Cantada por alguns dos mais renomados artistas da praça angolana, a área da Gajajeira foi, desde a era colonial, um pólo comercial de referência. O quadro não se alterou durante a primeira década após a Independência Nacional. Nos últimos anos, fruto da abertura do mercado, a localidade viu-se invadida por um comércio agressivo e desregrado, que é hoje objecto de combate por parte do Governo de forma a se resgatar a ordem, tranquilidade e legalidade no local.

Constatação no local
Olhares atentos e desconfiados, mochilas e embrulhos controlados e um clima de tensão persistente, são cenários agora vividos no espaço que já se mostrou como um dos maiores pontos de comércio da cidade de Luanda. A mudança de quadro surge da medida do Governo de acabar com o comércio irregular na conhecida zona dos “Armazéns Gajajeira”. As reacções fizeram -se logo sentir, sendo umas contra e outras a favor. A reportagem do JE constatou que a zona apresenta hoje um quadro de maior urbanidade, salubridade e segurança (Na verdade tudo estava mesmo mal no local).
Os comerciantes grossistas, na sua maioria de nacionalidade Chinesa, prosseguem o negócio com a habitual normalidade e muitos regozijam-se com o “novo ar” por se verem livres da desleal concorrência ambulatória. Yu Chen, gerente de uma loja de vestuário, louva a iniciativa do Governo e diz estar feliz pela higienização que a operação está a garantir. “ Estou a gostar e acho que assim está bom. O Governo está a trabalhar muito bem” disse.
O corre corre habitual dos ambulantes, deu lugar ao patrulhamento da Polícia Nacional, com recurso a todos meios disponíveis, sempre respeitando a dignidade humana, mesmo daqueles cidadãos que teimam em não acatar as orientações do Governo e deambulam pelas ruas apregoando a venda de toda natureza de produtos.

Comerciantes reagem
Berta de Oliveira é moradora e comerciante no local há quase 25 anos. Hoje lamenta a iniciativa, principalmente pela época em que é implementada. Para ela, o Executivo devia primeiro criar condições, para que pudessem ser transferidas e desenvolverem a sua actividade em local seguro e acessível.
“ O administrador disse que nos deu lugar no Mercado da ´Chapada', mas está a mentir. Lá não tem lugar para nós”, desabafou.
A “ Gajajeira”era a garantia de sustento de muitas famílias. Não importava o produto nem a origem e a forma de comercialização: O que interessava era mesmo o dinheiro para levar “lume ao fogão”.
Hoje, removidos do seu posto, os vendedores apelam para um período de graça neste mês de Dezembro, para que se possam organizar e ganhar algum dinheiro para fazer face às habituais despesas do final de um ano e principio de outro.
´´ Nós queremos que o Governo nos deixe vender neste mês de Dezembro, porque temos muitas despesas para pagar. Propinas, material escolar, comida e ainda a kixiquila'' desabafou dona Adelaide Jaime.
A operação é justificada com a necessidade de se repor a autoridade do Estado e conferir dignidade ao local. Banir a delinquência, o comércio desordenado e ilegal, o difícil acesso de viaturas e os problemas graves de higiene, constam das intenções.
A moradora Carla Marisa diz-se satisfeita com os resultados conseguidos até agora com a “Operação Resgate”. Para ela, a implantação do mercado trouxe consequências muito danosas para a saúde humana. Ratos e toda uma gama de bichos invadiram o local por conta das várias mercadorias armazenadas sem obediência a qualquer tipo de norma. “ A venda aqui estava a criar muitos males como a delinquência, comércio de droga e alguns casos de prostituição “, acrescentou.

Mercado da Chapada
A reportagem do JE rumou em seguida para o “ Mercado da Chapada “ e aferir a existência ou não de lugares para acolher os vendedores. O espaço, com dimensões bastante reduzidas, tem capacidade para acolher cerca de duzentos vendedores, segundo palavras da sua administradora, Ludovina Júlio Afonso.´´Neste momento temos o mercado completamente lotado. Recebemos e acomodamos 120 vendedoras que vieram do ´Arreou' na Gajajeira'' adiantou. Apinhadas, as comerciantes reclamam da falta de clientes e apelam as autoridades no sentido de se retirar a totalidade dos vendedores na “Gajajeira”. ´´Estamos aqui, mas as outras continuam a vender no Arreou. A polícia tem que ver isso. É preciso controlar as manobras dos chineses '', rematou uma das vendedoras descontentes. Junto da administradora do mercado, o JE apurou que cidadãos chineses terão contactado vendedoras para continuarem a fazer o comércio de forma camuflada, à porta dos seus estabelecimentos como forma de rapidamente escoar os produtos armazenados. “ As vendedoras ficam aqui até as 11 horas e depois vão outra vez vender no Arreou. Foram corrompidas por chineses que vieram aqui no mercado” disse a administradora.
Os resultados da operação têm merecido elogios da população, mas apela-se apenas ao controlo dos excessos por parte dos agentes escalados para as diversas tarefas.