O relançamento da produção do café no país, bem como o ressurgimento dos grandes campos, que podem gerar divisas, inúmeros empregos e renda nas populações, sobretudo das zonas rurais, se combinados com esforços só lograriam resultados absolutos se estiverem aliados à necessidades de fomento da produção, com a concepção de um programa de extensão rural, nas principais e tradicionais províncias cafeícolas do Executivo angolano.
Numa primeira fase, os actuais moldes de cultivo e mais tarde, a utilização de maquinaria para o derrube, capina, fertilização, desinfestação e colheita tendo como meta, o aumento da produção e da produtividade para o alcance a longo prazo atingir as cifras históricas de 240 mil toneladas, contra as actuais irrisórias três mil toneladas de café como consta dos dados fornecidos pelo INCA, só podem ser alcançados com empenho total do Estado. É com base nestes elementos que o JE entrevistou o presidente da Associação Nacional do Café, Cacau e Palmar de Angola (CAFANG) e director-geral da Nova Procafé, a entidade que lida diariamente com os produtores, comerciantes e parceitos internacionais, para entender a situação actual do sector.

Qual é a situação actual da produção do café no país?
Nós estamos numa situação lastimável e preocupante. Quase que não há produção interna. Posso admitir que é vergonhoso a situação que chegamos, que envergonha o país. Não há apoio da banca comercial, nem do próprio Estado, que devia ser o maior impulsionador da produção local. Por exemplo, estão alienar e a privatizar o património das plantações herdadas do colono, que serviu o café, dando-lhes destinos que nada têm a ver com a produção cafeícola. O país com este tipo de atitude não pode concorrer com os grandes produtores africanos como Ruanda, Uganda e outros, que lutam todos os anos para obter maiores resultados a nível continental.

O que falta para que possamos voltar aos tempos áureos do café, afinal já fomos, nos anos 70, o terceiro maior produtor mundial?
O país tem capacidade e condições excelentes para produzir muito mais café que os grandes produtores como a Etiópia, o Uganda e Costa do Marfim, estes estão hoje na liderança em África. O que aconteceu, sublinho, é que relaxamos e hoje estamos nos piores lugares do continente, quando já fomos o terceiro maior exportador mundial. O nosso café tem uma boa aceitação no mercado internacional devido a sua alta qualidade. Por isso, é urgente impulsionar a produção de viveiros a escala industrial, visando a breve trecho à exportações, para mitigar as actuais restrições da oferta e permitir que voltemos aos lugares cimeiros.

Qual é actualmente a população de produtores que a CAFANG controla em todo país?
Temos sob controlo mais de 200 fazendas de produção de café e mais de oito cooperativas. Quase todas elas com grandes dificuldades e uma produção insignificante. Há um fazendeiro na província do Cuanza Sul com uma produção significativa, o resto está em grandes dificuldades. Para isso, impõe-se que a distribuição de viveiras sejam feitas de forma gratuita aos pequenos cafeicultores, sobretudo, os associados em cooperativas, para que desse modo possamos alcançar o maior número de produtores. A população de produtores é muito grande, uns estão a abandonar essa cultura, mas outros estão aí. Nesta altura, estamos a levar à cabo um recadastramento dos associados e em breve teremos os dados mais precisos.

E neste sentido quais são as grandes dificuldades com que se deparam os cafeicultores nacionais?
Temos exemplo, informações de que Angola, que é membro da Organização Internacional do Café (OIC), não paga as suas quotas, o que o inibe à partida qualquer discussão ou reivindicação dos seus direitos, condicionando a que beneficie dos programas desta entidade mundial. Alguém devia perguntar ao Ministro da Agricultura a que se deve tudo isso? Como deveremos acompanhar a passada de outros países na produção do café? São perguntas que ficam por responder.

