O mercado do 30 é uma verdadeira bolsa de valores. Há de tudo, desde o milho à mandioca naquele espaço do município de Viana, em Luanda. Além de manter e valorizar a produção interna, propociona ocupação a milhares de pessoas. Uns sobrevivem vendendo os produtos à grosso, outros tiram dividendos à retalho.
Na verdade, estão todos de mangas arregaçadas e a “mão na massa”. As aptidões e as oportunidades determinam o negócio a fazer. Com fim único, ganhar alguns “tostões” para viver. Roboteiro, lotador, motoqueiro, enfim, pouco importa, há mil ofícios para ganhar o pão. Há muito movimento financeiro.
Em plena terça-feira (29) de manhã, o mercado regista um movimento inusitado, compradores, vendedores cruzam-se amiúde. Parece verdadeiro formigueiro ou um sábado.

Branco
A vestimenta desperta a nossa atenção. Muitos são jovens com aventais de cor branca e tocas da mesma cor à entrada do recinto. É zona da venda de carne. Os mesmos ganham a vida no abate de cabritos, porcos, ovelhas e depilam os mesmos para chegar à mesa.
“Kota eu faço o trabalho completo, limpo e lavo às miudezas, até a cabeça vou tratá-la. Se não quiseres a cabeça pode ficar
comigo”, afirmou um deles.
Logo à entrada, ao lado direito estão instalados os corrais para cabritos e ovelhas, um pouco a frente à dos porcos. O cliente escolhe a dedo o animal pretendido. O bolso determina o tamanho do animal a levar, o preço começa de 21 mil kwanzas para frente.
À volta estão os jovens de branco, a implorarem para fazer o “serviço”, é muita gente na corrida, todo truque serve para ganhar a confiança do cliente.
Jorge calei está no negócio faz tempo, oriundo do interior conta que a actividade é rentável. Por cada animal que abate o cliente paga 2 mil e 500 kwanzas. Deste valor mil kwanzas ficam com ele, e mil e 500 entrega aos gestores do espaço.
A afluência de clientes determina o volume de receitas. Calei confessa que há dias que chega a levar para casa 10 mil kwanzas, sobretudo na fase do pagamento de salários, isto é, no fim do mês.
“Quando pagam os trabalhadores é o melhor momento para facturarmos. Agora, há dias que não conseguimos. É como tudo na vida, não se ganha sempre”, disse.
As poupanças que Calei amealha todos os dias, servem de apoio à família na província da Huíla. Onde uma legião de parentes aguarda pela sua chegada na quadra festiva. Já acumulou dinheiro que lhe permitiu construir uma casa na sua área de origem. Assim como apoio diversificado à família.
Ao lado está Jolito Catumbela, a depilar um porco aparentemente nutrido. Custou ao cliente 30 mil kwanzas, com todos os cuidados limpa e lava o animal, que a jovem identificada apenas por Lolita vai pôr disposição dos convivas na festa de aniversário de uma irmã.
Catumbela, terá a mesma recompensa de Calei, 2 mil e 500 kwanzas, valor que terá a mesma divisão. Assim segue o negócio que neste momento estão envolvidos apenas jovens do sexo masculino.
Quem sobrevive desta actividade é Abel Cachiungo com 20 anos, é muito procurado pela qualidade de trabalho que apresenta. Factura 12 mil kwanzas por dia. O jovem está a investir na sua formação, paga os estudos num colégio nas imediações do município de Viana.

Galinhas
Se uns sobrevivem praticando este negócio, outros têm como sustento, depenar galinha, e patos. Centenas de aves estão engaiolados para serem vendidos. As aves e os animais de pequeno porte repartem o mesmo espaço.
Cada galinha custa 2 mil e 500 kwanzas, um pato custa 3 mil, aliás o tamanho dita o preço. A opção é do cliente se leva para fazê-lo em casa ou ali no mercado. Por cada galinha ou pato à depenar, o cliente paga 500 kwanzas.
A maioria prefere levar à casa carne já limpa “pronto para uma cabidela”, desabafa um comprador.
Lourenço Miguel, e um grupo de amigos vivem deste negócio, não revelam a quantidade, explicam que dá para sobreviver. Com o valor arrecadado pagam renda de casa, o resto é poupança para outros negócios, conta o jovem Miguel. É um negócio que vale apena!

Vaca
Mas lá abaixo do mercado, existe um espaço para o abate de bois. Um outro grupo de jovens encontra no local, a soberana oportunidade para ganhar a vida. Por cada vacaabatida cobram 20 mil kwanzas.
Aos poucos muita gente se aproxima ao pátio, o movimento é também notável. Um grupo de três pessoas encosta-se ao local, e escolhe o boi e orienta para ser “executado”. Desembolsam 20 mil kwanzas, e os jovens
fazem o tratamento devido. Face ao fraco poder de compra a maioria das pessoas, preferem juntar-se
em três e compram o animal.
Faz parte do negócio Amadeu Tchielunda, que coordena um grupo de três pessoas, que têm a missão de matadores, e limpar
às partes internas do animal. Em quase duas horas, o animal foi atingido e tudo está a mercê do cliente. “A carne está à disposição do cliente, limpa e pronta para ser levada a cozinha”, explica o Amadeu. É uma actividade também
rentável rematou a fonte.
Assim, centenas de jovens sustentam as suas famílias com este negócio em Luanda. Os animais são comprados na generalidade no sul de Angola. Nesta operação muitos jovens, ganham o pão como controladores dos animais.

Há cuidados

Nos matadouros do local observam-se cuidados higiénicos, usa-se uma tecnologia moderna para deixar limpo o animal. Há veterinário ao serviço dos matadouros para a adequada higiene. O jovem que estiver em serviço, segundo a organização, deve ter o uniforme limpo, caso contrário, corre o risco de pagar multa aos fiscais.
Diariamente, há um camião cisterna que abastece água para o sector de talhos. A organização paga por cada carregamento 40 mil kwanzas, para ter o espaço em condições higiénicas.
Para evitar roubos e outras problemas, o comprador recebe um cartão que tem obrigação de apresentar na porta e certificar-se do bem em sua posse. “Já houve furtos para evitarmos isso, arranjamos um método interno de controlo.
Os vendedores de animais no espaço pagam uma quantia em dinheiro todos os dias.
A limpeza no espaço está garantida por uma equipa. de jovens. Aliás, é obrigação meter o lixo em espaços próprios.
“Queremos manter a organização inicial, e se possível superar nos próximos tempos” disse.
Sem avançar dados concretos, estima-se que diariamente aquele espaço é procurado por mais de 20 pessoas. O número de pessoas que procura este serviço no fim-de-semana pode chegar a meia centena.
O movimento rodoviário carregado de animais a entrarem para o mercado é grande.
O JE contabilizou durante a estada no mercado, a entrada de mais de 10 camiões carregados de cabritos e porcos.