que nos governam façam bem as contas para que o próximo ano seja, de facto, o início da lenta e penosa recuperação financeira e da letargia económica, pois não bastam boas intenções para tirar o país do limbo em que se encontra.