Equipa de reportagem pronta. Era 02 de Junho, pela manhã, num sábado friorento. A viagem aérea de Luanda para a zona do Tari, junto à vila de Quibala, estava a ser preparada com esmero.
Primeiro anunciou-se que a viagem teria 40 minutos, rectificou-se para uma hora e 45 minutos, e voltou-se a corrigir pela terceira vez para 30 minutos, o tempo definitivo que levaria do Terminal Doméstico de Luanda até à zona da Quibala. Como soe dizer-se que a terceira foi de vez.
Às 7h30, período de partida, a companhia Air Jet iniciava a viagem, transportando os jornalistas, membros da organização e convidados, indo de Luanda para o destino.
Se fosse de Luanda por via terrestre levaria 7 horas, período idêntico se comparado com o percurso Luanda-Lisboa. O estado das estradas do trajecto retardaria a chegada, pois é pecável, daí que poderiam ser consumidos mais 6h30 para se atingir a Fazenda Santo António, monstro agro-pecuário situado no município da Quibala, na província do Cuanza Sul, a 300 quilómetros de Luanda, com uma extensão de área cultivável de 5.500 hectares, os quais se encontram em desenvolvimento igualmente um projecto agro-industrial. O local foi escolhido este ano para a celebração do Dia Anual do Criador e de Campo, no qual fizeram parte vários governantes compostos essencialmente por governadores de províncias, com destaque para o anfitrião Eusébio de Brito Teixeira (Cuanza Sul), de Malanje Norberto dos Santos, da Huíla, João Marcelino Tyipinge, o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Carlos Alberto Jaime e o secretário para o Sector Produtivo do Gabinete da Presidência da República, Isaac Francisco Maria dos Anjos, entre outras figuras, que prestigiaram com a sua presença o certame. O Dia do Criador é assinalado a 1 de Junho.
Após o acto da praxe, seguiu-se a visita guiada ao espaço agrícola. Fernando Teles, sócio maioritário do projecto, fez as honras da casa. Explicou ao pormenor de como surgiu a ideia e como tem sido a sua experiência no projecto que garante emprego a mais de 200 pessoas, maioritariamente angolanos com previsão de aumentar para cerca de 300 trabalhadores. Grande parte dos técnicos foi recrutado localmente.
O projecto, o qual contou com um financiamento de 40 por cento do Angola Investe inclui a produção agrícola, secagem e armazenagem de cereais, produção de rações, exploração pecuária e produção de fuba. Os investimentos aplicados já consumiram 50 milhões de dólares.
Numa parceria conjunta com a Aldeia Nova (abate, desmancha e embalagem) e a Soipa (comercialização e distribuição), os porcos produzidos na Fazenda Santo António estão a chegar aos diferentes mercados nacionais.
Com a marca “Carnes Natura”, o produto está a ser distribuído aos pontos estratégicos de comercialização. A produção de milho é no panorama integral do Projecto Agro-industrial da Fazenda, uma das actividades de primordial importância e relevo.
Por intermédio de duas culturas anuais, e dispondo de regadio com pivots, a extensão para produção de milho ascende a 3.700 hectares por ano, resultando numa produção de cerca de 36.000 toneladas.
Os destinos do milho produzido na Fazenda são para rações, fuba, silagem para bovinos e a comercialização em grão.
A produção anual de soja, em 150 hectares de regadio, estabelece-se em 600 toneladas, utilizadas para auto-consumo ou aproveitada para a produção de rações. A área aproveitada para a produção de trigo e cevada é, em média, de 150 hectares por ano. A produção ascende as 600 toneladas, utilizadas na produção de rações comercializadas.

100 mil toneladas
de secagem de cereais

O projecto agro-industrial da Fazenda Santo António tem uma capacidade anual de secagem de 100 mil toneladas de cereais e possibilitam armazenar, simultaneamente 10 mil toneladas. A extensão de produção de hortícolas abrange 200 hectares por ano.
O administrador da Fazenda, José Alexandre disse que existem 1.600 hectares de regadio, o qual permite fazer cerca de 3.600 toneladas de milho por ano. No entanto, fez-se a primeira experiência há 4 meses de cultivo de soja, e em Setembro próximo, vão arrancar com 500 hectares, “pois o objectivo é chegar à cevada e ao trigo”. Além da parte da agricultra, a Fazenda tem uma parte industrial que transforma todo o grão proveniente de regadio, e fuba, ração, esse que alimenta os porcos. Neste momento, o espaço possui 400 porcas que produzem 10 mil porcos/ano. Dentro dos próximos dois meses, fecharão o ciclo produzindo 760 porcas, o que vai permitir abastecer para o mercado 20 mil por ano.
Só em importação de matérias-primas (insumo), o projecto consome anualmente 2.2 milhões de dólares norte-americanos.
“Angola está numa fase embrionária da sua agricultura, pois quase tudo se importa, inclusive os insumos para assegurar a produção”, reafirmou José Alexandre, para quem deve haver incentivos em toda a cadeia para que a produção facilite a meta da auto-suficiência alimentar. 

Stockagem assegurada 

A Fazenda Santo António (Quibala) tem uma capacidade de estocagem de 10 mil toneladas em dois ciclos. “Temos neste momento, o nosso armazém cheio porque Angola, infelizmente, está a importar grande quantidade de fuba de milho, e impede com que nós e outras províncias, como por exemplo a de Malanje, tenham muitas dificuldades em escoar em grão”, reclamou o administrador do projecto, José Alexandre. Apelou à necessidade de uma  independência alimentar no país. A meta, este ano, é atingir entre 2.5 e três toneladas por hectare de soja e 9 ou 10 de milho por hectare. O Governo angolano quer um preço mínimo para a venda do milho e soja, para incentivar a produção de gado no país, segundo o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Carlos Alberto Jaime.

Avicultora da funda dá grito 
de socorro às autoridades

O Governo angolano pretende garantir as necessidades internas de carne e pensar nas exportações, assumindo para tal a necessidade de apoiar os fazendeiros nacionais, sobretudo o milho e a soja, que representam os principais produtos para a produção animal. A ideia é estabelecer um preço mínimo de referência dos produtos e depois o financiamento interno, com a subvenção de alguns itens, principalmente os combustíveis, e os fertilizantes, que são os itens que pesam mais na cadeia de produção. Essa garantia foi dada pelo secretário de Estado da Agricultura e Pecuária Carlos Alberto Jaime Pinto, no decorrer da visita à Fazenda Santo António, no município da Quibala. As palavras do dirigente cairam bem à agricultora Elisa José Manuel, da Grande Avícola da Funda (Cacuaco-Luanda).
Para ela, o Governo deve ajudar os produtores a encontrarem soluções com vista à obtenção de divisas. A escassez da moeda estrangeira tem contribuído para a baixa da produção.
Em termos de matéria-prima disse que depende do nível de necessidade de importação. Neste momento, a empresa precisa de pintos, cuja solicitação de 50 mil dólares está pendente num banco comercial. Em média, a sua firma tem aplicado 30 mil dólares em matéria-prima.
A sua cooperativa faz a criação de 5 mil galinhas, resultando em 4.800 ovos/dia, prevendo lançar outro desafio ainda este ano no projecto Quiminha (Bengo) com a produção de 40 mil aves. O volume de investimento vai até 500 mil dólares. A Grande Avícola da Funda beneficou de um crédito no âmbito do Angola Investe.