Certamente os contragimentos na vossa actividade não ficam por aqui...
Temos várias dificuldades, desde o acesso à financiamentos via banca comercial e do próprio apoio do Estado que é praticamente nulo à falta de condições para o derrube, capinas, fertilização, desinfestação e colheita do produto. A ausência de um processo de mecanização da produção, os acessos às plantações, o preço do quilo de café, que contrasta com o praticado lá fora.Por exemplo, da sede de uma província para um municipio ainda é possivel chegar sem constrangimentos, mas para os locais de plantação é uma dor de cabeça. É neste sentido que pedimos a intervenção do Estado. O preço do café, que é um imperativo de bolsa, deve ser melhor regulamentado para não haver discrepância.

A Nova Procafé o que tem estado a fazer dentro desse processo?
A Nova Procafé está habilitada para actuar em toda fileira do café, pelo que, se propõe a abraçar projectos de mudas de várias espécies, sobretudo a zona norte, compreendendo as provincias do Uíge e Cuanza Norte, sem esquecer as demais. O objectivo é facilitar a vida de milhares de produtores interessados em relançar a produção, que se esbarram com a dificuldade de encontrar mudas em quantidade e qualidades que satisfaçam os seus interesses. A Nova Procafé tendo em vista a exiguidade e o valor comercial, tem contactos avançados para estender a sua actuação para o centro sul do país, para o Bié, concretamente, onde se pretende levar cabo a produção em grande escala de café arábica. Este projecto prevê a utilização de mão de obra local, o que deverá ajudar a fixação das populações nas suas zonas de origem.

Que contribuito pode o café dar ao Orçamento Geral do Estado e na geração de empregos no país?
Essas cidades todas que vemos hoje, à par das centralidades, foram construidas com o dinheiro do café. Portanto, o petróleo e o diamante devem ter outros produtos opositores e não há na agricultura, um outro produto senão café, que seja capaz de fazer “milagres”. Com a sua exportação é possível a captação de divisas, que podem contribuir significativamente para o OGE.
Com o número de fazendas espalhadas pelo país e a capacidade que as cooperativas têm de congregar pessoas, podem ser uma grande alternativa ao Estado na criação de empregos. Não há um sector capaz de criar tantos empregos na agricultura que não seja o do café. Há muitos jovem a diambularem pelas cidades sem fazer nada, podem bem servir as fazendas. Existem as plantações, a colheita, o descasque, o transporte e a comercialização. Estes factores todos criam uma cadeia perfeita que podem bem absorver muita mão-de-obra jovem. É um sector gigante que está apenas adormecido.

Nota uma mudança na forma como o novo Executivo olha agora para a produção do Café?
Há um esforço muito grande por parte do novo Executivo, que esperamos que seja muito diferente do anterior governo na condução do país e das políticas para agricultura. Na minha opinião, deve haver um pouco mais de dinamismo do Presidente da República em comprometer-se, como tem vindo a dar mostras, às causas do país, para que mudemos de mentalidade.
O Estado quase nada apoia as empresas do café. Nunca vimos por exemplo, o dinheiro do Fundo do Café, nem sabemos o que andam a fazer com ele. Portanto, penso que nós privados não temos que receber nada do Estado, mas seria bom que este olhasse para aquilo que são as condicionantes da produção, os incentivos. Do mesmo jeito que o Estado refinancia bancos que vão à falência, porque não financiar o sector do café.

Há provincias, por exemplo, que eram grande produtoras de café que quase não se fala mais delas, o que aconteceu?
Os produtores andam descontentes com as políticas criadas para o fomento da actividade de produção. É preciso regulamentação do mercado, para que as coisas funcionem. Por exemplo, um dos melhores café do mundo e do país está nos Buegas, na província do Uíge. O colono estava a melhorá-lo, mas está praticamente abandonado, as vias de acesso estão péssimas e ninguém apoia quem produz. Às vezes esses fazendeiros não precisam de muito dinheiro, é possivel comprar café ainda planta e depois negociar a colheita. Nem isso se faz actualmente.

