A afluência de pessoas à procura de peixe nos mercados do município de Cacuaco e no distrito urbano da Samba, em Luanda, mostram sem dúvidas que o pescado é dos alimentos mais consumidos na capital angolana.
Há um aglomerado de gente nos dois locais. Uns a descarregar, comprar, escamar e a vender o produto conseguido por centenas de pescadores que durante três ou quatro dias fizeram-se ao mar galgando
acima de 50 milhas.
Nem sempre os resultados são os esperados... Como diz o velho ditado “quem vai pescar também pode ser pescado”. A época do ano e a sorte ditam o ganho ou o revés. Dizem os marinheiros
das pequenas embarcações.
Paulo Morgado e António Maleira, dois marinheiros parados ao lado da pequena embarcação com mantimentos, medicamentos de socorro estão disponíveis. São 12 horas e 30 minutos, o embarque está marcado para às 13 h00. Uma proeza conseguida fruto das novas medidas para regular a actividade da pesca em Angola.
“Antes era impensável sair a esta hora, havia muita desorganização, agora aqueles que não fizeram o licenciamento não pescam. Gostamos da medida”, disse Paulo Morgado. A medida é apoiada por todos os agentes envolvidos na actividade.
Na zona de venda de peixe em Cacuaco uma dezena de pequenas embarcações são invadidas pelos compradores. Igual número está encostada por não ter recorrido ao novo processo de licenciamento, levado a cabo pela fiscalização marítima. As quantidades capturadas de peixe para o consumo baixaram e os preços subiram.

Carapau escasso
O peixe carapau é uma raridade. Nota-se mais a Lambula, Cachucho, Pungo e a Garoupa. No local há um mau cheiro. Amontoado de lixo, as vísceras são atiradas ao mar e posteriormente as ondas trazem de volta à costa.
A água usada para lavar o pescado é “turva”, é de longe imprópria para lavar um alimento para conssumir.
Duas irmãs Maria e Celestina Capita fazem desta actividade o seu ganha-pão. Parece que a sanidade pouco importa aos compradores e vendedores. Sentadas, escamam e salgam o produto. Depois uma delas leva à localidade do Kibaxe, na província do Bengo, terra natal, onde fazem a revenda. Compram seis peixes ao preço de 300 kwanzas, o escalado vendem dois a 200 kwanzas.
“Vamos vender o peixe que salgamos no Kibaxi”, conta. Ao lado está o jovem Afonso Canibue, roboteiro, que se encarrega de transportar até à beira da estrada e recebe uma quantia de 500 kwanzas.
Com o pouco que ganha, sustenta a família e os estudos dos pequenos. Oriundo de Benguela, o que sobra manda para a família, à terra natal.
À escassos metros, está o Albano Américo, deficiente dos membros superiores. Está sentado numa motorizada de três rodas que chamam de “Caleluia”, carregada de pescado de três clientes. “Por cada carregamento de peixe recebo a quantia de 3. 500 kwanzas”.
Ao lado da moto está Joana Cândida. Tem na venda do peixe, o seu sustento. Por cinco peixes “kimbumbu”, o interessado paga 2.500 kwanzas, contra metade que anteriormente cobrava.
O preço da venda do peixe no mercado da Samba é o mesmo, a diferença reside nas condições sanitárias. Há limpeza todos os dias nota-se uma organização entre os vendedores.
“Ngana Weza” é o nome de um dos funcionários do mercado. Conta que há uma obrigatoriedade em “manter o local limpo”. Mas, salta à vista uma bacia cheia de peixe “miúdo” carregada
numa pequena embarcação.
A curiosidade causa-nos espanto. O que vão fazer com aquele peixe pequeno? “serve de isca para atrair o peixe
no alto mar” disse um jovem.

Pesca ilegal
De repente um dos marinheiros detalha que no alto mar há embarcações estrangeiras.
“Levam tudo, não deixam nem sequer os ovos. A fiscalização parece que não chega lá”, conta o pescador identificado por Marquito. Com um balde de combustível de 20 litros na mão, o jovem está pronto para uma nova empreitada. Tem a licença renovada e “tudo em dia”. Vai fazer-se ao mar às 16h00. “Desde que se tomaram as novas medidas, cada um organiza-se e sai à hora que lhe convier”, avança.

“Operação Transparência”
Dados disponíveis revelam que 16 embarcações de pequeno porte e semi-industriais, das mais de 38 interpeladas pela fiscalização, foram apreendidas na costa marítima angolana durante os primeiros 15 dias da “Operação Transparência” no mar, lançada a 25 de Março deste ano.
As embarcações estavam carregadas de peixe. A “Operação Transparência” abarcou quatro zonas de actuação, nomeadamente a zona A, que compreende as regiões de Cabinda e Soyo; B (Nzeto, Luanda e Cabo Ledo); C(Porto-Amboim, Lobito, Baía Farta e Lucira) e D (Moçâmedes, Tômbwa e Baía dos Tigres).
Destas 16 embarcações (sete semi-industriais e nove de pequeno porte), seis dedicavam se à pesca pelágica e tinham a bordo 15.850 quilos de marisco, 530 quilogramas de pescado diverso.
A operação no mar, que também serve para unir as acções dos Departamentos Ministeriais das Pescas, do Ambiente bem como do Interior tem como pano de fundo garantir a segurança nacional e ambiental, estabelecer um bom ambiente comercial, além
de proteger a fauna marítima.
Segundo dados da FAO, o consumo de peixe em África tem estado a subir, sendo 8,3 quilos por habitante por ano.
O continente consome menos peixe, em comparação às quantidades recomendadas, estimadas em 14 quilos por ano, segundo os nutricionistas.
Consta que Angola, considera o sector das Pescas e do Mar como sendo importante para o desenvolvimento económico e social.
Esta realidade pode ser contrariada por causa dos recursos marítimos que têm estado a ser explorados sem limite, aliada a pressão sobre os ecossistemas que aos poucos começam a dar sinais preocupantes de extinção.