Convidado em Maio, só integrou o Consórcio em Outubro de 2019. Carlos Rosado de Carvalho diz como tiveram acesso aos documentos, quem e como se financia a investigação e sobre eventuais riscos à integridade das pessoas ligadas aos processos. Está de consciência tranquila e com sentimento de dever cumprido agora que já são conhecidos parte do trabalho de investigação cuja finalidade foi de apurar a verdade (escondida) da presidência de Isabel dos Santos do Conselho de Administração da Sonangol.

O que é o consórcio e como funciona?
O ICIJ, acrónimo inglês de Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo, é uma organização não lucrativa sedeada nos Estados Unidos da América que se dedica ao jornalismo investigativo. Para o efeito, dispõe de uma equipa própria espalhada pelos EUA, Austrália, França, Costa Rica, Espanha, Hungria, Alemanha e Inglaterra e conta com a colaboração de uma rede de 249 jornalistas de mais de 90 países e territórios. Tem ainda parcerias com mais de 100 órgãos de comunicação social que inclui nomes sonantes como o norte-americano New York Times, o inglês Guardian e o nipónico Asahi Shimbun, mas também pequenos centros regionais de investigações como o Centre for Investigative Journalism do Botsuana.

Como e quando integrou a equipa?
O primeiro contacto que tive com o ICIJ, que apenas conhecia pelas suas investigações, nomeadamente a denominada Panama Papers, foi em Maio de 2019 quando recebi um e-mail de um jornalista da organização perguntando-me se estaria interessado em colaborar. Os contactos prosseguiram e em Outubro de 2019 entrei, formalmente, no projecto “Luanda Leaks”, “Vazamentos de Luanda” em tradução livre, com a assinatura de um acordo de confidencialidade.

Como actua neste trabalho de investigação?
A base do projecto de investigação foi uma fuga de informação de 715 mil documentos incluindo e-mails, contratos privados e públicos, folhas de cálculo, demonstrações financeiras, auditorias, organogramas empresariais, actas de conselhos de administração e de assembleias gerais, acordos de financiamento, facturas, consultoria fiscal e reembolsos fiscais, etc. A maioria dos documentos estão directa ou indirectamente relacionados com Isabel dos Santos os seus negócios e as suas empresas. As informações chegaram ao consórcio através da PPLAAF, acrónimo francês de Plataforma para a Protecção de Denunciantes em África, fundada em 2017 por advogados, activistas contra a corrupção e jornalistas de investigação com o objectivo de proteger quem denuncia as diferentes ameaças ao interesse público.

Muitos documentos, como se tem acesso? Como é distribuído entre os jornalistas?
Todos os 120 jornalistas do “Luanda Leaks” tiveram acesso aos mesmos documentos e às mesmas ferramentas de pesquisa. A consulta de base de dados permitiu a cada um definir os seus próprios ângulos de acordo com o seu critério editorial e o interesse público. Os 120 jornalistas funcionaram de forma autónoma, pois não se trata de uma redacção em que o “chefe” diz o que cada um faz. Não era uma redacção mas houve cooperação. Foi criado um fórum online onde todos podiam partilhar informações sobre as investigações que estavam a levar a cabo. Se alguém estava a investigar os empréstimos da Unitel a Isabel dos Santos podia interagir sobre o assunto com todos os membros do grupo, partilhando informações, contactos, fontes ou o que quer que considerasse pertinente para a sua investigação. As partilhas eram acessíveis a todos pelo que quem quisesse entrar na discussão podia fazê-lo. Tudo isto num ambiente de cooperação, sem competição.

Um projecto desta natureza é caro? Quem paga?
O ICIJ é uma organização sem fins lucrativos. Os trabalhos de investigação não são vendidos pelo que não geram receitas. Mas as investigações são caras implicam pessoas, jornalistas, mas não só, viagens, comunicações, um bom sistema informátio, etc.

