Há uma determinada altura, a responsabilidade para as soluções sobre as questões económicas domésticas, relativamente, ao dia-a-dia do consumidor final, gravitava à volta do informalismo. E tal, nos remete ao famoso mercado do “Roque Santeiro”. Ou seja, tudo começava e acaba neste também designado na altura como o “mercado dos mercados”. Era um turbilhão de gente que, mal a manhã estendia o tapete, já estava em pé, atrás do “candongueiro” para o “Roque”. Não transbordava, com certeza, alegria. Poder-se-ia caracterizar o momento como “a vida do cão”, como escreveu o escritor. Ainda dominados pelo sono de uma noite mal acabada, lá se tinha de se enfrentar os desafios do mercado adentro e todas as vicissitudes e aventuras que eram intrínsecas ao local. Às vezes se entrava com dinheiro e se saía do mesmo sem nada. Quando não se era importunado pelos “dono do alheio”, tinha-se a mercadoria adquirida que depois servia para alimentar outros mercados. Havia de tudo no “Roque Santeiro”, ao ponto de receber a “distinção” de um dos melhores mercados informais de África. O espaço comercial que movimentava, em termos práticos, a nossa economia. Todos os dias se falava do Roque. Para lá se confluía gente de todos os estractos sociais. As famílias eram directa ou indirectamente alimentadas por este mercado. Pelas ruas de Luanda observavam-se à extensão do mercado. Os Hiaces vulgos “azuis e brancos” mais faziam a “rota Sambizanga” do que uma outra. Era bastante lucrativa. O movimento financeiro era enorme. Uma verdadeira bolsa de valores. Resumindo, a sobrevivência de muitas famílias, vungueiras e até de empresas comerciais começava e terminava neste mercado negro. O “Roque Santeiro” era uma espécie de empresa-mãe, a distribuidora nacional e, logo, todo o país dele dependia para fazer sobreviver o seu comércio. Eram as “filiais”. E a economia informal, em face da situação, se confundia com a formal. Aliás, era um momento de instabilidade político-militar e como consequência enfraquecia a economia centralizada. Além de tudo escassear e as famílias entregarem a sua situação de vida ao “Roque” e, como na terra do cego quem tem um olho é rei, então sobressaiu o cooperante. Expatriado, geralmente, europeu que tinha o seu rendimento em dálares, logo possuía uma situação mais folgada, perante uma economia, na altura, dolarizada. A moeda do tio Sam dominava e servia para todas as encomendas. Sobre a imponência, altivez e grandiosidade do cooperante, os cantores retratavam nas suas músicas. “Roque, Roque Roque”, quem se lembra deste refrão? E de canções em homenagem ao mercado? “Vizinha zongola”, uma inspiração da vivência “roquista” e que censurava comportamentos entre vizinhos nos subúrbios, principalmente. Lá está, fenómenos e atitudes que o momento gerou e o informalismo musicou. Os chamamentos dos cobradores em pouco tempo enchiam as viaturas de mais de 9 lugares e mesmo assim se pedia para que o passageiro “emagrecesse” para ocupar a baúca. Muito cedo as viaturas iam e muito cedo regressavam do mercado. Muito cedo ainda, já na revenda, ganhava sentido o zungueiro que calcorreava pelos bairros: “É sabonete, omo, pepsodente e sabão”. O cenário não era diferente para os comerciantes fora de Luanda. De outras paragens, os autocarros inter-provinciais transportavam gente cujo destino era o “Roque Santeiro”. Na viagem de regresso, estas viaturas lotavam-se mais de mercadoria do que pessoas. Era autêntica maratona comercial, sustentada por rotas de vários pontos e com um único destino.

De onde veio o nome?
O Mercado Roque Santeiro estava localizado no município de Sambizanga. Foi aberto em 1991 com o nome oficial de Mercado Popular da Boavista. Rcebeu o nome de Roque Santeiro a partir da telenovela brasileira com o mesmo nome, exibida pela Televisão Popular de Angoa (TPA)
Ficou conhecido como o maior mercado a céu aberto de África, estendendo-se por uma área equivalente a 5 campos de futebol, onde comerciantes vendiam mercadoria diversa: alimentos, computadores, carros e se negociavam casas, nas inúmeras barracas que compunham o local.
O mercado cresceu e se impos na economia nacional, também por culpa do conflito armado, que motivou à escassez de comida e outros bens essenciais. Em 2011 decidiu-se pelo seu fecho. A decisão abalou os comerciantes e todos que dele se serviam.
O “Roque Santeiro” foi transferido para o Panguila, localidade muito distante do centro de Luanda. Para o Panguila, os custos com a transportação eram maior e os benefícios escassos. Os comerciantes experimentaram muitas dificuldades. Já se assumiu publicamente que a decisão para o Panguila foi a menos feliz. Mas, já não se recuou, pois outras razões, também atendíveis, julgamos, estiveram também na base do seu encerramento.
A pergunta oportuna: o fim do Roque determinou o fim do informalismo...?