O presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), José Severino, disse, em entrevista ao JE, que a produção do material de construção civil no país cresceu considerávelmente, desde o lançamento de vários programas habitacionais do Governo. O empresário destacou a indústria cimenteira que continua na linha da frente, tendo sugerido ainda assim, que o mercado precisa de fábricas de tijolos, para facilitar o processo de construção de casas. Por outro lado, José Severino entende que a nova pauta aduaneira vai privilegia a produção nacional.

Enquanto presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), como avalia a produção do material de construção civil no país?
A produção de material de construção civil no país evoluiu muito desde o lançamento do programa de construção de um milhão de casas. Hoje, o sector cresceu de forma transversal, pois o país conta com unidades industriais com grande capacidade de oferta exponencial. Mas, infelizmente, por um conjunto de factores, as capacidades instaladas na indústria nacional não têm sido utilizadas. Um dos problemas foi o programa habitacional titulado pela linha de crédito da china que permitiu que as empresas chinesas entrassem para o mercado e trazendo tudo de fora. O que contribuiu para dinamizar a oferta do programa habitacional em curso na altura. Mas, não tivemos a capacidade de utilizar todas as capacidades que a AIA motivou para que se instalassem no país.

Com a retoma da produção do cimento nas fábricas que registaram défice no acesso ao combustível, olhando para a capacidade interna criada, já se pode falar na auto-sustentabilidade neste segmento?
Sim. A produção do cimento constitui o grande exemplo, em termos de produção nacional. Durante o programa da reconstrução, todos os dias o porto de Luanda recebia um barco para descarregar o cimento e ferro. Actualmente, toda produção é feita no país. A nossa capacidade de produção ronda as oito milhões de toneladas. A reconstrução nacional está a ser feita com a nossa produção. As nossas barragens são construídas com o cimento nacional. Temos três siderurgias e cinco cimenteiras.

No passado o país era quase auto-suficiente em matéria de cerâmica, o que terá corrido mal para que não conseguíssemos recuperar esse estatuto depois da guerra? E que cifras temos neste sector?
A cerâmica constitui o melhor material para a construção de moradias. O nosso país utiliza apenas 15 e 20 por cento da sua capacidade total. O país precisa introduzir um programa de habitação social que aproveite a eficácia do tijolo para a construção. É importante lembrar aos angolanos que o tijolo é o melhor material de construção. O bloco de cimento é para obras industriais. Se o programa de habitação social fizer esta inversão, as nossas cerâmicas vão recuperar os actuais prejuízos, resultantes do pouco consumo do tijolo. Quanto às tintas já somos auto-suficientes. No que se refere aos cabos eléctricos e os produtos siderúrgicos estamos a caminhar para a auto-suficiência. Os postos metálicos e de betão que eram importados no passado, hoje são produzidos no país, pelo que estão criadas as condições para o país caminhar.

No seu entender a nova pauta aduaneira vai privilegiar a produção nacional?
Acreditamos que sim. Nos últimos tempos, a AIA ganhou o apelido de “mãe da nova pauta aduaneira”. Importa sublinhar que quando se pensou em criar incentivo para a produção nacional surgiram várias vozes que defendiam o contrário. Hoje temos esta capacidade interna criada. A produção de tubos plásticos no país aumentou em grande medida. Se a pauta aduaneira continuar a exercer a sua função, de certeza absoluta que o país vai crescer em termos de produção e oferta.

Estamos a caminhar para as autarquias e descentralização. Que papel a indústria pode exercer na geração de receitas para impulsionar o desenvolvimento local, bem como a promoção de emprego?
A AIA sempre defendeu a descentralização da administração do Estado para impulsionar o desenvolvimento local e combater as assimetrias regionais. Para nós, estes apelos datam da década de 90. As autarquias são um processo. Nós temos vindo a apelar às indústrias para substituírem as importações de matéria-prima e boa parte desta está no interior do país. Temos de ir para o interior do país para instalar indústrias, com a visão futura de encarar o desafio de integrar a zona de comércio livre a nível da SADC. Portanto, temos também de investir nas zonas fronteiriças. Por isso, é que estamos a pedir para que haja mais incentivo para quem investe no interior do país.

Neste particular as parcerias são importantes?
Precisamos de corrigir o que para mim constitui um erro grave. Por exemplo, obrigar o investidor estrangeiro a criar infra-estruturas para a construção, energia antes de investir não é correcto. Obrigar investimento estrangeiro ter um parceiro angolano com o mínimo de 35 por cento, não é uma medida correcta. Não podemos coagir o empresário estrangeiro a fazer tudo. Nós não podemos servir os interesses de alguns grupos que querem enriquecer à custa do investidor estrangeiro. Todos devem investir sem limitações. O importante é servir a nação. Não é correcto que se faça estas exigências. Queremos que o país possa crescer a dois dígitos. Não podemos ter um país cuja economia cresça abaixo deste indicador.