No quadro da estratégia do Executivo angolano em diversificar a economia, a principal atenção de momento vai no sentido de promover-se a produção agrícola familiar, não só numa perspectiva de subsistência, mas sobretudo de mercado, para incrementar o nível dos rendimentos do campo e garantir, assim, uma maior oferta de produtos. Em entrevista concedida ao Jornal de Economia & Finanças, a vice-governadora do Bié para o sector Económico, Deolinda Belvinda Gonçalves, descreveu aquilo que traduz o plano do governo local para a diversificação da economia nacional. Nesse sentido, disse que se teve sempre como visão estratégica que após o conflito armado, em que a província foi grandemente afectada, o seu desenvolvimento passaria pela potenciação da cadeia de valores virada para a fileira produtiva da agro-indústria e alimentação.

Senhora vice-governadora no quadro da estratégia de diversificação económica, o que o Bié pode, efectivamente, oferecer em termos de promoção da produção nacional?
A província do Bié sempre teve como visão estratégica que, após o fim do conflito armado, em que foi significativamente afectada, o seu desenvolvimento teria que passar pela potenciação de toda a cadeia de valores que compreende a fileira produtiva da agro-
-indústria e alimentação. Para que pudéssemos consagrar toda a nossa capacidade e recursos na estruturação e dinamização deste “cluster”, temos vindo a dar um tratamento prioritário a um conjunto de situações que são correlatas com esse desiderato, como é o caso da desminagem, recuperação de infra-estruturas básicas e sobretudo no atendimento das necessidades básicas das famílias camponesas, que ainda se debatem com aspectos fundamentais relativos à sua subsistência.

Que avaliação faz do relançamento da produção nacional na província, que está assente fundamentalmente no seu potencial agrícola?
É de elementar justiça perceber e ter presente que a província do Bié há cerca de 12 anos estava significativamente destruída pela guerra e a sua população fortemente traumatizada e economicamente desenquadrada em situação de extrema pobreza, pelo que, à partida, desta martirizada região para a batalha do relançamento da produção nacional, assente no potencial agrícola, se impunha uma estratégia específica e que exigisse sobretudo a disponibilização de recursos condizentes com os programas e projectos que estão definidos.

Nesse caso, que estratégia o Governo do Bié tem em carteira para que, internamente, se possa acudir as consequências que resultam face à queda do preço do petróleo no mercado internacional?
Independente das reduções verificadas nas dotações orçamentais para a província fazer face às suas despesas com os investimentos públicos, a nossa atenção e prioridade vão no sentido de garantir a continuidade dos programas de combate à fome e à pobreza. Isso numa perspectiva da melhoria de desenvolvimento humano, particularmente das famílias que vivem no meio rural.

Em que aspecto assenta, essencialmente, a atenção do Governo do Bié?
A nossa principal atenção vai no sentido de promover-se a produção agrícola familiar, não só numa perspectiva de subsistência, mas sobretudo de mercado, de forma a incrementar o nível dos rendimentos dos produtores agrícolas e garantir, assim, uma maior oferta de produtos nacionais. Nós acreditamos que, mesmo na actual situação de redução das dotações financeiras, vamos continuar a proporcionar o crescimento económico e o desenvolvimento humano, por via de uma melhor qualidade da despesa pública e da mobilização de investimento privado.

Como vai desencadear-se a gestão para essa finalidade?
Vamos fazer uma gestão por objectivos, monitorando com rigor cada unidade orçamental e organismo dependente, quer em termos de contratação da despesa, quer na forma como ela se traduz em serviço público a contento dos interesses do cidadão.

A agricultura parece ser uma das grandes alternativas da governação no Bié. Como está o sector e quais são os grandes investimentos?
A importância da agricultura no combate à fome e à pobreza é determinante se atendermos ao número significativo de pessoas que dependem deste sector de actividade e do impacto da quantidade e diversidade da produção agrícola no fornecimento de alimentos e meios de subsistência. O desfasamento entre o elevado potencial agrícola e o efectivo desempenho económico é a questão que urge ultrapassar, através de uma estratégica que sirva os interesses da província e se insira nas políticas estratégicas nacionais, tal como estão consagradas no programa nacional de desenvolvimento (PND) para o quadriénio 2013-2017.

Nesse caso salta à vista o facto de a população da província ser maioritariamente camponesa?
De facto, a estratégica de desenvolvimento da província do Bié tem em conta o facto da ocupação da maioria da sua população na agricultura, a baixa produtividade no sector agrário, a persistência do fenómeno do êxodo rural e assenta no pressuposto de que existe uma infra-estrutura razoável de drenagem da produção agrícola. Nestas condições, a primeira preocupação dos nossos programas é o aumento dos rendimentos das famílias que actualmente são extremamente baixos e uma maior oferta e proximidade dos serviços
sociais básicos.

Que planos existem para dar resposta a essa situação?
Para dar resposta a essa situação será necessário organizar intervenções intensivas no domínio da agricultura para suscitar o aumento das quantidades produzidas, por via do aumento da produtividade por unidade de superfície cultivada e uma forte orientação para o mercado. O contributo da província do Bié nesta preocupação do Executivo materializa-se numa série de medidas preconizadas para o período de 2013 a 2017, nomeadamente o relançamento da actividade agrícola, por via da reabilitação das infra-estruturas produtivas; o aumento da produção através do melhoramento das condições e da assistência técnica prestada aos agricultores; bem como o reforço da sanidade animal e da qualidade da carne produzida, da criação de infra- -estruturas logísticas de armazenagem e escoamento.

