Francisco Inácio

As empresas angolanas de aviação civil estão preocupadas com a actual conjuntura internacional do ramo, marcada por três acidentes aéreos ocorridos nos últimos três meses, com o balanço de 548 mortos. Por isso, estão a realizar investimentos em vários sectores para garantir maior segurança às suas operações e oferecer mais qualidade de serviço aos seus clientes.

A Companhia de Helicópteros de Angola (Heliang), por exemplo, que presta serviços de fretamento aéreo com uma frota de quatro aeronaves, investiu recentemente cerca de USD 1 milhão na aquisição e instalação de TCAS, que são aparelhos anti-colisão de gerenciamento de tráfego. A operar desde 1995, a Heliang possui dois Beechcrafts 200 e dois Beechcratfs 900, de fabrico americano, com capacidade de 8 e 18 lugares, respectivamente.

Investimentos avultados

Segundo o director-geral da Air Jet, António Bete, a aviação civil é um sector que exige um capital intensivo e despesas muito elevadas nas suas diversas operações, desde a manutenção até aos serviços de voo. Neste momento, a companhia está a investir na remodelação e na reposição de peças de um avião Antonov 32, além de projectar a compra de uma aeronave Embraer 145.

De acordo com o administrador da Air Jet, Álvaro da Luz, a companhia segue à risca as novas regras impostas pelo Instituto Nacional de Aviação Civil (INAVIC). Já foram feitos investimentos na formação de pessoal, na aquisição de equipamentos de localização GPS e na elaboração de cinco manuais específicos para o sector. Segundo ele, até agora a empresa já investiu mais de USD 300 mil para se adequar às novas exigências. “Neste momento, estamos a trabalhar para conseguirmos a re-certificação do INAVIC”, referiu. A companhia opera actualmente com três Embraer 120, com capacidade para 30 passageiros, e um Beechcraft para executivos.

Por sua vez, o director-geral da Diexim Express, Bartolomeu Dias, a sua empresa vai investir cerca de USD 1,6 milhões na construção e modernização de um novo hangar e já traça planos para tirar proveito da realização do Campeonato Africano de Futebol (CAN) a decorrer no país em Janeiro do próximo ano.

INAVIC mais exigente

Desde a nomeação da nova direcção do INAVIC, ocorrida em Novembro do ano passado, as coisas ficaram mais exigentes para as companhias aéreas angolanas. Depois de aprovada uma nova legislação para o sector, a instituição empenhou-se em exigir o cumprimento das principais normas de segurança e serviços aéreos.

Assim, todas as companhias deviam ter os manuais de aviação civis actualizados e todos os normativos relativos às operações de manutenção e de voos. Para garantir o cumprimento das novas regras, os inspectores do INAVIC aumentaram a sua frequência de visitas às companhias.

Pressionadas, as empresas do ramo foram obrigadas a adaptar-se à nova realidade e a realizar investimentos para a modernização e eficiência dos seus serviços. As exigências e a nova dinâmica de trabalho que o INAVIC pretende imprimir no sector já foram responsáveis pelo encerramento das actividades de seis empresas. Foram fechadas por não cumprirem as novas regras: SAL, Mavewa, Service Air, Dikango, Rui Conceição e a NPA.

No entanto, as companhias defendem a realização de esforços conjuntos e sinergias para a melhoria do sector. Para elas, os esforços das empresas têm de ser compensados com uma melhor prestação de serviços por parte do próprio INAVIC e da Empresa Nacional de Exploração de Aeroportos e de Navegação Aérea (ENANA). Segundo os entrevistados, é comum as companhias assumirem todos os prejuízos decorrentes da prestação de maus serviços pelas autoridades aeronáuticas do país.

Modelos mais utilizados

Depois da proclamação da independência nacional, em Novembro de 1975, os aviões russos Antonov sobrevoaram muitos anos os céus de Angola. Mas este modelo de avião se encontra em via de extinção, sobretudo devido ao facto de que os passageiros angolanos o associam aos mais graves acidentes ocorrido no país.

Um destes acidentes ocorreu em Novembro de 2000, quando um Antonov se despenhou a poucos metros do aeroporto de Luanda e, em consequência, 57 pessoas morreram. Os acidentes mais recentes da aviação civil aconteceram em Janeiro do ano passado, quando um avião bimotor do tipo King Air B 200 embateu contra uma montanha no planalto central provocando a morte de 12 pessoas, entre elas o empresário angolano Valentim Amões.

Com excepção da TAAG, que utiliza aeronaves Boeing, actualmente a maioria das empresas do sector aeronáutico angolano utiliza aviões da Embraer, fabricados no Brasil. Segundo o director da Air Jet, António Bete, um avião destes em segunda mão pode ser adquirido em média por USD 8 milhões. “Este modelo de avião apresenta muitas vantagens para as companhias, por ser muito veloz, silencioso e económico. Eles pertencem a uma geração de aviões tecnologicamente mais modernos”, explicou.

A fabricante brasileira iniciou a produzir os Embraer utilizados pelas companhias angolanas a partir de 1972 para garantir a sua sobrevivência comercial, numa altura em que estava dependente das encomendas governamentais. O Embraer 120 é o seu modelo mais confortável, com alta velocidade e capacidade entre 20 e 30 lugares.

Entretanto, embora sejam aviões muito utilizados também nos Estados Unidos para voos regionais, segundo a revista especializada em aviação “Radar Aviation Magazine”, este modelo de avião apresenta deficiências no sistema de hélices da Hamilton Standart da série 14RF/SF dos Embraer-120.

“Os problemas se concentram no mecanismo de controlo de passo da hélice e na estrutura das pás da hélice, sendo que tem ocorrido casos de perda de pás em pleno voo”, afirma a revista. “Mas uma busca nas causas e acções correctivas como inspecções periódicas das estruturas das pás e substituição do sistema de controlo de passo” podem evitar os acidentes com este modelo da Embraer Brasília, que é o quarto melhor fabricante de aviões do mundo”, diz a publicação.

Leia mais sobre segurança aérea em Angola no Jornal de Economia & Finanças desta semana, que já está nas ruas.