ANTÓNIO EUGÉNIO

A África precisa investir USD 25 mil milhões anualmente em projectos agrícolas para acabar com a fome e eliminar a subnutrição crónica que afecta actualmente 265 milhões de pessoas, anunciou, em Luanda, a subdirectora da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), Maria Helena Semedo.

Abordada durante a 26ª Conferência Regional da organização para a África, a dirigente disse que o continente africano é o único onde a produção média de alimentos per capita por hectare está a diminuir constantemente nos últimos 40 anos.

A escassez de alimentos trouxe como consequência altos níveis de fome, pobreza nas zonas rurais e um lento desenvolvimento económico. A demanda actual está muito aquém para cobrir toda a população do continente, que, segundo estimativas, até 2050 registe um aumento de 100 para 200 milhões.

Por outro lado, os documentos discutidos pelos peritos e submetidos a provação dos ministros da agricultura de África apontam que apesar do mercado internacional ter registado uma queda no preço de alimentos, o continente africano continua a registar preços mais altos do que nos anos anteriores. Por exemplo, o arroz e o milho subiram na ordem de 100% em alguns países.

De assinalar também, de acordo com a constatação da reunião de Luanda, que grande parte dos países do continente continuam como importadores dos produtos alimentares, facto que permitiu que o custo total de importações de cereais, por exemplo, ascender aproximadamente a USD 21.748 milhões em 2008, só na África do norte.

Já a África subsahariana gastou USD 9.800 milhões em 2008 para a compra de alimentos, o que representa um crescimento entre 30 a 35% comparativamente ao ano de 2007.

Projectos de emergência

Na tentativa de reduzir a fome e a miséria em África, a FAO implementou vários projectos virados para a aquisição de insumos agrícolas de emergência, um investimento calculado em USD 15,7 milhões e que beneficiou 35 países.

Na mesma perspectiva, a organização das nações Unidas lançou recentemente em África 11 projectos de emergência financiados pelo fundo central para a acção em caso de emergência, no valor USD 12 milhões, e cinco outros projectos financiados pela divisão de operações de emergência e reabilitação da FAO com assistência bilateral estimado em USD 13,3 milhões.

Na base de se acabar com a fome, foram ainda realizadas avaliações em 15 países com o objectivo de se elaborar o plano de acção para o desenvolvimento agrícola e segurança alimentar sustentável a médio e longo prazo.

Assim, outros 16 projectos foram implementados no continente, num investimento calculado em USD 166,3 milhões. Deste valor 29% já foi desembolsado em finais de Fevereiro de 2010.

Insegurança alimentar

Os peritos apontam a escassez de infra-estruturas, a inexistência de incentivos agrícolas, a aplicação de políticas inadequadas em matéria de comércio e estabelecimento de preços exagerados, como grandes males que contribuem para a insegurança alimentar.

Segundo os especialistas, há uma capacidade limitada de recursos humanos para mudar o quadro, apesar de 60% da população depender directamente da agricultura e da disponibilidade favorável dos recursos naturais para a prática da actividade agrícola.

Outras causas que estão na base do insucesso da segurança alimentar tem a ver com a prática da agricultura em condições adversas de clima, como a seca, a degradação da terra e a impraticabilidade de novas técnicas de rega.

Por causa do factor climático, nos últimos anos foram ensaiadas algumas variedades de milho, mandioca, arroz, feijão, que foram bastante tolerantes à seca e enfermidades.

Contudo, a combinação de diversos cultivos, os complexos sistemas agro ecológicos, a falta de infra-estrutura, e instituições de apoio afectaram a adaptação de novas variedades de cultivo em África, referem os especialistas.

Os peritos alertam também que as mudanças climatéricas serão responsáveis por muitos desaires agrícolas até 2080, neste caso, se não forem tomadas as devidas cautelas a produção da cana-de-açúcar poderá cair em 40% nas zonas favoráveis e a cevada em 30%, neste período.

Degradação da terra

As estimativas da FAO apontam que 65% da população africana e uma área de cerca de 16,1 milhões de quilómetros quadrados de terra está a afectar a degradação da terra, o que já provocou a queda na taxa de produção na ordem de 3% por ano.

Cerca de quatro milhões de toneladas de nutrientes são removidos durante a colheita em comparação com um milhão de toneladas que deveriam regressar ao solo em forma de abonos e fertilizantes, o que tem afectado a fertilidade dos solos.

Por está razão, existe um receio crescente pela perda de dois terços da terra cultivável no continente até 2025.

A degradação da terra em África é descrita como sendo um “problema sério” e constitui uma ameaça para a sobrevivência física e económica. Estima-se que 500 milhões de hectares de terra estão prejudicados desde 1950.

O aumento da erosão dos solos, a diminuição da fertilidade, a salinização devido às escassas técnicas de rega, a compactação dos solos, a contaminação agro-química e a desertificação concorrem para este mal.

Na África do norte e no Sahara, o aumento da seca, a escassez de água e a exploração excessiva da terra pode conduzir à perda de 75% da terra cultivável. O delta do rio Nilo, por exemplo, está em perigo tanto pelo aumento do nível do mar como pela salinização das zonas agrícolas. Estima-se, por via disso, uma perda de terra cultivável entre 12 a 15% até 2050, com prejuízo directo para cerca de cinco milhões de pessoas.

Defesa da biodiversidade

Aproximadamente 30 milhões de pessoas vivem nas zonas rurais da África central e consomem cerca de 1,1 milhões de toneladas métricas de fauna e flora silvestre anualmente, factor que poderá provocar no futuro a perda da biodiversidade e provocar mudanças climatéricas.

Está cifra equivale a quase 4 milhões de gado, o valor anual estimado de comércio de carne de caça na África central e ocidental poderá ser superior a USD 1 milhão. Tendo em conta a elevada dependência dos nativos em recursos naturais em África.

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