A existência de numerosos rios e ventos fortes é apontada, pelo especialista, Luís Fernando, como sendo os grandes indicadores de sucesso deste processo de criação, que pode também abastecer, além do mercado interno, alguns países vizinhos

ANTÓNIO EUGÉNIO

Jornal de Economia e finanças -Que experiencia trás para Angola sobre o uso de energias renováveis para Angola?

Luís Fernando - Estou aqui para dar uma série de palestra sobre energia renováveis. Eu sou professor do Instituto de ciências “Carnegie Science” dos EUA e tenho experiencia em desenvolvimento de energia renováveis e sustentáveis em países latinos Americanos. Fui convidado pela embaixada dos Estados Unidos para promover um diálogo em Angola, para estabelecimento de um centro de tecnologia para a energia renováveis e promover o uso destas tecnologias, afim de ajudar as comunidades rurais que não têm mais fontes de energias. O meu trabalho começou no Lubango, Huambo e continua agora em Luanda.

JE – Na sua opinião, que programas devem ser desenvolvidos pelo Governo angolano no sentido de implementar com sucesso o seu plano sobre energias renováveis?

LF – Tudo passa pela implementação de um plano energético nacional, onde venha expresso as percentagens de energias a consumir, usando neste caso, as tecnologias já destacadas e comprovados com sucesso em vários países no mundo. Os métodos a utilizar devem ser os recomendáveis internacionalmente, de formas a que estas possam beneficiar também às comunidades rurais e ajudar a transformar o sector energético do país a ser mais moderno, cujos ganhos se reflictam, sobretudo no domínio económico, ambiental e social.

JE – Que benefícios económicos podem ser obtidos a partir do seu uso?

LF – Os benefícios são vários. Por exemplo, até hoje, não se sabe quanto tempo vai durar o uso do petróleo no mundo e muitas comunidades estão a usar geradores eléctricos diesel, em que o combustível é bastante caro, às vezes difícil de obter. Isto do ponto de vista económico é oneroso. Há comunidades que não têm gerador e usam lenha, a colheita de lenha tem efeitos negativos sobre o ambiente. Devastar florestas à volta das comunidades também prejudica o estado de saúde das pessoas. Logo, as tecnologias energéticas renováveis são bastante importantes para a comunidade e relativamente mais baixas. Há outros benefícios, como a possibilidade de gerar novos postos trabalho, quer através da criação de pequenas empresas ou por meio da concessão micro-créditos. Por exemplo, é necessário que existam pessoas que carreguem as baterias para utilização em micro turbina eólicas ou mini hídrica e vendedores de energia que vendam a comunidades que não tenham fontes de energia.

JE – Quais são as tecnologias renováveis mais fáceis de introduzir nas comunidades?

LF – As mais fáceis de serem introduzidas nas comunidades rurais e cercanias das cidades são sem duvidas as mini-turbinas, tanto as ar, água, solar e os bio-combustiveis servem para poder gerar energia para comunidades pequenas. Com tecnologias do género, é possível evitar vários problemas resultantes do uso de geradores e lenha, que degradam o meio ambiente nestas áreas.

JE – Pode indicar realidades de sucesso que conhece e aplicar ao caso de Angola?

LF – Trabalho em zonas isoladas de amazónia, no Brasil e Peru. As realidades nestes locais são mais ou menos parecidas com as de Angola. Por exemplo, existem muitas comunidades distantes das áreas onde há energia eléctrica, e temos visto muitos benefícios em comunidades que não têm esperança de serem conectadas com os principais centros de energia eléctrica e a salvação foi o uso de energias alternativas. Há também vários casos de sucesso não só na Ásia ou América, mas também em África. Se nestes países o sucesso é visível, não vejo inconveniente desta falhar aqui. Aliás, os dados recolhidos e estudos feitos sobre a realidade angolana atestam a necessidade de se implementar o uso de energias renováveis no país, com garantias de sucesso.

JE – Há quem se interroga que o uso desta energia passa também pelo aumento de algumas culturas que intervêm na cadeia alimentar?

LF – Bom, usando estas tecnologias não se prejudica a produção e a colheita de alimentos, porque são painéis solares e mini-hidricas que podem ajudar na transformação do milho em farinha, o que ajuda as comunidades. Pelo contrário, extrair energia a partir do ar ou do sol vai ajudar, sobretudo os camponeses no cultivo das suas culturas e as populações a moer o milho e o bombom, por exemplo. Não há possível interferência na cadeia produtiva alimentar, o que existe de facto é uma inter conexão neste processo.

JE – Como especialista, em quantos anos prevê que este segmento venha ter sucesso no país, face ao domínio que tem do programa de implementação de energias renováveis?

LF – Na verdade isso, dependerá da vontade do Governo de Angola. O que sei é que este país tem condições favoráveis para ter sucesso na implementação desta forma de energia a curto espaço, basta apenas olhar pelo potencial de rios que tem, os ventos favoráveis do Lobito, Namibe e outras regiões do país. Angola pode abastecer com sucesso as suas cidades, comunidades rurais e ainda terá capacidade para fornecer alguns países vizinhos.

JE – Os custos na implementação são mais baixos se comparados com a dependência do petróleo?

LF – Em alguns casos, o custo inicial das renováveis são mais altos do que o convencional, mas não há custos de combustíveis baratos. Sé se comparar uma turbina eólica que usa o vento, com um gerador a diesel, a turbina vai custar mais caro que o gerador. Mas esta, uma vez instalada, não necessitará de combustível para funcionar, apenas manutenção, o que é barata. Já a turbina a diesel é mais dispendiosa, porque necessita de constante manutenção. A análise, para estes casos, não deve ser apenas no custo de compra, mas sobretudo, na manutenção, que garante vitalidade de 10 a 20 anos. Com a oscilação constante na produção e no preço do petróleo, o mais aconselhável é um investimento sério no sistema de energia alternativa, na qual não se usa combustível e está isolado das oscilações do crude.

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