O comércio de peixe em Luanda regista nos últimos tempos subidas graduais nos preços do produto. O facto tem levantado preocupações quer dos agentes directamente envolvidos no negócio quer dos clientes que vêm o seu poder de compra reduzido e cada vez menos peixe à mesa.
A reportagem do JE saiu à rua para in-loco aferir a real situação. O mercado do Asa Branca, no município do Cazenga, em Luanda, foi o nosso porto de atracagem.
O local acolhe diariamente centenas de vendedores que logo pelas primeiras horas da manhã lançam mãos-a-obra na busca  do “pão nosso de cada dia”.
Dezenas de viaturas adaptadas ao transporte e conservação do pescado, um sem número de malas de peixe empilhadas em paletes e um movimento frenético de pessoas  configuram o cenário do local.
O pescado, tal como constatado é proveniente de embarcações pertencentes dos vários armadores em actividade.
As espécies são variadas, destacando-se o carapau, pescada, caxuxu, corvina, espada e sardinha. Os preços por caixa variam de acordo com a espécie e tamanho da caixa.
Outro factor de variação do preço é a quantidade de produto disponível e a afluência de quem queira comprar.

Aquisição

Severina Lourenço dedica-se a venda de peixe à grosso, como forma de ajudar a mãe que é a verdadeira proprietária.
Todos os dias monta bancada no mercado e esmera-se para conquistar a preferência da clientela que segundo nos disse, vai escasseando em função das subidas constantes nos preços, da falta de dinheiro em circulação ao que se junta uma grande quantidade de peixe fresco (da moraia)disponível nos últimos dias.
Nos períodos de intensa actividade comercial, Severina chega a vender 50 caixas de carapau fino à razão de 11 mil kwanzas e catorze mil a da mesma espécie em tamanho maior.
O negócio não se mostra fácil devido a grande quantidade de vendedores no mercado. Outra razão para as preocupações é a delinquência registada que se traduz nos constantes assaltos por altura do fecho diário.
Os amigos do “alheio” apropriam-se sem “dó nem piedade” das receitas diárias conseguidas a custo de muito esforço.
Vendedoras que não quiseram gravar entrevista, afirmaram a nossa reportagem que o negócio já conheceu dias melhores, chegando a uma facturação diária na ordem das 200 caixas de carapau, a espécie com maior saída.
De forma unânime, reclamam dos altos preços praticados pelos armadores, que dificultam a sua actividade de revenda e desincentivam a compra
por parte dos clientes.
No mercado, a venda a retalho também tem espaço para atender os clientes que munidos de menos recursos procedem a compra em quantidades menores. A ala, bastante animada, é maioritariamente ocupada por mulheres em idade ainda jovem, que imprimem uma dinâmica diferente ao negócio.
As espécies estão presentes em maior variedade o que garante um certo “colorido” ao espaço. Aqui, os preços são igualmente definidos pelo valor da compra aos grossistas, sendo que um monte de carapau composto por quatro unidades chega a custar dois mil kwanazas.
Lemba Sebastião Alberto é outra jovem vendedora do mercado. Comerciante há 10 anos, Lemba vende uma grande variedade de espécies adquiridas no mesmo mercado.
Segundo nos disse, os dias não são iguais, sendo que algumas vezes têm lucros e outras não. “Quando temos ganho nos contentamos, quando não temos nos conformamos porque já estamos habituadas”,desabafou.
A caixa de pescada que adquire a 12 mil kwanzas, pode proporcionar-lhe lucros na ordem de dois ou três mil. A sardinha representa a espécie com menor custo de aquisição, chegando a caixa a ser comprada ao valor de quatro mil kwanzas mas com a particularidade de maior venda aos finais de semana.

Empregos conexos

No mercado, a nossa reportagem detectou a existência de outros ofícios complementares a actividade de venda do pescado.
Os trabalhadores braçais, vulgo roboteiros, marcam presença e auxiliam as comerciantes no transporte, carga e descarga do pescado.
Mariano Changalala é prova disso. Nas primeiras horas da manhã de todos os dias chega ao mercado e dedica-se ao ofício com o maior dos seus esforços.
vendedoras e clientes individuais recorrem aos seus serviços que se prolongam até ao encerrar do mercado, o que lhe garante uma facturação média diária de dois mil kwanzas, que são em seguida investidos em alimentação, vestuário e renda da casa em que habita.
“O trabalho não é fácil mas estou a me habituar porque estou aqui faz pouco tempo”, contou.