As economias africanas, de um modo geral, e a angolana, em particular, são caracterizadas, nos últimos tempos, pela existência de um alto índice de actividades informais, o que muitas vezes perigam a acção regulada das entidades oficiais.

Consideradas como meios alternativos de sobrevivências de inúmeras famílias, a actividade dos agentes económicos informais, confundidos como que se de empreendedores se tratassem, geram lucros pessoais, mas prejudicam a organização dos mercados, pois elas não são contributivas aos cofres do Estado por via de impostos.

Medidas restritivas
Com a descida acentuada do preço do petróleo no mercado internacional, a entrada de menos divisas em Angola levou a que o Executivo, através do Banco Nacional de Angola (BNA), tomasse uma série de medidas restritivas, que vão da saída de cambiais para o estrangeiro ao comércio livre nos bancos comerciais desta moeda externa, mas de curso legal em todo o território nacional.

A reportagem do JE saiu às ruas de Luanda para medir às quantas anda o negócio das kinguilas, pessoas que se dedicam a venda informal do dólar.

Nos últimos meses, as pressões exercidas sobre a moeda americana, tendo em conta a forte ligação das actividades informais com a aquisição de bens e serviços no exterior, cresceram significativamente.

Analistas de mercado avançam que a moeda americana subiu quase 40 por cento face a nacional, tendo, recentemente, ultrapassado a barreira dos 110 kwanzas/por cada um dólar.

Segundo consta de comunicados anteriores do Banco Nacional de Angola (BNA), a compra da moeda estrangeira que já esteve cifrada em 109 kwanzas atingiu os 116 na semana anterior. Neste momento, por cada dólar cobra-se 117.

Com isso, desde Fevereiro, altura em que começou a se observar a escalada da moeda estrangeira, no câmbio oficial, o dólar não ultrapassara o limite de 110 kwanzas. Neste momento, em Luanda a compra de divisa do mercado informal varia entre os 18 e os 20 mil kwanzas, enquanto que o mercado formal não tem à disposição dos clientes, na maioria das vezes, notas à venda seja quais forem os motivos da procura.

Reacções do mercado
A falta de dólares norte-americanos no mercado está obrigar os clientes a prescindirem de efectuar transacções comerciais que envolvam a moeda estrangeira. Essa é uma realidade que leva aos cambistas informais a verem o seu trabalho em risco.

Segundo apurou a nossa reportagem, as kinguilas que exercem esta actividade em Luanda vêem-se em apuros, porque está cada vez mais difícil encontrar dólares. Não aparecem clientes tanto para vender como para comprar.

Maria de Lourdes, por exemplo, é uma kinguila que actua nas imediações do distrito da Ingombota. Disse que só sai de casa para ir trabalhar por causa dos empréstimos que faz, o vulgo “kilapi”, do qual obtém juros.

“Nós concedemos empréstimos e cobramos cinquenta por cento de juros do valor cedido. Só deste jeito é que conseguimos sobreviver nesses dias”, explica.

Já a dona Guilhermina, kinguila há quase dez anos, disse que só não desiste porque não tem uma formação profissional que lhe permite recorrer a outra ocupação.

“O clima não está nada bom. Minha família sempre viveu, normalmente, do meu trabalho e, neste momento, estamos a passar dificuldades. Sinceramente, não sei o que fazer”, afirmou.

Graciano Manuel, de 28 anos de idade, é cambista ambulante há oito anos e actua nas imediações da Maianga, no centro da cidade. Defende que o Governo tem que fazer alguma coisa para que o kwanza volte a ter peso.

“Infelizmente já não rende nada ser kinguila, mas a par disso é importante que se faça algo para impedir que a nossa moeda nacional seja desvalorizada desse jeito”, argumenta.

Outra cidadã que se dedica a este negócio da moeda é Domingas Manuel, de 47 anos de idade. Casada, com 8 filhos, disse que são poucos os clientes que aparecem para vender, embora outros surgem a pedir dólares para compra. Segundo disse, no tempo “das vacas gordas”, isso há uns meses, chegava a transaccionar mais de cinco mil dólares/dia.