Quem paga tudo isso?
O consórcio vive de doações. Os principais doadores estão disponíveis no site da organização. Entre eles, pessoas colectivas como as fundações Ford e Open Society, mas também particulares como a actriz Merryl Streep e a cantora Barbara Streisend. A propósito, quem quiser fazer alguma doação pode fazê-lo online.

Risos. Qual foi o seu papel, único jornalista angolano neste consórcio?
O meu papel foi igual aos dos outros. Pesquisei a base de dados e defini o que me interessava investigar e investiguei. Com uma diferença. Como jornalista independente sem ligação a um órgão de comunicação em concreto, não trabalhei com o propósito de divulgar os resultados da investigação num jornal, numa rádio ou numa televisão ou qualquer outra plataforma. De alguma maneira trabalhei mais à vontade do que os restantes colegas sem a pressão de publicar algo numa determinada data. Mas tenho aproveitado as minhas intervenções nos diferentes media para partilhar algumas das conclusões a que cheguei com o “Luanda Leaks”. O facto de trabalhar e residir em Angola, dá-me um conhecimento da realidade local que julgo foi uma mais-valia os restantes membros do projecto com quem interage.

Como são remunerados os jornalistas que trabalharam no projecto?
Os jornalistas do “Luanda Leaks” ou são trabalhadores do próprio ICIJ ou trabalham em algum órgão de comunicação pelo que terão sido remunerados pelas respectivas entidades patronais que são, igualmente, responsáveis pelas despesas inerentes à investigação, nomeadamente viagens. Eu como sou independente remunerei-me a mim próprio. A principal vantagem foi o privilégio de participar num projecto com a nata mundial dos jornalistas de investigação e o acesso a uma base de dados inesgotável uma matéria-prima que não se esgotou nem se vai esgotar tão cedo.

Não receia por nada contra si, dada a natureza do caso, pessoas envolvidas e as implicações até política da questão?
Não, não receio, embora não exista segurança absoluta. Fiz o meu trabalho respeitando as regras da profissão. Por isso estou bem com a minha consciência que é o mais importante.

Qual a principal conclusão do “Luanda Leaks”?
A principal conclusão é que a narrativa de Isabel dos Santos segundo a qual construiu o seu império não cola. Isto sem prejuízo, naturalmente dos seus méritos que serão muitos. A investigação confirmou por A mais B, com documentos - digo confirmou porque há muito que haviam denúncias nesse sentido - que Isabel dos Santos não chegaria onde chegou se não fosse filha de quem é, se não tivesse beneficiado de fundos do Estado, sob a forma de empréstimos ou outras, de adjudicações directas, etc. Mas não foi só o Estado a ajudar. Isabel dos Santos beneficiou de centenas de milhões de dólares de empréstimos da Unitel para fazer investimentos em nome próprio que deveriam ter sido feitos pela Unitel. A empresária comportava-se como Dona de uma empresa, que chegou a ser a mais rentável do Mundo, quando não tinha mais do que 25% do capital.

Qual deve ser agora o comportamento das autoridades angolanas?
Os jornalistas investigaram e divulgaram as informações que consideraram de interesse público que contêm fortes indícios, senão mesmo evidências, de práticas de legalidade duvidosa ou, no mínimo, eticamente reprováveis. Cabe agora às autoridades abrir os inquéritos que considerarem necessários, investigar o que houver para investigar e propor ou não julgamento. Os jornalistas não julgam isso é da responsabilidade dos juízes. As pessoas envolvidas na investigação “Luanda Leaks”, incluindo Isabel dos Santos, gozam da presunção de inocência. E espero que as investigações não se esgotem em Isabel dos Santos. A corrupção em Angola não começa e acaba em Isabel dos Santos ,vai muito para além. Naturalmente que teria de se começar por um lado e admito que esse lado fosse a filha do ex. Presidente. Agora é necessário continuar. Depois da família dos Santos sugiro que se “ataque” as pessoas que passaram pelo inner circle do antigo Presidente. A ideia de que estamos em presença de combate selectivo, de perseguição política tem de ser desmentida com factos, isto é com o alargamento
das investigações.

