Depois de três anos seguidos de inflação de um dígito (2012, 2013 e 2014), sustentada pelo preço do barril do petróleo em alta no mercado internacional, eis que o país mergulhou numa profunda e persistente crise económica, a partir de meados de 2014.
O economista e bancário Jorge Leão Peres entende que o considerado “período de ouro” da economia angolana (2012 a 2014), infelizmente foi mal aproveitado para se promover a tão propalada diversificação da economia.
Segundo o economista, quando o preço do barril do petróleo caiu ladeira abaixo em meados de 2014, pese embora a ligeira recuperação a partir de meados de 2017, que ainda assim representava a metade do preço observado em Junho de 2014, que foi de 115 dólares norte-americanos o barril, as coisas começaram a complicar-se para a economia angolana.
“Nos anos seguintes assistiu-se a uma escalada nas taxas de inflação com o pico mais alto atingido em 2016 (42%), a taxa mais alta observada 13 anos depois.O ano de 2017 encerrou com uma inflação acumulada situada em 26%, ligeiramente acima da metade da taxa observada em 2016. Até Agosto de 2018 a inflação estava computada em 10,88% e pelos 4 meses restantes até o final do ano, se observada a anualização dos meses anteriores, situar-se-á acima dos 15%, a meta prevista”, disse.
Por essa razão, Leão Peres, que é também docente universitário entende que, mais do que a redução da taxa de inflação, rumo à estabilidade dos preços, é importante que esta estabilidade promova o crescimento económico, isto é, seja o reflexo do estado real da economia e não apenas o resultado da instrumentalização dos mecanismos de intervenção da política monetária.

Uso das Reservas líquidas
No recente discurso sobre o Estado da Nação, o Presidente da República mostrou-se congratulado com o facto de hoje haver menos recurso às Reservas Internacionais Líquidas (RIL).
Sobre o assunto Leão Peres entende que com a queda do preço do barril do petróleo no mercado internacional as Reservas Internacionais Líquidas (RIL) tiveram de ser sacrificadas e ainda agravada pela manutenção de uma taxa de câmbio sobrevalorizada.
De acordo com o Boletim Estatístico de Março de 2018 do Banco Nacional de Angola, as RIL haviam atingido o seu pico máximo em 2013, contabilizadas em 31 mil milhões de Dólares Norte-americanos.
O bancário entende que a partir daí, por inércia da redução do preço do barril de petróleo, teve início a trajectória descendente das RIL, tendo-se fixado em 27 mil milhões em 2014, 24 mil milhões em 2015, 21 mil milhões em 2016 e 13 mil milhões em 2017.
“Daí podemos inferir que desde o despoletar da crise o país “queimou” 18 mil milhões de Reservas Internacionais,em 4 anos, o que coloca o país num cenário aberto de grande fragilidade em matéria de divisas”, disse.
Para justificar a sua posição, Jorge Leão Peres diz que recorda que a violenta queda das RIL em 2017, que saiu de 21 mil milhões em 2016, para 13 mil milhões em 2017, deveu-se, fundamentalmente, à desastrosa política cambial exercida naquele período, que considerou de delapidação dos recursos cambiais mediante a manutenção de uma taxa de câmbio inalterável durante 21 meses.

Taxa de câmbio
Na posição de académico, Leão Peres explica que quando a taxa de câmbio oficial está sobrevalorizada abre-se, inevitavelmente, espaço para a especulação, esta é a regra básica do mercado cambial. A recente realidade de manutenção da taxa de câmbio inalterável nos 165,9 Kwanzas por Dólar norte-americano durante 21 meses (Abril de 2016 a Dezembro de 2017), quando no mercado informal o Dólar norte-americano galgava velozmente, tendo chegado ao topo dos 500 Kwanzas por Dólar norte-americano, portanto com umdiferencial de 303%, naturalmente, aguçou o apetite dos especuladores com ganhos substanciais de 335 Kwanzas por cada Dólar adquirido no mercado oficial repassado no mercado informal.

Pressão feroz feita à banca
A pressão sobre os bancos foi feroz, com reflexos destrutivos para a economia, já que as divisas eram adquiridas por móbil de especulação (obtenção de ganhos substanciais com as gritantes disparidades das taxas de câmbio entre os dois mercados), em detrimento do móbil de transacções (importação de bens e serviços), e, por conseguinte, a delapidação das reservas cambiais. A taxa de câmbio deve ser reflexo das condições reais do mercado, e a realidade está aí patente, a aproximação das taxas dos dois mercados encerrou as tendências de especulação. Na realidade, a procura por cambiais deve resultar das reais necessidades dos agentes económicos (famílias e empresas), e não apenas por mero aproveitamento especulativo.