As pequenas unidades que se dedicam à produção de blocos de cimento, abobadilhas e vigotas estão a ressentir da ausência do produto no mercado.
Durante a ronda realizada pelo JE, às zonas de Luanda onde estão instaladas fábricas, foi possível sentir a preocupação e os temores de quem vê com incerteza o futuro do seu negócio de sustento.
Lucas Avelino disse que a sua pequena unidade viu-se obrigada a reduzir os níveis de produção de artefactos em 20 por cento, para lidar com o absentismo dos clientes, face ao preço do produto no mercado.
De acordo com ele, a procura reduziu, consideravelmente, em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo contou, para se manter no mercado, viu-se obrigado acrescentar entre 15 e 20 kwanzas por cada bloco de modo a encontrar margem para assegurar a sobrevivência da pequena unidade dedicada à produção de blocos.
Lucas Avelino afirmou que “os clientes são, sobretudo, construtores individuais”.
O pequeno empreendedor avançou ainda que até antes da instalação de um concorrente junto do seu local, no caso a fábrica de blocos de chineses, as vendas corriam bem. “Hoje por hoje, noto que os clientes preferem comprar blocos da fábrica em detrimento dos blocos manufacturados”.
Mensalmente, produzia até 10 mil blocos, perto de cinco mil abobadilhas bem como as vigotas, que chegavam até as três mil peças. Com o aumento dos preços, reduziu-se os níveis de produção. Ainda assim, os níveis de venda são animadores, pois tem sido possível garantir o salário dos quatro funcionários, que sustentam a pequena empresa pessoal.
“Nos últimos dias, estamos a comprar o saco de cimento a 2.100, para revender a 2.250 kwanzas, disse. Os clientes que compravam 10 sacos, hoje baixaram para cinco, o que deita para baixo às expectativas de venda mensais”, acrescenta.
Por sua vez, José Fonseca, que comercializa cimento nos arredores do Calemba 2, em Luanda, indica que até Janeiro deste ano os grossistas da Cimangol revendiam o produto a 1.000 kwanzas, para o retalhista revender o produto a 1.300, e com isso lucrar 300 kwanzas. De lá para cá a realidade mudou.
Segundo diz, o preço do produto disparou desde o princípio de Agosto.
Segundo contou, no mês passado, por exemplo, o produto chegou a custar três mil kwanzas, mas já desceu para uma média de 2.250, variando numa alta de mais 100 a 400 nalgumas zonas.
José Fonseca aguarda com ansiedade a redução do preço do cimento, de modo a adequar ao poder de compra do consumidor final, que tem vindo a reduzir de forma gradual nos últimos dias.
De modo a não depender de um único produto de venda, o pequeno comerciante recorre a pilares e estribos para preencher a prateleira da sua unidade de negócios.

Preços baixam vendas

O aumento do preço de cimento no mercado nacional, nos últimos três meses, tem dificultado a actividade dos agentes comerciais, principalmente, no sector da construção civil.
O aumento do preço do cimento prende-se, essencialmente, com a paralisação de duas cimenteiras, das cinco existentes no país, nomeadamente, a fábrica CIF, em Luanda, e a de Benguela, por falta do combustível Fight Fuel Oil (LFO), utilizado nas unidades fabris para produção do clinquer, matéria-prima fundamental
para o fabrico do cimento.
Durante uma ronda efectuada por uma equipa de reportagem da Angop, nas unidades fabris e num dos mercados de cimento da cidade capital, constatou-se a insatisfação e o desalento dos agentes comerciais, por causa do aumento do preço deste produto, que há quatro meses meses o saco de 50 kg custava entre 900 a mil kwanzas no mercado paralelo, contra os dois  mil e 500 kwanzas actuais.
Para José Manuel, um dos comerciantes de cimento no mercado do quilómetro 30, em Viana, há quatro meses o saco de 50 kg custava cerca de mil kwanzas nos agentes revendedores, mas actualmente compra-se a 2.300, situação que desencoraja os comerciantes deste produto a continuarem com o negócio.
Com o preço anterior, o vendedor tinha a possibilidade de comprar, na fábrica da China International Fund (CIF), na localidade de Bom Jesus, cerca de mil sacos de cimento semanalmente, mas actualmente só consegue adquirir apenas 720 sacos, na Nova Cimangola, onde cada saco
custa mil e 300 kwanzas.
Melita Júnior, comerciante de cimento há dez anos, referiu que anteriormente comprava cada saco 1.225 kwanzas da fonte e revendia 1.300, mas actualmente só consegue comprar dos agentes revendedores no preço de 2.150  para vender 2.400 kwanzas.
Com este preço, prosseguiu, o negócio não é rentável, em função do custo de transporte, carregamento e descarga do produto, arrendamento do armazém, pagamento da ficha diária no mercado e do imposto, além do consumo diário da família.