Em Angola, aos pouc0s, o cidadão está a concretizar o sonho da casa própria. Há várias formas de atingir o objectivo. Construir ou aderir aos projectos habitacionais em execução pelo Governo.


Entre todas às opções construir continua nos dias que correm “uma travessia no deserto”. O preço do material de construção custa caro e regista uma subida que varia de 10 a 50 por cento.

Para medir à pulsação, o JE fez uma ronda por vários mercados e lojas de Luanda onde se comercializa material de construção. O périplo começou no mercado 11 de Novembro a céu aberto, localizado no bairro Sapu, município de Belas, em Luanda.

São 9H30, terça-feira (3), timidamente os comerciantes orientam os jovens na arrumação do material. Os corredores do mercado estão vazios, contrariamente ao passado onde o frenesim e engarrafamento coabitava com todos no mercado. A cada minuto o cepticismo toma conta dos vendedores.

Salta à vista uma senhora sentada com uma criança ao colo, e com a mão na “bochecha”. Chama-se Judith Patrício. A expressão retrata o desespero do momento.

“Está mal já não há clientes, até agora não vendi nada, ontem só consegui mil kwanzas, não sei como será hoje, as crianças estão à espera de mim para comer ”, desabafa.

Vendedora de louça sanitária, onde uma caixa de mosaico que anteriormente custava 1.800 kwanzas vale hoje 2.500 kwanzas, a sanita custa 5 mil contra os 3 mil anteriores. A mais cara custa acima de 30 mil kwanzas. Com os preços em alta, e sem clientela, conta que está difícil aguentar a casa, onde mais 3 pessoas esperam dela o sustento.

Odeth Pinheiro é comerciante de materiais de construção civil há mais de oito anos. Lamenta os dias de hoje, recordando o passado, em que o negócio era muito mais rentável. “Já cheguei a vender duas toneladas de louça sanitária por dia”, recordou. A factura diária chegava aos 2 mil dólares.

“Há vezes que vendo 1.500 kwanzas e retiro dali 500 para o táxi e outra parte para pagar o espaço do mercado”, sublinha, angustiada.
Sentada com um grupo de comerciantes conta que a bonança faz parte do passado.

Um lavatório está a vender a 5 mil kwanzas contra os 3 mil anteriores, um bidé está cotado ao mesmo preço, um autoclismo de 4 unidades passou de 10.500 a 12.500 kwanzas.

Inês Joaquim Keta, vende ferro de proporção 40/80, um metro, que custa 700 kwanzas contra os 400 anteriores, tubo galvanizado 8 mil, contra os 5mil, dobradiça custa 400 contra os 200.

Uma chapa de zinco de seis metros está a ser comercializada a 3 mil contra os 1.300, já a lusalite de 3 metros custa 1.600 contra os 800 anteriores.

Segundo disse, houve uma fase que durante uma semana não conseguiu vender nada “tive que desistir da kixiquila e dever um dinheiro para me manter no negócio parecia que o céu tinha caido sobre mim”, depois de sublinhar que “está difícil o sustento dos pequenos em casa”.

Baixa procura
O cenário se difere apenas dado que os dois mercados têm cobertura. De resto a história se repete. Os preços, o ritmo é o mesmo há também pouca venda por causa dos preços altos, nos mercados do Kifica e Madeira.

O “frenesim” já faz parte do passado. Algumas lojas mudaram o foco de negócio, outras fecharam porque na sua maioria eram arrendadas. O tempo é de contenção, diz um comerciante de origem indiana.

Nos três mercados, notamos que o preço do cimento subiu para 950 kwanzas, contudo, o bloco mantém a 60 e 70 kwanzas a tipologia define o preço.

Há fábricas que correm o risco de fechar porque estão há quase duas semanas sem clientes, o que condicionará o pagamento do ordenado dos trabalhadores.

Já em algumas lojas, a louça sanitária o interessado pagava acima de 250 mil ou mais por um jogo, tudo dependia
da qualidade.

Isaac Ngonga trabalha na feitura de portas usando matéria-prima nacional, ao lado do seu irmão Germano Ngonga e Ernesto Correia, mestre há muitos anos. Apuramos que cada porta de um metro e 80 centímetros custava 23 mil kwanzas, enquanto, a porta de alumínio na loja ao lado a 40 mil.

Um atado de ferro que custava 85 mil custam 125 mil, um andaime esteve orçado antigamente a 8 mil agora custa 15 mil.

Venda de inertes
No segmento de venda de inertes, os comerciantes estão atentos aos “movimentos” dos eventuais clientes. Se antigamente era visível a presença de mais de 20 camiões estacionados e carregados de inertes, actualmente, o cenário é bem diferente. Naquele dia (terça-
-feira), apenas sete camiões estavam ali estacionados.

Anibal Pataca vende brita com um camião de 9 mil cúbicos, que custa 50 mil kwanzas, contra os 25 mil anteriores, uma subida na ordem de 100 por cento.

Antigamente, carregava este material, na localidade do Tombo, mas agora, existem britadeiras próximas, cujo custo é “altíssimo” adquirindo a 22 mil.

José André Panzo, vende brita preta, juntamente com os seus colegas. Nove metros cúbicos custam 45 mil kwanzas contra os 22 mil anteriores.

Os interlocutores são unânimes em afirmar que a clientela baixou muito se comparado com a comercialização no período anterior a subida do dólar.

No outro lado, da estrada do bairro Sapu, um grupo de senhoras faz a venda de areia, pedras, a retalho onde o cliente pode comprar uma quantia de 25 kg ao preço de 300 kwanzas.