“Aparecem muitos clientes para comprar dólar, mas a moeda é que não aparece a nós e a eles. O dólar está alto e não se consegue comprar”, desabafa.

Já Natércia Nascimento, kinguila nas imediações do Prenda distrito urbano da Maianga, esse é um negócio que está prestes a se extinguir, caso o dólar continue escasso.

“Estamos quase a desistir no nosso trabalho. Às vezes saímos de casa e não vendemos nem compramos um dólar sequer”, lamentou.

BNA dá resposta
O recente acordo de conversão monetária com a Namíbia, que vai permitir que cidadãos angolanos saiam para este país com até 500 mil kwanzas, para adultos, e 150 mil, para os menores, convertíveis na região fronteiriça de Santa Clara, é uma resposta para a diminuição da procura de dólares norte-americanos. Vários segmentos do mercado cogitam que tal experiência pode estender-se para as trocas com a China, tendo em conta as crescentes trocas comerciais entre os países, seja pelos Governos, seja pelos particulares.

Embora ainda se mantenham as rígidas regras de acesso aos cambiais, o Banco Nacional de Angola (BNA) deu, na semana de 1 a 6, resposta às reclamações. No período em evidência vendeu divisas no montante de 936 milhões de dólares. O volume de venda de divisas da semana em análise foi superior ao da semana precedente, em cerca de 134 por cento. A taxa de câmbio média de referência de venda do mercado cambial interbancário, apurada ao final da semana foi de 117,473 kwanzas/dólar.

Para a gestão corrente do Tesouro Nacional, o Banco Nacional de Angola, enquanto operador do Estado, colocou no mercado primário Títulos do Tesouro no montante de 11,3 mil milhões de kwanzas, sendo 8,1 mil milhões em Bilhetes do Tesouro (BT) e 3,2 mil milhões em
Obrigações do Tesouro (OT).

As OT emitidas foram nas maturidades 2, 3, 4 e 5 anos, e taxas de juro respectivas de 7,0; 7,25; 7,50 e 7,77 por cento ao ano. A taxa de juro média apurada para os BT foi de 3,49;4,44; 5,03 e 7,03 por cento ao ano para as maturidades de 63, 91, 182 e 364 dias, com variação de 0,02; 0,02; 0,02 e 0,03 pontos percentuais (pp) nas maturidades de 63, 91, 182 e 364 dias, face à semana anterior.

Venda de títulos
No segmento de venda directa de títulos ao público foi colocado o montante de 548,1 milhões de kwanzas, sendo 127,7 milhões em BT, nas maturidades de 63, 91, 182 e 364 dias e taxas médias de juro de 3,47; 4,42; 4,94 e 7,0 por cento ao ano, apuradas nas sessões da emissão respectivas. 420,3 milhões em OTMN/TXC na maturidade de 2, 3 e 5 anos, a taxas de 7,00; 7,25 e 7,77 por cento ao ano.

No mercado interbancário os bancos realizaram entre si cedências de liquidez overnight, sem garantia de títulos, no montante acumulado de 109,1 mil milhões de kwanzas, volume superior em cerca de 40,23 por cento ao da semana anterior, de 77,8 mil milhões. O volume médio diário de transacções na semana em análise foi de 21,8 mil milhões.

Luibor
A Luibor overnight (1 dia) apurada no último dia da semana, com base nas cedências de liquidez acima referidas, situou-se em 6,25 por cento ao ano, mantendo-se constante à taxa da semana anterior. A Luibor para as maturidades de 30, 90, 180, 270 e 360 dias situou-se em 7,76; 8,39; 8,98; 9,50 e 10,00 por cento ao ano, registando variações de -0,02 pp face à semana anterior, nas maturidades de 30 e 180 dias.

O BNA, junto dos bancos comerciais, mantém a orientação expressa de se previlegiar a oferta de cambiais nas operações com o exterior de que se não pode prescindir. Doutro modo, incentivam-se outras formas de troca, como é o caso da utilização de cartões de pagamentos.