assumem que “tudo aquilo que não é proibido é… permitido”. A verdade é que Angola possui muitos recursos naturais, muitos destes explorados por particulares, por várias razões, dado o seu valor comercial.
Se falarmos genericamente das riquezas do solo, do subsolo, dos mares, rios e lagos existentes, encontramos resposta na música de Dom Caetano, no seu “O meu chão tem tudo…”
De facto, a nossa terra possui recursos que, explorados a servirem a economia, dariam uma lufada de ar fresco ao Orçamento Geral do Estado (OGE) que bem continua estribado às receitas petrolíferas.
Dentro do noso “menu” extenso de recursos, cabe hoje menção ao lagostim do rio Keve, situado à porta do Sumbe, a emblemática capital da província do Cuanza Sul, uma referência assinalável para quem usa a estrada nº 100, o percurso Luanda/Sumbe e vice-versa.
Hoje por hoje, quem atravessa a ponte sobre o rio Keve, no sentido para o Sumbe, encontra um ligeiro desvio, de menos de dois quilómetros antes de voltar a apanhar o asfalto. De resto, a recuperação da via prossegue, como acontece com quase todas as outras pelo país adentro.
Há dias, e a pretexto de reportar o estado de algumas estradas, observámos já muita intervenção feita. É bem certo que, aos poucos, o conforto retorna. Pois, regressaram-se às 3 horas habituais de viagem, o tempo que geralmente se pode fazer quando a estrada é boa. Está quase uma pista. Em Maio, como foi já anunciada, as estradas nacionais melhoram.
Falta pouco tempo até o próximo mês de Maio. O importante é que não se pare mais. Que não hajam mais incumprimentos e as obras conheçam o seu fim nos prazos definidos. Quer queiramos, quer não, com más estradas, não só perdemos nós, mas também a economia que precisa prosperar. A dinâmica económica de um país faz-se com a boa circulação e o que nos apresenta a EN 100 e outras, por enquanto, não são uma boa notícia.
Boa notícia é o que se vai transformando o troço Luanda /Sumbe, onde se regressa rapidamente ao conforto. A porção que resta para a sua conclusão já não constitui mossa para quem, ao volante, opte pela EN 100 e queira chegar ao Porto-Amboim e viver as maravilhas da sua marginal, com restaurantes com boa gastronomia servida, sob o encrespar das ondas do mar do Cuanza Sul, rico em peixe e marisco.
A uma determinada altura, porque a degradação das estradas forçam, ao partir-se para uma viagem (ainda não deixou de ser esta a realidade?!), na formatação do itinerário, coloca-se já o “mapa dos buracos”, os desvios para terra batida (que não são poucos) e o tempo “anormal” da viagem, já que estradas em mau estado acarretam consequências adversas.
As reportagens passadas pelas cadeias televisivas nacionais, em relação ao troço Sumbe/Benguela, falam por si. Colunas de viaturas paradas horas a fio, num desvio longo de terra batida e não superada a tempo, a braços com as consequências das enxurradas.
É uma verdadeira odisseia viajar pelas nossas estradas nacionais. Sem dúvida que a EN 100 que completa a ligação Luanda à zona fronteiriça da Santa Clara (Cunene), é muito utilizada, dado ao movimento comercial com a Namíbia e África do Sul.
A rota é tão comercial que levou uma das operadoras de transportes colectivos rodoviários do país a passar a efectuar ligações, com regularidade, com a vizinha Namíbia, não obstante os transtornos em muitos pontos do percurso. Como diz quem nessa via se aventura: “Uma batalha campal”, mas rentável, com certeza.

