A ausência de recursos financeiros na Sociedade de Desenvolvimento da Matala (SODEMAT), há sensivelmente cinco anos, está a embaraçar sobremaneira a assistência técnica e mecanizada aos pequenos e grandes agricultores que exploram enormes campos de cultivo do perímetro irrigado.
A situação afectou inclusive os 96 trabalhadores, entre engenheiros agrónomos, de equipamento mecanizado, de câmaras frigoríficas, tratamento e selecção de produtos do campo, pessoal administrativo, que se encontram há 52 meses com salários em atraso, incluindo subsídios de natal e férias.
Até ao momento, confirmou o presidente do Conselho de Administração da SODEMAT, Cipriano Ndulumba, não há garantias de solucionar a situação, facto que tem implicância na fuga massiva de quadros, com destaque para os especialistas das áreas chaves do processo de produção.
O canal de irrigação da Matala, com 42 quilómetros de extensão, foi o primeiro a ser remodelado pela construtora brasileira Odebrecht, há mais de uma década. Possui canais secundários e terciários que atingem, ao todo, 181 quilómetros, e irrigam 6.831 hectares de terras dos 10.732 hectares disponíveis.
A actividade pecuária é praticada em 3.901 hectares. A gestora do perímetro instalou motobombas nos km 19.7, km 5 e km 32 que favoreceram o aumento considerável de água às dezenas de lotes produtivos. Deste modo, as colheitas dos produtos, nomeadamente, batata rena, hortaliças, cereais e outros atingiram as 11.000 toneladas até 2016.
A actividade produtiva é auxiliada por dois silos com capacidade para 12 mil toneladas de milho, massambala e massango sendo que o complexo de frio está projectado para conservar 2.200 toneladas de batata. Cipriano Ndulamba defende que o coração do perímetro é o canal de irrigação que já necessita de obras de restauro.
Assegurou que o potencial agrícola do perímetro é ilimitado, sendo necessário apenas o fornecimento regular de insumos agrícolas e resolvida a questão da água. Com isso, a média das colheitas é de 36.000 toneladas de milho ano, 20.000 toneladas de batata rena, 18.000 toneladas de cebola e alho.
Segundo ele, a safra de feijão seria de 3.780 toneladas, 12.000 toneladas de tomate ano, produzidas num espaço de 200 hectares, cujo excedente seria para abastecer a fábrica de processamento de concentrado de tomate. “Caso se efectue a segunda fase de reabilitação do perímetro, os níveis de colheitas de produtos diversos ascenderia as 200.000 toneladas ano”.

Cooperativas andam aos papéis

Face ao marasmo em que está mergulhada a gestão do perímetro irrigado da Matala, várias cooperativas agrícolas que exploram as parcelas de terras aráveis estão agastadas pelas actuais condições de prestação de serviços essenciais à lavoura de diversos produtos não serem a mais adequadas.
O responsável da cooperativa 1º de Maio, Víctor Fernandes, contou que a gestora do perímetro “há muito deixou de auxiliar a actividade produtiva dos agricultores com agrónomos, por muitos deles terem já abandonado a empresa em consequência das dificuldades que a SODEMAT enfrenta.
De realçar que as cooperativas 1º de Maio e Baixa de Capelongo são verdadeiros exemplos de grupos de produtores organizados com mais de 800 agricultores que desbravam as terras férteis do perímetro irrigado da Matala com dinamismo, dedicação e produzem em fartura bens diversos.

Perímetro aos pedaços
A crise financeira que assola a gestão do perímetro irrigado em referência está a fazer com que certos trabalhadores e indivíduos, de má-fé, furtem e vandalizem principalmente o equipamento agrário, cabos eléctrico que alimentam as motobombas, entre outros bens.
O responsável da SODEMAT revela que os prejuízos estão acima de 1.500.000 dólares. “A continuar nesta situação, e não havendo uma definição clara, os custos, para recuperação das infra-estruturas, vão ser superiores ao investimento já aplicado”, disse.
Cipriano Ndulumba alertou que o perímetro da Matala constitui uma das vias para proporcionar empregos directos e promover o auto-emprego com cifras estimadas em 6.800 trabalhadores directos e 35.000 indirectos.

801 milhões
caem em saco roto

A desilusão que até agora constrange a actividade dos produtores que exploram as potencialidades do perímetro irrigado da Matala tem a ver com o não arranque da fábrica de concentrado e processamento de tomate instalada na comuna de Capelongo, orçada em 801 milhões de Kwanzas, financiado pelo Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA).

Criadas as condições de infra-estruturas, importado e montado o equipamento, o desaire começou com a falta de qualidade das máquinas. “Acompanhamos todo o processo de montagem das máquinas e outros acessórios, mas a verdade é que, após os testes da fábrica, concluiu-se que não tinha qualidade e, por isso, nunca funcionou, embaraçando todos os nossos projectos”, disse o agricultor João Rodrigues.
O filiado da cooperativa Baixa de Capelongo argumentou que a fábrica representava uma mais-valia para os produtores de tomate pelas garantias na transformação do excedente e por vários produtores “terem já gizado acções que visavam o aumento substancial do cultivo do produto necessário para a indústria transformadora”.