O que há a destacar, nesse particular, sobre os investimentos no sector agrícola?
No que tange aos grandes investimentos no sector agrícola, entre outros, temos a destacar a revitalização da produção do arroz. Está a ser implementado, nesse particular, o programa de produção e expansão da produção de arroz nos municípios do Cuito, Chitembo e de Camacupa, respectivamente, numa área total equivalente a 109 hectares semeados e em estado vegetativo.

E sobre a produção e comercialização de mel o que se lhe oferece comentar?
Nesta vertente, existe um grande esforço por parte do Governo e das organizações não-governamentais, especificamente a “People in Need”, que neste período conta já com uma casa de mel instalada no município do Cuemba pela “cooperação checa”, tendo formado, inclusive, uma associação constituída por 48 membros. Outra casa de mel, sob cooperação brasileira em coordenação com a direcção provincial da Promoção da Mulher, será instalada tendo já procedido uma acção de formação. De igual forma, os apicultores do Bié comercializaram 1.760 quilogramas de mel à empresa Coalpa.

Quanto à produção de café, o que lhe apraz dizer?
Resumidamente, devo referir, a esse respeito, que foram produzidas 15.000 mudas; no concernente à comercialização do produto, tem-se dado passos significantes, sobretudo no município do Andulo.

Pode, já agora, descrever a real situação do projecto de investimentos na fazenda Agro-Industrial de Camacupa?
O projecto desta fazenda do município de Camacupa é complexo e concluiu-se com a construção de todas as infra-estruturas, como armazéns, escriturários, residências para o pessoal, silos e outras de apoio ao processo produtivo.

Os programas do Executivo, como o Papagro, estão a corresponder às expectativas para que foram criados a nível da província do Bié?
Só tem coerência política e sustentabilidade económica promover programas de produção agrícola se conseguirmos estruturar e viabilizar toda a sua cadeia de valores que, basicamente, vai desde a melhoria da produtividade dos campos até à colocação dos produtos nas cadeias de distribuição, com a qualidade e competitividade necessárias. O programa de aquisição de produtos agro-pecuários (PAPAGRO) representa um elo crítico dessa cadeia, além de exercer uma preponderante função de estímulo e incentivo na criação de excedentes com os padrões de qualidade e preço que satisfaçam o consumidor e que substituam as importações. Com os constantes refinamentos que têm vindo a ocorrer, onde a sua recente descentralização operacional e financeira vai ter significativos impactos no seu propósito estratégico, que é escoar em tempo útil e nas melhores condições técnicas e económicas a produção agrícola para as cadeias de distribuição. Aqui, no Bié, nós vamos eliminar qualquer “ruído” que ainda persista sobre a eficácia do Papagro.

O “corredor do Lobito” agora em funcionamento é uma alavanca ao desenvolvimento do Bié. O que se pode esperar do mesmo sob o ponto de vista do comércio e outras valências?
Atendendo à importância da mobilidade de pessoas e bens, o sector dos transportes e da logística reveste-se duma importância vital para o desenvolvimento económico e social, tanto numa perspectiva provincial, regional como nacional, razão pela qual a constituição de um “cluster” constitui um factor crítico de sucesso, já que permite a circulação dos produtos sem restrições em termos de volume, origem ou destino. Porém, devemos ter consciência de que a existência de uma rede de transportes, mesmo que com um elevado grau de integração e de abrangência territorial, como é o caso do Caminho-de-Ferro de Benguela, não constitui por si só um suporte, instrumental que permita dinamizar convenientemente as trocas comerciais e a movimentação dos materiais, caso não esteja integrada com circuitos logísticos de suporte, que assegurem a recolha, parqueamento e o armazenamento de mercadorias, independentemente dos seus destinos. É no âmbito deste formato que o “corredor de desenvolvimento do Lobito” vai impactar positivamente também no desenvolvimento da província, já que é expectável que o sector empresarial possa contribuir com a criação do valor acrescentado na agricultura, na indústria, no comércio e nos serviços.

Como os empresários, agricultores e comerciantes de vários segmentos podem ajudar neste momento em que se espera de todos contribuições valorativas para a saída da restrição?
Temos plena consciência de que no momento actual o que faz mover a economia nacional é o consumo público, essencialmente traduzido nas despesas de capital e na aquisição de bens, feitas pelas instituições públicas. O nível de rendimentos das famílias ainda não é suficiente para estimular um consumo privado intensivo que seja mobilizador da actividade económica mormente; já começa a ser significativo o aumento da classe média angolana. A questão crítica que no presente momento se apresenta, face a uma previsão da redução do consumo público, é a geração e manutenção dos postos de trabalho.

Como encara a intervenção dos operadores económicos nessa perspectiva?
É necessário que os operadores económicos analisem a actual situação como transitória, encarem a sua actividade empresarial num horizonte temporal de médio e longo prazo. É imperioso para tal que não adoptem uma postura intempestiva de reduzirem custos de exploração por via de despedimentos de trabalhadores; quiçá, para os empresários mais visionários verem na actual situação de crise oportunidades que possibilitem incrementar negócios, sobretudo no momento em que a grande aposta passa, necessariamente,
pela produção nacional.