Lagostim do Keve
Embora se esteja em época, quando cruzámos o Porto Amboim não chovia. A poeira se levanta a cada carro que cruzasse. A ocasião é aproveitada pelos comerciantes do lagostim. As viaturas afrouxam a marcha e algumas param para comprar o marisco da água doce.
Os capturadores fazem a vontade do comprador. Interpretam a máxima de que “no aproveitar está o ganho”. Como o desvio da estrada ficou ainda mais perto do rio, o tempo de atendimento às viaturas encurtou e o rendimento aumentou.
No local, armadilhas feitas com bambu capturam um número considerável de lagostins. Um balde médio de 5 quilogramas é vendido entre 4 e 5 mil kwanzas. A este período do ano surgem “na rede” lagostins “saudáveis”, quais “camarões gigantes” moçambicanos.
António César é um dos jovens que sobrevive do negócio. Quando por lá estivemos, tinha como companhia o filho de 14 anos, com um lagostim pendurado em varinha, sinalizando a magia do negócio que cresce cada vez mais.
Outros companheiros seus, enquanto ele despachava mais um balde destes crustáceos, bem apreciáveis, produziam mais armadilhas. Tudo por lá está “tranquilo e favorável”.
As armadilhas podem ficar submersas entre três e quatro dias. Conforme vão enchendo, passam os capturados para “um viveiro”, como eles consideram. Esses viveiros são também de bambu, onde os camarões podem ficar muitos dias, enquanto não são comercializados.
Augusto, um outro vendedor, conta que o farelo serve de “isca”. Colocado num saco dentro da armadilha, o farelo atrai os lagostins. Entram por uma abertura em forma de funil e que depois não os deixa sair. Só tem entrada.
Além de lagostins, de ressaltar a importância turística da região do Cuanza Sul, que possui uma vasta extensão marítima com diversidade marinha, rios e lagos, ricos em peixe, para não falar da agricultura e do seu potencial em gado bovino, pontificando a zona da Pinda.
É quase dado assente que, por essas paragens, se produz a melhor batata-doce nacional. A região da Pinda está igualmente transformada num mercado de compra de carne bovina abatida. Pessoas saídas de Luanda associam-se numa “vaquinha” e p’ra lá se deslocam para adquirir um garrote a 70 mil kwanzas.
Mas, entre os negócios ao longo da via encontram-se hortícolas, galinhas, leite azedo e carne de jibóia. Curioso n’é? Mas é a pura verdade. No Cuanza Sul parece que tudo vale... Até dar um mergulho nas Cachoeiras do Binga, um agrupado de quedas de água, um belíssimo ponto de atracção turística.
Vezes há em que emissões da rádio local são lá feitas, numa mistura de fins-de-semana de sons, cores e tons. Razão para “empurrar” meia cidade do Sumbe para momentos de folia e pândega.
O rio Keve e o mar estendem as mãos e envolvem a Cachoeira, dando protecção e cobertura aos banhistas, valorizando a natureza bruto. Há muito ainda que galgar para que subtraíamos dos recursos turísticos as receitas que a nossa economia muito precisa.

História do lagostim

Lagostim é o nome vulgar das espécies menores de crustáceos da sub-ordem astacidea (à qual também pertencem alguns dos maiores crustáceos, como o lavagante). Também se usa este nome para os camarões de grandes dimensões. Assim como os demais artrópodes (animais de patas articuladas), os lagostins sofrem diversas ecdises (troca de carapaça) para crescer.
O lagostim consegue escavar o leito dos rios para se esconder, podendo cavar túneis com dois metros de profundidade e tornar a água mais turva (ok, deve ser por isso que o rio Keve tem a cor lamacenta), com o aumento do calor consome mais vegetação, acabando com lugares de esconderijo e postura de ovos de anfíbios.
Com o calor, o lagostim aumenta o consumo de plantas e ataca as plantações, trazendo danos económicos. Além de plantas aquáticas, também se alimenta de moluscos, insectos e mesmo alguns peixes.
A carapaça original é descartada quando a quantidade de hormónio de crescimento desses artrópodes atinge certo grau e somente depois do descarte é que a nova carapaça cresce. Durante o período da troca, até que a nova carapaça fique rígida, o lagostim passa uma maior quantidade de tempo escondido para a sua protecção.