Falou de uma empresa suiça que está muito interessada na produção e compra do café angolano. O que pretende essa empresa?
Existe sim uma empresa suiça, a BellPeter, com a qual temos estado a cooperar, que quer investir fortemente na produção de café, com financiamento de milhões de dólares para apoiar agricultadores e estão com boas políticas, inclusive de responsabilidade social muito significativa. Pretendem construir escolas e hospitais, bem como formar técnicos nacionais capazes de dar conta da produção. Os projectos estão aprovados, numa primeira fase começamos no Cuanza Norte e Malanje. Próximo ano vamos estendê-los para o Uíge e Bengo. O sul do país será a última etapa do investimento que virá da Suiça.

Pode a produção do café voltar aos tempos de glória, que assistimos sobretudo nos anos 70?
O combate à fome e à pobreza em qualquer parte do mundo passa por uma forte aposta na agricultura. Na minha opinião, se o Estado não se envolver nesta luta de revitalização da produção do café, apoiando os cefeicultores e criando políticas de incentivos, não vamos chegar aos níveis que estão muitos países africanos. Temos que fazer com que as pessoas olhem para o campo como alternativa de vida. O período marcado por instabilidade política e êxodo rural, o abandono das antigas fazendas e a inoperância de parte das infra-estruturas afectas ao sector do café continuam a preocupar os produtores no activo, mesmo a julgar pela baixa de produção que se vem registando desde os anos 80. Também precisamos reverter esse quadro à curto-prazo.

Quais são as grande marcas de que nos possamos orgulhar, que mesmo apesar das dificuldades fazem o seu trabalho?
Temos muitas boas marcas, como o café Cabela, Cazengo, Delta de Angola, Ginga, Café de Angola, Bel, calulo, Palanca, Bela Negra, Lili, Cafangol e Mokamba. Deve aqui também fazer referência à Angonabeiro que tem estado a fazer um excelente trabalho. Nós também a nível da Novo Procafé temos algumas marcas já a ser produzidas e comercializadas. Os cafeicultores são verdadeiros resistentes e amantes do café, porque do jeito que estão as condições do mercado, muitos já nem existiriam, tendo em conta que o tempo de maturação do café é longo, de cinco anos e a banca nem sempre tem a panciência de esperar. A situação desta importante actividade económica é muito péssima.

Produção e comercialização é o nosso ponto fraco

A actual produção de café no país, estimada em 12 mil toneladas, é assegurada por cerca de 50 mil produtores, dos quais 98 porcento praticam a agricultura familiar e de subsistência. A extensão de Angola e os diferentes ambientes edafo-climáticos existentes propiciam a produção de café comercial do tipo robusta e arábica, hoje muito aquém dos seus níveis ideais.

E como anda a questão da comercialização do café no país?
Temos que assumir que nós, angolanos, não consumimos café, deixou de fazer parte da nossa dieta alimentar. No Brasil, por exemplo, as crianças na escola, na sua merenda escolar, existe o café com leite, o que ajuda a absorver parte da produção interna. Isto não acontece em Angola. Nós temos também o problema do preço, que não é relativamente fixo. Ele pode estar a 50, 250, 450 e às vezes chega mesmo aos 600 kwanzas o quilo, o que não garante lucro para quem queira comprar para vender lá fora, uma vez que o café é um produto de Bolsa. Estamos mal também neste sentido. A comercialização do café é uma actividade que requer meios de transporte, consições de escoamento, sacos de juta, que ainda é feita no país com muitos constrangimentos.

E no que toca a produção propriamente dita, uma vez que disse que não há quase actividade no país?
Este ano, era importante superarmos as safras de três mil toneladas e 216 quilos de café, que são os dados que dominamos. Para mantermos alguma esperança de mudança, era preciso, este ano, mais de 152 milhões e 350 mil kwanzas para a província do Uíge, 30 milhões e 702 para o Cuanza Norte e quatro milhões e 400 para Cuanza Sul de apoio aos agricultores, só para citar esses casos, mas na verdade nem isso será possível, acredito.