Francisco Inácio

Numa altura em que os sectores chave da economia nacional estão apreensivos face à variação na taxa de câmbios, o Governo estuda mecanismos para contrapor a subida do dólar no mercado nacional. É que, desde o mês passado, assinalou - se a uma subida repentina da moeda norte-americana. A nota, que há mais de cinco anos vinha sendo vendida a Kz 75 e comprada a 78, transaciouna-se actualmente a 79 kwanzas a venda e Kz 83 a compra. As razões para esta subida são apontadas ao facto do Banco Nacional de Angola (BNA) ter tomado uma série de medidas das quais o cancelamento temporário da venda de divisas aos bancos comerciais.

Ao pronunciar-se sobre este facto, o vice - ministro das Finanças, Manuel da Cruz Neto, esclareceu que a alteração que se regista actualmente na taxa de câmbio é uma evolução normal da situação cambial do país e que não há motivos para tanto alarmismo ou especulação.

Segundo o governante, a subida do dólar e a ligeira depreciação da moeda nacional são variações normais e não estão ligadas a alguma alteração substancial da política monetária do Governo.

“Não deve haver nenhum alarme em relação a isso, porque se temos uma taxa de câmbio flexível, ela apenas exprime qual é a situação actual do mercado. Nada mais do que isso”, aclarou o vice-ministro à margem de uma palestra realizada pela Associação dos Funcionários Bancários de Angola (ASTRABA), no passado dia 14 do corrente mês, em Luanda.

O governante respondia às inquietações dos participantes da palestra e da imprensa sobre os rumores que levantam suspeitas sobre a desvalorização do kwanza face à moeda norte-americana.

“Quando nós verificarmos que há uma procura anormal de divisas, de tal modo que nos leve a pensar que haverá alguma especulação, aí sim estaremos preocupados”, declarou Manuel da Cruz Neto, para acrescentar que neste momento deve-se “deixar que o mercado cambial funcione com normalidade”.

Redução do dólar no mercado

Embora recentemente o Banco Central tivesse garantido que a oferta do dólar americana não seria reduzido com a crise financeira internacional, o que se regista hoje é uma grande demanda pela moeda norte-americana, devido às restrições que o BNA impõe na venda da mesma aos bancos comerciais.

O BNA realiza diariamente sessões de venda de divisas aos bancos comerciais, que posteriormente repassam aos seus clientes. Os montantes a colocar em leilão dependem da procura existente no mercado.

Em finais de Abril passado, o BNA começou a reduzir as vendas do dólar. Esta medida está a provocar escassez da referida moeda no mercado e a aumentar o receio por uma possível desvalorização do kwanza. Este facto contribui para a correria de particulares e empresas aos balcões dos bancos comerciais e das casas de câmbios para a compra da moeda estrangeira.

Alguns fazem-no por precaução, outros arriscam-se mesmo em converter as suas poupanças de kwanza para o dólar. Há também alguns que o fazem com o propósito de antecipar a suposta depreciação do kwanza para no futuro rentabilizar os seus depósitos em dólares.

Procura nas casas de câmbio

Nos últimos dias, as casas de câmbio em Luanda têm registado um aumento significativo no número de clientes interessados em comprar (USD) o dólar americano, devido ao receio de uma possível desvalorização da moeda nacional, o kwanza (KZ).

A gerente da casa de câmbio Euro Dólar, Viandy da Silva, afirmou em entrevista ao JE que o seu balcão tem recebido uma expressiva demanda de clientes que recorrem aos seus serviços para adquirem o dólar americano.

Viandy da Silva referiu que a subida da moeda estrangeira, quer no mercado formal, quer no informal, a par da segurança oferecida pelas casas de câmbio, são os principais motivos do aumento do número de clientes às casas de câmbio.

“Apesar de a nossa empresa ser nova no mercado, temos verificado uma grande afluência de clientes ao nosso balcão de Luanda”, informou, sem contudo avançar números concretos.

Para ela, as medidas tomadas pelo Banco Central são reflexos da crise económica e financeira mundial. “Ouvi por terceiros que a intenção do BNA é acabar com a elevada quantidade de dólares que circulam no mercado com o objectivo lógico de manter o valor do kwanza no mercado. Apesar de tudo, acredito ser um bom passo, se olharmos para os outros países que valorizam as suas respectivas moedas, como é o caso da vizinha Namíbia”, enfatizou.

Lamentou o facto de a sua empresa ter de mandar embora os clientes com a intenção de realizarem operações cambiais acima de USD 10 mil por falta da moeda americana. Tudo piora devido à dificuldade que as casas de câmbio encontram para adquirirem o dólar nos bancos comerciais.

“Nós dependemos dos bancos para aquisição do dólar. Mas actualmente está cada vez mais difícil comprar dólares aos bancos, porque estes alegam algumas restrições na venda da moeda americana a nível do Banco Nacional de Angola”, acrescentou.

Na Cota Angola

Por sua vez, o director - geral da casa de câmbio Cota Angola, João Freire, confirmou que actualmente existe uma grande demanda reprimida pelo dólar e explica as possíveis razões desta procura. Para ele, embora essa demanda seja positiva, mas “a medida do BNA em diminuir a venda de dólares aos bancos comerciais afecta directamente a actividade cambial”.

No entender de João Freire, as pessoas fazem a corrida ao dólar porque receiam que num futuro breve haja uma desvalorização mais significativa do kwanza.

A situação é quase geral. Nos balcões da Nova Câmbio, que é uma das maiores empresas do sector, o JE constatou as limitações na compra do dólar devido à situação acima descrita. De acordo com uma das balconistas, neste momento não é possível cambiar um valor acima de USD dois mil.

Preferência dos clientes

A reportagem do JE conversou com alguns clientes das casas de câmbio a respeito da subida do dólar no mercado. A maioria mostrou-se preocupada pela tendência depreciativa da moeda nacional, pelo que preferem realizar operações cambiais nas casas de câmbio.

Questionado sobre o assunto, Pedro Miguel Neto, 33 anos, funcionário público, disse que não compreendia o porquê da subida do dólar, mas afirmou que as operações de compra ou venda do dólar e outras moedas estrangeiras, são as mais seguros recorrendo às casas de câmbio.

“É mais seguro e tenho maior confiança nas casas de câmbio. Nas kinguilas, o preço está mais alto e é muito inseguro”, referiu.

Já Alfredo António, estudante de 28 anos, também cliente assíduo de casas de câmbio, corrobora com a opinião do Pedro Neto.

“A casa de câmbio é um lugar seguro e cómodo, enquanto nas kínguilas corremos o risco de falsificação, por isso é que costumo recorrer às casas de venda de moeda”, justificou a sua opção.

Leia mais sobre a situação cambial no Jornal de Economia & Finanças desta semana, que já está nas ruas.