Em entrevista ao JE, o governador do Kwanza-Norte, Henrique Júnior, fez um balanço positivo das actividades realizadas ao longo do corrente ano e perspectivou os desafios para os próximos anos, entre os quais se destaca o desenvolvimento do sector agro-pecuário de modo a permitir o surgimento da agro-indústria.

Durante a entrevista, o governador mencionou o início das obras de construção da centralidade de Ndalatando que prevê disponibilizar 4.000 apartamentos. Por outro lado, afirmou que a implementação dos pólos industriais do Dondo e de Lucala vão dar um novo impulso ao processo de desenvolvimento económico da província e gerar muitos postos de trabalho.

Senhor governador, que balanço pode ser feito em relação às actividades realizadas durante o ano que está prestes a terminar?
O balanço é positivo, na generalidade. A nossa actividade centrou-se naquilo que o plano nacional de desenvolvimento prevê para a província, em particular, e para o país no geral. Neste momento, estamos a dar sequência aos trabalhos iniciados há já algum tempo a esta parte com a perspectiva de irmos dando saltos quantitativos e qualitativos, avançando para áreas que merecem agora mais atenção, como é o caso do sector produtivo. É a partir daqui que vamos começar a dar um novo alento ao processo de desenvolvimento da província. Em termos de actividades realizadas durante o decurso deste ano, apegamo-nos àquilo que consta no nosso programa de investimentos públicos, desde logo tivemos acções em todos os sectores da vida socioeconómica e cultural da nossa província. Podemos citar a continuidade da reabilitação de infra-estruturas rodoviárias e sociais, como hospitais e escolas, o fornecimento de energia e água, etc. Realizamos muitas actividades e temos a sensação de que fizemos chegar esses bens essenciais à vida da nossa população. Quero destacar, por exemplo, que construímos escolas novas para albergar todos os níveis de ensino até para o ensino superior. Neste último podemos mencionar, a título de exemplo, a escola superior pedagógica que possui três mil alunos, a escola superior politécnica, na qual prevemos realizar no próximo ano obras de reabilitação e expansão da sua estrutura física com o objectivo de receber mais alunos, tal é a pressão da procura neste momento. O sector da saúde também beneficiou com a extensão da rede sanitária para os bairros e aldeias. Também realizamos programas de formação aos agentes sanitários para aumentar o grau de sensibilização das comunidades sobre aspectos ligados à saúde preventiva, tais como higiene bucal, tratamento dos alimentos, hábitos saudáveis, etc. O objectivo é prevenir a prevalência de algumas enfermidades no seio das populações e que podem ser reduzidos mediante acções de sensibilização. Por isso é que estamos a formar agentes sanitários para trabalharem nas comunidades. Em suma, a ideia é promover boas práticas, bons hábitos, de prevenção contra as doenças.
Podemos também destacar que os indicadores do programa de combate à pobreza são animadores devido ao aumento de produtividade no sector agrícola e melhoria no escoamento da produção.

Fala-se na implementação de pólos industriais para promover o desenvolvimento agro-industrial da província. Em que pé está o processo de execução destes projectos?
Na estruturação do plano nacional de desenvolvimento, cuja implementação se estende até 2025, o país foi dividido em pólos de desenvolvimento, eixos de desenvolvimento e pólos de equilíbrio. Face à sua localização geográfica, o Kwanza-Norte está virada para criar uma agricultura intensiva com o objectivo de aproveitar as sinergias que resultam do facto de estarmos no corredor Luanda-Malanje-Uíje e não só. Queremos ter um sector agrícola forte e desenvolvido, que cria excedentes em grandes quantidades de modo a alimentar e desenvolver o sector da indústria transformadora. O aproveitamento daquilo que não se consome ou o excedente vai estimular os agricultores e permitirá o surgimento de novas unidades agro-industriais. Portanto, tendo isso em consideração, o Executivo tem planificado para a nossa província dois pólos de desenvolvimento industrial. Um no Lucala, cujas obras de construção já iniciaram, e outro no Dondo, onde já se realizam trabalhos preliminares como levantamentos topográficos para depois começar a instalação de todas as infra-estruturas necessárias.

Pelas potencialidades agro-pecuárias da província, pode-se deduzir que o desenvolvimento agro-industrial será um facto em breve?
Nós temos condições para desenvolver o sector agro-industrial na província. Para lhe dar um exemplo disso, o município de Cambambe já foi o quarto pólo industrial de Angola no tempo da administração colonial. Queremos recuperar este estatuto.   
Nesta região, além do início das obras do pólo industrial, já arrancou também a obra de reabilitação da fábrica têxtil Satec, que vai gerar novos postos de trabalho aos jovens.

Que recursos minerais a província dispõe no seu subsolo?
Existem vários, com destaque para o ferro e o manganês, cujos trabalhos para serem explorados já começaram no município de Cambambe. Já teve início a extracção das primeiras amostras, que serão levadas ao laboratório para que se analise a qualidade do seu conteúdo. Mas, o conhecimento que temos do passado é que já foram feitas, antigamente, algumas experimentações que davam garantias de serem de grande qualidade. Por isso, a exploração destes minerais pode, no futuro, catapultar a economia da nossa província. Trata-se de investimentos difíceis e de alta monta, entretanto, os investidores estão dispostos em levar avante este projecto. Há outros minerais na província, mas a inexistência da carta geológica impossibilita o seu conhecimento. Mas essa é uma preocupação que o Ministério da Geologia e Minas tem em carteira.

