A produção musical no país decaiu significativamente tendo em conta a crise económica e financeira. A falta de liquidez, a escassez de divisas contribuiu para a falta de produção discográfica, fazendo com que os cantores gravem menos. A constatação é também do músico e produtor, Caló Pascoal, em entrevista ao JE. Nesta conversa, o também proprietário da “Quebra Galho Produções” lamenta ainda o facto de, até hoje, o país não ter uma única fábrica de produção de discos.

Qual é exactamente a função de um produtor musical?
O produtor musical é alguém mais experiente, que acompanha todo o processo de criação de uma música ou de um disco. Está presente desde as sessões de ensaio com os artistas até à gravação do disco. É a pessoa que os orienta, acompanha e faz toda a gravação e ainda garante o sucesso da mistura e da masterização do tema ou álbum, além de poder supervisionar ou executar as mesmas. O produtor desempenha um papel fundamental na finalização das músicas, como sendo o elemento os arranjos, escolhe as harmonias e procura encontrar as soluções mais atraentes.

Como é que avalia a produção musical neste momento em Angola?
A produção musical no país decaiu muito tendo em conta a crise económica e financeira. A falta de liquidez, a escassez de divisas contribuiu para a falta de produção discográfica, fazendo com que os cantores gravem menos músicas. Ainda assim e como sempre, alguns produtores têm feito produções musicais, com base no valor monetário disponível a que solicita.

O que falta no nosso mercado?
A música é, salvo opinião contraria, a expressão artística mais presente no dia-a-dia das sociedades, ela é consumida por diferentes faixas etárias. É preciso percebermos também que a indústria da música não está restrita somente ao grande mercado, ao enorme sucesso, ao sucesso do cantor, é alargada. Há igualmente milhares de micro-mercados de pequenos sucessos e de artistas satélites em Angola. A sociedade precisa encarar que as oportunidades de negócio são para todos, da multinacional ao músico sem produtora. Por isso, a falta a tão desejada indústria musical e organização cultural
de todos os intervenientes.

O aumento de investidores e de produtoras nacionais influenciou de alguma forma a melhoria da qualidade musical?
Realmente, o aumento de produtoras veio influenciar a melhoria da qualidade musical no geral. Quanto ao aumento de investidores, ainda não temos como tal. O que assistimos, nos últimos anos, foi uma ou outra individualidade que estendeu as mãos a determinados cantores. Por isso, falar em aumento seria afirmar que temos investidores e que neste momento aumentou, isso não é verdade. Ainda há um grande défice neste sentido.

Numa recente entrevista disse que “os bancos têm que se abrir mais ao crédito às produtoras”. O que tem falhado nessa relação?
Tudo, desde a confiança, a abertura, oportunidades e bom senso por parte das instituições
bancárias nacionais.

Sente que existe no país vontade na criação de uma verdadeira indústria musical?
Por parte dos artistas existe, mas por parte do Executivo não consigo sentir que haja essa vontade. Por isso, até hoje não temos uma fábrica de discos no país. Talvez haja futuramente,
mas agora não sinto isso.

Alguns afirmam que produzir um disco, por exemplo, pode custar mais de 200 mil dólares. Concorda com essa avaliação?
Claro que pode, dependendo do interesse do cantor, porque este valor inclui estúdios, músicos executantes, desenho gráfico, custos de hotel, caso haja neste processo deslocações ao exterior do país.


Mas pode avançar em quanto estará avaliado o disco da Tamara Nzaji que faz parte da sua produtora?
Neste momento é a nossa prioridade e pensamos que poderá custar à volta de oito milhões de kwanzas, incluindo três mil cópias
de discos a serem produzidos.

Mas produzir música nos tempos actuais já rende algum dinheiro?
Claro que rende, mas tudo depende muito de cada produtor e do produto requerido pelo cliente. É possível viver de música, mas também existem as suas dificuldades. Existem muitas oportunidades de negócio, sobretudo para quem deseja empreender no ramo musical. Mas, como em toda actividade económica, existem também os riscos e as adversidades.

Quem deve pagar a produção musical na relação entre o artista e a produtora?
Depende do contrato firmado com cada produtora. Por exemplo, na “Quebra Galho” é relativo, algumas vezes é a produtora e outras vezes é o cantor. Mas hoje, é comum o artista pagar os custos do álbum. A produtora se encarrega apenas pela prestação de serviço.

Os produtores muitas vezes queixam-se que os lucros são pequenos e que os artistas só sobrevivem, porque existe solidariedade entre eles. É verdade isso?
Por essa razão é que actualmente o cantor deve custear as despesas do álbum, porque anteriormente as produtoras gastavam muito e na maior parte das vezes saíram a perder.

Qual a percentagem que a produtora encaixa com o lançamento de um disco?
Na verdade, não há uma percentagem exacta, depende sempre do acordo celebrado entre as partes.

Sucessos produzidos

Caló Pascoal como produtor teve grandes sucessos, tais como “Estamos sempre a subir”, de Virgílio Fire, “Fofucho”, “Kakixaca” e “Kalumba Celeta” de Bangão, “Kátia”, “Também me amavas” e “Engano”, de  Konde, “Teu grande amor”, de Ary, “Porquê”, de Matias Damásio, “Garan”, de Lulas da Paixão, “Celebrando el dia”, de Tamara Nzage e entre outros.