Conheça o “luanda leaks”
“Luanda Leaks” é um conjunto de investigações relacionados com a actividade empresarial de Isabel dos Santos, que possui mais de 400 empresas e subsidiárias em 41 países, incluindo em Malta, Ilhas Maurícias e Hong Kong.
O coordenador de parcerias com África e Médio Oriente do ICIJ, Will Fitzgibbon, não tem notícias de qualquer acção de retaliação sobre os jornalistas que fizeram a denúncia contra Isabel dos Santos. Fitzgibbon acha que “Luanda Leaks” mostra uma mudança de comportamento em torno dos escândalos de corrupção, para além do movimento de isolamento do actor denunciado. Especificamente sobre África, o coordenador do ICIJ acredita que os alegados casos de corrupção, irregularidades ou crimes financeiras mudaram nos últimos anos.
“Não se pode mais pensar em pessoas circulando pelos países com uma maleta com 100 mil dólares em notas”.
“Luanda Leaks” é o resultado de uma investigação jornalística a alegados esquemas de enriquecimento de Isabel dos Santos, filha do ex-presidente angolano, José Eduardo dos Santos, e o marido, o empresário congolês Sindika Dokolo, por um consórcio internacional de jornalistas, a partir de cerca de 715 mil ficheiros obtidos através de uma organização de protecção de denunciantes em África.
Durante oito meses, jornalistas de 34 órgãos de informação de vários países, incluindo os portugueses “Expresso” e SIC, que cooperam através do Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação, analisaram 356 gigabytes de dados que somam os documentos dos negócios da empresária entre 1980 e 2018.
O consórcio identificou quatro centenas de empresas às quais Isabel dos Santos está ou esteve ligada nos últimos 30 anos, incluindo 155 portuguesas e 99 angolanas. No final de 2019, detinha ou participava em 169 sociedades em 22 países, com Angola (81) e Portugal (22) à frente.

“calculo que será difícil trazer Isabel dos Santos a Luanda”

Isabel dos Santos acaba de ser constituída arguida…
Salvo melhor interpretação, a constituição de Isabel dos Santos como arguida não tem a ver com a denúncia apresentada na PGR por Carlos Saturnino, seu sucessor na Sonangol. A denúncia foi investigada e a empresária passou de suspeita a arguida. Desse ponto de vista até ficou melhor. Enquanto suspeita não conhecia as razões das suspeitas, pelo menos oficialmente. Como arguida já as conhece: desvio de fundos e gestão danosa.

Acha possível trazer Isabel dos Santos a Luanda para ser judicialmente responsabilizada?
Não faço ideia. Mas calculo que será difícil. Isabel dos Santos também tem nacionalidade russa. Ao que julgo, os outros arguidos são portugueses. Não sei se a eventual emissão de mandados internacionais poderá ter alguma eficácia. Melhor esperar para ver.

Há quem diga que estes casos servem para distrair pois o país tem outras e sérias prioridades?
Estes casos têm a ver com corrupção. O combate à corrupção é seguramente uma das principais prioridades do País. A corrupção é apontada por todos os estudos como um dos principais conspurcadores do ambiente de negócios do País. Sem bom ambiente de negócios, não há investimento, não há emprego, não há crescimento e consequentemente a melhora das condições de vida dos angolanos.

O “Luanda Leaks” é bom ou mau para Angola?
Externamente, acho que o primeiro impacto é negativo, porque confirma a ideia de uma Angola corrupta e impune, em que uns poucos milhares se apropriaram do dinheiro do petróleo, deixando milhões na miséria. Cabe-nos agora a nós provar na prática que o país mudou de paradigma e que os tempos da impunidade terminaram. Se o conseguirmos fazer o “Luanda Leaks” foi positivo. Internamente, o “Luanda Leaks” suporta a tese de que o combate à corrupção tem a razão de ser e que até deve ser aprofundado.