ISAQUE LOURENÇO

Numa altura em que os efeitos da recessão global começam a se fazer sentir nas economias reais, aumentar a bancarização, gerir a crescente complexidade e ao mesmo tempo manter os níveis de eficiência e de rentabilidade do sistema financeiro se assumem como um dos três grandes desafios a que a banca angolana deve enfrentar, de acordo com o quarto estudo sobre a banca, da Consultora Deloitte.

Indicadores dos estudos

Os anteriores estudos (2005, 2007 e 2008) “Banca em Análise” da Deloitte, apesar de reconhecerem o significativo crescimento do sector financeiro, à altura, consideraram-na pouco bancarizada, conforme evidenciada pelo indicador M2/PIB (meios de pagamentos vs peso no Produto Interno Bruto) que ficou em 15,5%.

No estudo produzido pela KPMG, auditores “Pesquisa Sobre o Sector Bancário em Angola 2008”, socorrendo-se a dados da Empresa Interbancária de Serviços (EMIS), a taxa de bancarização (população bancarizada/população total) divulgada foi estimada num valor reduzido, tendo evoluído de 6% em 2006 para os 6,7% em 2007, traduzindo-se num número de 1.514.100 clientes bancários.

Hoje, a discussão se coloca em torno do universo de população bancária em Angola, um indicador indispensável na avaliação do número de pessoas inseridas no sistema bancário, cujos números reais se desconhecem.

Assim é que a previsão apresentada pela EMIS era de que até 2010 a bancarização da população economicamente activa alcançasse a taxa de 15%, o que lhe permitiria alcançar, por sua vez, uma taxa de penetração dos serviços de multicaixas às populações de até 75%, contra os cerca de 20% da altura, uma vez considerarem como uma das principais razões de criação da EMIS o auxilio aos bancos na bancarização da população.

Desafios aos bancos

O Presidente do Conselho de Administração do Banco de Negócios Internacional (BNI), Mário Moreira Palhares, disse que a sua instituição apostaria em 2010 na bancarização da população, que a estimou em pouco mais de 5 por cento, através do incremento da utilização de meios de pagamentos electrónicos (cartões).

Já o Presidente da Comissão Executiva do banco de Fomento Angola (BFA), Emídio Pinheiro, aposta na expansão dos serviços do banco pelo interior do país. Uma vez presentes em 17 das 18 províncias do país, pretendem reforçar a sua carteira de clientes e prosseguir as suas estratégias de participação no crescimento económico do país.

Por sua vez, o administrador do Banco Internacional de Crédito (BIC), Fernando Duarte, defende que as novas oportunidades de emprego e a banca de retalho segmentada em quase todos os 18 bancos em operacionalização sistémica devem ser tidos em conta enquanto factores influenciadores à determinação da população bancária activa. Daí que apresenta certas dúvidas quanto aos números que os estudos recentes têm demonstrado.

Pagamento de salários nos bancos uma alternativa viável para o aumento da bancarização

Face à meta de introdução de mais pessoas no circuito formal da economia e consequentemente no sistema bancário, a transferência de pagamentos salariais das tesourarias para os balcões das agências disponíveis no mercado se assume como uma etapa crucial e até mesmo fundamental.

Diante dos desafios de uma economia em franco crescimento, a formalização dos agentes económicos activos através de uma rede integrada de serviços financeiros corresponde à participação generalizada dos actores económicos nos desafios de progresso e desenvolvimento económico e social.

O porta-voz do Ministério das Finanças, Bastos de Almeida, chamado a comentar, disse ao JE que uma vez não ser imposição do Estado a bancarização de salários, o mesmo se assume como uma opção acertada tendo em vista os riscos que as instituições correm ao procederem o pagamento por via de tesourarias.

“É uma questão de segurança e até mesmo de transferência de riscos para instituições apropriadas para o efeito”, disse.

Lembra, porém, que do lado do funcionalismo público esta é uma etapa que de resto o Estado venceu com a transferência dos pagamentos salariais através do Banco de Poupança e Crédito (BPC), só não observado num ou noutro ponto do país por dificuldade de acesso das agências, mas que já se encaminha para uma completa operacionalização.

Leia mais sobre o assunto no Jornal de Economia & Finanças desta semana, que já está nas ruas.