José Chimuco, Editor Executivo

De uma importância capital para o desenvolvimento sustentado de uma qualquer economia, a investigação pesqueira teve início em Angola no período antes da independência, a cargo da Missão de Estudos Bioceanológicos de Pescas de Angola (MEBPA).

Os resultados alcançados nessa altura dizem respeito a trabalhos produzidos na área de recursos biológicos aquáticos, estudos confinados às zonas centro e sul da costa angolana, e, ainda, a várias publicações científicas, com particular relevância nos trabalhos de oceanografia.

Já depois de 1975, mais concretamente a partir de 2004, após várias denominações, a entidade passou a chamar-se Instituto Nacional de Investigação Pesqueira (INIP), cuja directora-geral é a bióloga Francisca Alberta Lourenço Pires Delgado, investigadora marinha desde 1986, que, em entrevista exclusiva ao JE, faz uma radiografia pormenorizada ao “estado de saúde” do ecossistema marinho nacional, bem como às medidas de gestão em curso e outras previstas para a exploração racional e equilibrada das espécies, com vista à sua preservação.

Uma tónica especial recai para as campanhas de acompanhamento do crescimento ou redução das espécies, bem como sobre as principais espécies de peixes que abundam na Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Angola, país que, juntamente com outros 16, faz parte do Largo Ecossistema da Corrente da Guiné (GCLME), e, com a Namíbia e África do Sul, da Comissão da Corrente de Benguela (BCC).

Francisca Delgado aborda igualmente na entrevista aspectos relacionados com as principais técnicas de pesca utilizadas em Angola, a situação geral dos moluscos e crustáceos, bem como dos pelágicos e demersais.

O INIP tem a sua sede em Luanda, onde estão concentrados os laboratórios de biologia, oceanografia física, química e biológica, leitura das idades, análises físico-químicas, microbiologia, e, ainda, um centro de dados. Conta com centros regionais no Lobito (biologia, oceanografia) e Benguela (tecnologia do pescado), Namibe (oceanografia) e Tômbwa (tecnologia de pescado). Aguardam pela construção os centros de investigação pesqueira (CIP) de Cabinda, Uíje, Malanje, Kwanza-Sul e Huambo.

Cooperação internacional

Noruega, Espanha, Portugal, Itália e Alemanha são os cinco países europeus com que Angola coopera na área de investigação pesqueira. É do primeiro país, por exemplo, que vem a embarcação Dr. Fridtjoft Nansen, especializada na avaliação de recursos pesqueiros em mar aberto, ou seja numa profundidade entre s 20 e 900 metros, e em monitorização do ambiente marinho.

No continente africano, Angola tem colaboração nesse domínio com Moçambique, S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Namíbia, África do Sul e Guiné Conakry. É da Namíbia o navio Welwitchia, que, anualmente, sulca duas vezes as águas angolanas em cruzeiros, para estudar especificidades relacionadas com as espécies demersais e pelágicas. Da mesma forma, os dois países têm efectuado estudos conjuntos sobre os recursos partilhados no sul.

O navio General Lansana Conte, da Guiné Conakry, tem estado ao serviço de Angola para avaliar a quantidade de recursos costeiros, numa profundidade entre os sete e 100 metros.

Reforço da investigação

São dois programas nacionais no domínio da investigação, sendo o primeiro da amostragem biológica da pesca comercial, e o segundo relativo à monitorização do ambiente marinho.

Um e outro fazem parte das estratégias traçadas para o reforço da investigação, que passam, igualmente, entre outras, pela adequação dos laboratórios de controlo de qualidade dos produtos de pesca e seus derivados.

Estão ainda previstas dentro dessas estratégias a adesão aos programas conjuntos definidos no quadro da Comissão da Corrente de Benguela (BCC), do Largo Ecossistema da Corrente da Guiné (GCLME), da Organização das Pescarias do Sudoeste do Atlântico (SEAFO) e do projecto de efeitos do clima na biodiversidade, abundância e distribuição dos organismos marinhos (NansClim), bem como nos estudos e gestão dos recursos fora da ZEE de Angola.

De assinalar que as correntes da Guiné e de Benguela influenciam diferentemente na diversidade das espécies e nas quantidades de que podem dispor. Assim, existem mais espécies no norte e menos quantidades que cada uma gera, enquanto, no sul, o quadro é precisamente inverso, ou seja, menos espécies, mas maior abundância, particularmente de espécies pelágicas.