Que incentivos ou políticas concretas o governo provincial possui para atrair o investimento privado, seja nacional ou estrangeiro?
Os incentivos estão legalmente previstos. Aliás, a Agência Nacional para o Investimento Privado (ANIP) tem trabalhado no sentido de atrair muitos investidores que têm estado a assinar contratos diversos. Ou seja, a legislação sobre o investimento privado é o primeiro incentivo, tais como os benefícios fiscais e outras isenções que estão previstas em função da área onde se pretende investir. Aqui na nossa província, estamos a criar um ambiente favorável para o investimento, tal como a construção de infra-estruturas para fornecimento de água, energia e estradas. Temos uma vocação energética considerável, o que significa que estamos em condições de receber indústrias de grande consumo energético. Neste domínio, está em construção a barragem de Laúca, que será o maior projecto energético do país dentro de alguns anos. A par disso, está a ser consideravelmente ampliada a capacidade de produção de energia na barragem de Cambambe.

Que grandes projectos agro-industriais estão em fase de implementação neste momento?
Projectos agro-industriais como tal ainda não temos. Mas já estão implementados projectos agrícolas de grande dimensão como o perímetro irrigado de Mucozo, no município de Cambambe, cuja inauguração faremos em breve. Será um projecto que vai produzir muitas frutas e outros produtos agrícolas, que já noutros tempos alimentavam a fábrica Vinelo, que transforma a produção em vinhos, compotas enlatadas, etc. Esta fábrica encontra-se paralisada há muito tempo, mas estamos a pensar em reabilitá-la no momento oportuno. Temos também na área da avicultura o projecto de produção de frangos no Lucala. Na pecuária, temos em Camabatela espaço para iniciar o repovoamento animal deste planalto e construímos um matadouro industrial. Estes são alguns exemplos.

Parece-me que hoje o grande problema já não é a produção, mas sim o estado degradante das estradas terciárias que emperram o processo de escoamento dos produtos agrícolas para os grandes centros de consumo. O que está a ser feito em relação a isso?
A partir do próximo ano vamos dar um novo impulso a este processo. Nós temos feito algumas acções neste domínio, principalmente no município de Cambambe onde há de facto boa produção. Importa realçar que, no âmbito do programa de combate à fome e à pobreza, Sua Excelência o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, orientou-nos para dar uma atenção especial às vias terciárias para facilitar o escoamento dos produtos agrícolas, que actualmente se estragam devido ao mau estado ou inexistência das vias terciárias. De resto, o programa de aquisição de produtos agrícolas (PAPAGRO) trouxe ânimo aos produtores e tem facilitado o problema do escoamento. Vamos resolver este problema de forma paulatina, até porque há limitações de ordem financeira e de execução dos projectos. Mas até 2017 esperamos reabilitar boa parte das estradas terciárias e resolver o problema dos nossos agricultores que produzem, mas têm dificuldades de escoar os seus produtos.

Muitos investidores têm recursos financeiros, mas encontram muitas dificuldades de acesso às terras porque estas estão na posse de pessoas que detêm a propriedade das terras mas não as exploram. O que está a ser feito a respeito disso?
De facto, este é um problema com que nos deparamos. Temos trabalhado com o Ministério da Agricultora para começarmos a aplicar as normas contidas na Lei de Terras, de modo a começar a “punir”, receber os terrenos e colocá-los à disposição das pessoas que estão em condições financeiras de darem um aproveitamento útil às terras e gerar emprego. É preciso dizer às pessoas que uma fazenda não é um sítio de recreio de fim-de-semana, mas sim uma unidade económica. É preciso gostar de agricultura para se investir neste sector.

Em relação ao sector habitacional da província, que projectos estão a ser implementados?
Estamos a trabalhar nos planos municipais de desenvolvimento e de requalificação urbana das zonas periféricas, principalmente, de Ndalatando onde temos previsto a construção de uma centralidade com 4.000 apartamentos. De acordo com a informação que temos da Sonip, as obras arrancam no primeiro trimestre do próximo ano.

Enquanto governador da província, que projectos se orgulha de ter concretizado e o que gostaria de concretizar nos próximos anos?
Olha (risos)… Quando fui investido das funções de governador em 2004, o que queríamos era reabilitar o centro da cidade. A cidade de Ndalatando tinha as ruas todas esburacadas e as fachadas dos edifícios em péssimo estado de apresentação, o que parecia uma cidade fantasma. A primeira meta foi mudar este quadro. Esse é um exemplo. Conseguimos reabilitar as vias da cidade e dá-la outra imagem. Agora é altura de apostarmos no desenvolvimento económico da província. Neste particular, vamos apostar muito na agricultura. Vamos fazer tudo para passarmos de uma agricultura de subsistência para uma agricultura desenvolvida, com pequenas, médias e grandes empresas agrícolas. Em suma, pretendemos fomentar e conciliar a existência de pequenas empresas agrícolas familiares com o surgimento de grandes projectos para depois darmos o salto para a agro-indústria.