Ismael Botelho

O Governo angolano e a sociedade civil continuam a mobilizar esforços com vista a contornarem os nefastos efeitos da crise financeira e económica mundial, como o demonstram os últimos acontecimentos registados neste dossier, durante a semana passada.

A conclusão, a que se chegou, é que a crise veio para ficar, por tempo ainda indeterminado, pelo que o bom senso e o realismo aconselham a adopção de medidas pragmáticas que possam, efectivamente, debelar a agressividade da turbulência, considerada já a maior de todos os tempos.

Além da mobilização de todos os actores da sociedade para a definição de soluções, o Governo angolano tem levado a cabo uma série de esclarecimentos sobre este fenómeno, a fim de que a população o entenda melhor e, em consequência, o possa combater mais eficazmente.

Isto precisamente porque, como disse o ministro angolano da Economia, Manuel Nunes Júnior, "Angola vai continuar a sua trajectória de crescimento económico, não podemos criar alarmismos".

O ministro discursava numa conferência realizada em Luanda na passada quinta-feira, 23, por iniciativa do Centro de Estudos Estratégicos de Angola, na qual foi convidado especial o político e especialista em questões internacionais António Vitorino, antigo ministro da Defesa de Portugal.

No encontro, Manuel Nunes Júnior, abriu o jogo e enumerou alguns dos males causados até agora à economia angolana pelo flagelo: a queda das receitas petrolíferas e diamantíferas, dos financiamentos e fluxos de capitais financeiros externos, e da liquidez interna. "Neste caso, as receitas e as divisas do Estado são as que mais sofrem os efeitos", ressaltou.

O governante destacou também alguns "aspectos positivos" da turbulência, como seja o facto de o Governo estar a repensar as suas formas de actuação. Segundo sublinhou, o país vai continuar a sua trajectória de crescimento económico. "Não podemos criar alarmismos", exortou. Manuel Júnior reafirmou que Angola é dos poucos países que, apesar da crise, vai continuar a crescer e o seu crescimento será superior ao de 3% que representa a taxa de crescimento populacional.

Numa outra vertente, o ministro destacou o peso e a importância da intervenção estatal nas economias, ao mesmo tempo que enumerou algumas das medidas governamentais já traçadas. "Não podemos cair no radicalismo, os estados falham e os mercados também, o que deve acontecer é uma sincronia entre o Estado e os mercados", alertou.

Proteccionismo do Estado

Para António Vitorino, o que há de novo nesta crise, comparativamente às anteriores, é o seu carácter transversal, que se caracteriza pela perda de confiança nas instituições financeiras. Com esta, segundo disse, o sucesso da globalização acaba por ter um efeito de contágio devido à interdependência dessas instituições. De acordo com o especialista, a réplica a esta crise terá que ter uma resposta global, principalmente da parte das economias mais fortes e emergentes. "Alguns vêem nesta crise o fim trágico do capitalismo, porque não há um modelo alternativo de economia de mercado que as salve deste marasmo financeiro", sublinhou. "A solução está nos EUA", precisou. Segundo ele, "sem intervenção dos estados nas economias, não haverá saída possível".

Para o especialista, o proteccionismo do Estado sobre a economia é a receita viável para a saída da crise, sendo que a criação de emprego, riqueza e renda são complementares. Uma vez que, as medidas discretas de protecção económica limitam o fluxo de mercadorias, a aposta na produção interna é uma solução para crises destas dimensões.

E é precisamente essa aposta na produção interna que uma outra conferência debateu, no mesmo

dia, no quadro do programa governamental de relançamento da indústria transformadora nacional, no período entre 2009 e 2012.

Leia mais sobre a crise na edição impressa do Jornal de Economia & Finanças, que já está nas ruas.