Uma mística de várias origens raciais, etnolinguísticas, tribos, regiões, emigrantes e um crescimento populacional, caracteriza a cidade de Luanda, que apesar dos “mil e um” problemas continua a ser a metrópole que mais habitantes atrai, para desfrutar das suas ricas e potenciais áreas turísticas, a facilidade de negócios e o desfrute das noites longas “mundanas”. A heterogeneidade está a dar outra cara e credibilidade externa.
Há muito já foi o “El Dorado”, apesar dos rendimentos baixarem, ainda assim continua a dar “boa micha”, isto justificava até pouco tempo atrás a entrada de milhares de estrangeiros ilegais transportados dentro de camiões cisternas de combustíveis, para atravessarem longos quilómetros da fronteira e a migração, ainda que pouco acentuada de nacionais para a Capital.
Parece que para chegar à Luanda vale tudo... A vida é posta à prova e o temor à morte não vinca. São transportados em barcos rudimentares com o risco de naufragarem, isto pouco interessava, o essencial era atingir a capital angolana, onde até a venda de água embalada catapulta para altos negócios. São oriundos de diversos pontos do continente.

O nascer...
Luanda completa hoje (25 de Janeiro), 443 anos desde a sua fundação em 1576, pelo português Paulo Dias de Novais, sob o nome de São Paulo da Assunção de Loanda. Concebida para 500 mil habitantes, hoje está a rebentar pelas costuras com mais de nove milhões de habitantes, há crescimento exponencial de habitantes com todos os riscos que este fenómeno acarreta.
É incomparável a cidade de hoje e de ontem! A simbiose entre a velha construção e a nova, disputam o olhar do habitante ou visitante. É um casamento antagónico reprovado por uns e aprovados por outros. Uns defendem que o ideal seria a construção de uma “ nova cidade a Sul de Luanda” a outra parte acha que a antiga deveria manter-se rigorosamente igual.
A marginal de Luanda, as Ilhas do Cabo e do Mussulo estão imbatíveis para o lazer e a atracção turística. Se o capitão português Paulo Dias de Novais desembarcasse hoje na Ilha do Cabo, notaria uma “mudança “ de 90 graus.
Da parte alta do Eixo Viário vêem-se as imensas torres milionárias construídas, outras inacabadas e algumas em construção. “Luanda mudou de imagem e está mais convidativa com uma marginal muito atractiva para o recreio”, afirma um casal que contempla a capital a partir daquele ponto.
Trata-se do jovem Basílio Cassule e sua esposa idos do Cuanza Norte para uma consulta médica em Luanda, tiveram como ponto de eleição aquela elevação, para ver as mutações que Luanda vai tendo ao longo do tempo.
Na baixa de Luanda está Manuel Rufino, que contempla a escassos metros, mais de duas dezenas de edifícios que servem de escritórios para empresas angolanas e estrangeiras, contra dezenas deixadas pela colonização.
Oriundo do interior de Angola é ardina, já viveu no bairro Operário, também conhecido por “BO”. Está lá para os lados do bairro Benfica e explica que “é quase impossível estabelecer uma comparação entre Luanda actual e a antiga, há uma diferença abismal “.
Centena de lojas, restaurantes, bares, quiosques, livrarias, mais de 28 bancos comerciais que funcionam hoje em Luanda, contra os cinco “do outro tempo”. O movimento comercial supera a expectativa. Lá ficou a era da troca de bens, sendo que a disputa passa pelo kwanza, euro e dólar. A viragem e o passo para atingir o crescimento vai a uma velocidade de cruzeiro.
“Proibido banhar”, lê-se numa placa colocada a poucos metros da praia, na Ilha do Cabo. A regra é quebrada por um grupo de adolescentes. Destemidos, lançam-se ao mar para um mergulho. O sol abrasador é convidativo.
“Kota não liga muito estas coisas, se calhar alguém já quer privatizar esta zona e coloca este sinal. Você não viu o Presidente de Portugal a nadar aqui”, as palavras do jovem pareciam ter algum sentido.
É natural da Ilha do Cabo. Chamam-lhe de Bigu, lembra que de pequeno já mergulhou em vários locais que hoje estão transformados em empresas, restaurantes, razão da sã ignorância pelas placas de proibição. “Também havia proibido nadar”.
Ao longo da Ilha estão construídas inúmeras infra-estruturas como restaurantes, bares, discotecas, casas de jogo, clínicas, enfim. “Há mudanças de muita coisa os preços é que são muito altos uma gasosa Coca-Cola chega a custar 300 kwanzas”, desabafa o ilhéu.

Ponto mais “cobiçado”
A Ilha do Mussulo vista do alto do Capossoca é um verdadeiro encanto. É um casamento perfeito com a natureza. Na ponte cais estão encostadas pequenas embarcações para a travessia, por 700 kwanzas, se pode atingir o ponto turístico mais cobiçado de Luanda.
Há muita gente ávida para a travessia. Armando Chinguli arranca com uma das barcaças, carregando três casais, cada um pagou o valor combinado. A viagem dura em média 20 minutos. Oriundo de Benguela, factura uma média de 10 mil kwanzas por dia.
Mariquinha Chivila admira o esplendor do Mussolo. Está em Luanda a gozar férias escolares, não resistiu o convite para aquele lugar turístico. “Queria conhecer, e hoje concretizei o meu sonho”, confessa.
O seu parceiro, Carlos Mucanda em gozo de férias disciplinares fez recurso ao Mussulo para satisfazer a vontade da parceira, mas de repente abandonam o local... “Nada, aqui é preciso ter muito dinheiro. O lugar é bonito, mas assim não dá”, disse.

Falência urbana
Luanda está em “falência” urbanística, com tendência para um “caos” para daqui a 10 anos, caso não forem tomadas medidas que evitem a migração das pessoas do interior para a cidade de Luanda, afirmou o engenheiro António Venâncio.
“Vamos ter uma cidade com falência urbanística e com caos, sem se poder viver, porque haverá maior necessidade de estacionamento, menos saúde, menos escolas, mais engarrafamento”, aponta o engenheiro civil.
Sem rodeios, afirma que conhece Luanda desde a época que os camelos transportavam bens, e muitas das estradas eram de terra batida. A descaracterização de Luanda começou na década de 80. Segundo informa, houve uma “invasão no centro e nos bairros periféricos”.
António Venâncio entende que é preciso descongestionar Luanda, já que a densidade populacional passou de 500 mil habitantes para nove milhões habitantes em 2019, isto significa que “crescemos 20 vezes, o que implica ter 20 hospitais como o Josina Machel, igual número de hospital militar e Américo Boavida”.
Para ele, “assim haveria um crescimento proporcional e teríamos que crescer 20 vezes nas infra-estruturas dos esgotos e tratamento das águas residuais, sistema de drenagem e saneamento do meio”.
Por seu turno, o arquitecto Armando Ronaldo lamenta o facto de muitas empreitadas feitas em Angola não terem a consulta de especialistas nacionais da área. “Somos completamente ignorados por parte dos construtores, há preferência para os expatriados”, adianta.
Contudo, revela, as plantas na sua maioria são elaboradas com base em realidades como a europeia sem obedecer aos critérios do mercado local.
“Não obedece a nivelação do solo angolano, e no futuro poderemos ter problemas, é preciso valorizar o nacional. Eu não aprovo muitos destes projectos”, sublinha.
Por sua vez, Jacinto Chipa Sucar, arquitecto formado pela Universidade Agostinho Neto, considera que há um desrespeito pelo especialista nacional, e defende a necessidade de se mudar esta situação, “que em nada contribui para o crescimento e valorização do angolano”.