As fichas técnicas dos jornais Expansão e Mercado atestam, na sua última edição, sobre uma tiragem de 15 e cinco mil exemplares para um e outro semanário de economia.
Considerando os respectivos preços de capa de kz 900 para o primeiro e 700 para o segundo, estima-se uma receita semanal de kz 13,5 milhões (usd 37 mil ao câmbio médio de 0,0027 calculados pelo plataforma Oanda, em 27 de Agosto) e kz 3,5 milhões (usd 9,5 mil), respectivamente.
Apesar dos indicadores que parecem muito optimistas naqueles dois órgãos, o cenário para outros actores na imprensa económica angolana é de contínuo risco de falência eminente. Os estudos de publicidade mostram cada vezmais, maior redução dos investimentos destes serviços, tendo em atenção que o maior financiador dos títulos
de imprensa são os anúncios.
O jornalista e também economista Carlos Rosado de Carvalho é de opinião que se deve investir na criação de uma associação para controlo
das tiragens dos jornais.
Segundo ele, pode ser que os órgãos não imprimam na realidade os números que anunciam nas suas fichas técnicas, e para isso, só uma empresa independente e profissionalizada poderia auditar e fazer publicar estes indicadores ao mercado.
“É também uma forma de melhorar a transparência na gestão, no negócio e no próprio mercado da comunicação”, disse.
Rosado diz-se também preocupado com o espectro de falência que ensombra o jornalismo angolano, que não só vai tirar emprego a muitos profissionais, jovens sobretudo, mas também pode enfraquecer a consolidação do Estado democrático e de direito, conforme se pretende.
Citou as referências dos jornais O País, que tentou ser diário e agora está resumido ao digital e PDF, assim como o Valor Económico, que não fez circular a sua última edição impressa sem ter avançado as razões de fundo (mais detalhes das posições de Carlos Rosado na
entrevista das páginas 10 e 11).

Mercado de desafios
Em 2010, o tablóide “Semanário Económico” um dos que muito prometeu ao noticiário especializado angolano estreou-se num mercado, onde até à data disputavam pela hegemonia o público, e pioneiro nessa nova era, Economia & Finanças, e o privado Expansão, criados em 2008 e 2009, respectivamente.
O fervilhar da economia, muito alimentada pelos preços altos do barril do petróleo (chegou a 120 dólares o barril nessa altura) era um aditivo para a imprensa económica. Foi também no seguimento destes cenários que se começaram a desenhar os primeiros esboços do surgimento de uma Bolsa de
Valores e Derivados de Angola.
A crítica interna e externa reunia a unanimidade de que estava criado um cenário para a existência de jornais especializados em economia, banca & finanças e mercados bolsistas, como fez questão de reafirmar Alberto Prado, consultor
brasileiro em jornalismo.
Passado, ao que se seguiu, todo um período de promessas e especulações nos mercados, desde 2018 o desafio do sector da comunicação social assentou-se na promoção responsável da abertura editorial dos meios de comunicação estatais, conversão gradual dos órgãos públicos e tomada de medidas para o aperfeiçoamento da gestão das empresas públicas, com o objectivo de os reestruturar, dar início ao saneamento financeiro, melhoria disciplinar e produtiva, para torná-los mais eficazes e eficientes.
Embora se exija por força da capitalização pública que as empresas detidas pelo Estado (órgãos públicos da comunicação social) publiquem regularmente as contas anuais auditadas, também é manifesta uma intenção generalizada de que os órgãos privados obedeçam este princípio da transparência, de acordo com o jurista João Gomes.
“Boas contas só fazem bons amigos, de certeza”, afirmou.

O “negócio” dos jornais nas mãos dos ardinas

O dia-a-dia dos ardinas nem sempre é tão quente como as notícias dos jornais que os propalam vender.
Ao que disseram os nossos entrevistados, os preços de capa e o cada vez menor poder de compra dos leitores estão a afectar o negócio, que na baixa de Luanda é alternado com o do “business” do estacionamento.
Eduardo Manuel “Dudas”, aos 35 anos, é ardina desde 2011. Vende jornais à saída do Kilamba, na chamada saída de baixo. Está lá, normalmente, a partir das oito horas e larga entre às 12 e 13 horas.
Disse que nem sempre vende todos os jornais do dia. No Kilamba, Dudas comercializa mais os jornais públicos. .
Já outro ardina, Mauro Pedro, faz da baixa de Luanda o seu local de soldo.
Conforme diz, um dos maiores problemas com o negócio da venda dos jornais está no preço de capa, sobretudo dos semanários, o que é muito reclamado pelos compradores.
Há quem entende, e eu até também concordo, que comprar um jornal de kz 900 é prejudicar o pão das crianças, mas também devo entender, que nem tudo é para todos.
Na baixa, Mauro Pedro divide a sua arte de vender os jornais pelos títulos de capa com um novo negócio: ocupam espaços dos estacionamentos com pedras ou suas motorizadas para aqueles que as têm e depois repassam os espaços aos proprietários de viaturas que chegam na baixa um pouco mais tarde.“Só dos jornais não se vive”, desabafa.