A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) decidiu, na semana passada, em Viena, Áustria, sede do cartel, manter as quotas de produção de crude acordadas entre os países membros e os preços nos seus níveis actuais, em torno dos USD 80 por barril, considerado adequado para estimular a exploração e, ao mesmo tempo, não pôr em risco a recuperação económica global.

As notícias foram bem recebidas, tanto pela comunidade produtora, quanto pelos consumidores mundiais. O preço actual é entendido pelo mercado como um avanço significativo, diante dos USD 62 registados há um ano. Em 2008, antes do “crash”, os preços abriram o ano com USD 90 por barril e chegaram rapidamente a quase USD 150, antes da queda abrupta. Os USD 80 da actualidade representam, portanto, uma notícia tranquilizadora e tendem a estimular investimentos em toda a economia.

Na cimeira de Viena, porta-vozes da indústria alertaram para os altos stocks armazenados em tanques nos países industrializados e para as expectativas de aumento da produção em países não membros da OPEP, circunstâncias que poderão vir a provocar turbulências no mercado.

Em comunicado emitido ao final da reunião, a organização afirmou que não há necessidade de reduzir a produção do cartel e alertou para as ameaças ainda existentes à recuperação da economia mundial, estimuladas pelo “crescente e potencialmente insustentável nível da dívida pública que se verifica na maioria das economias dos países ricos”.

“Os países da OPEP estão satisfeitos com o cenário dos negócios do petróleo e não querem fazer nada que possa mudar esta situação”, sintetizou, segundo o jornal The Washington Post, o analista do banco Credit Suisse, Edward Morse. Roger Diwan, especialista da respeitada consultora internacional PFC Energy, também citado pelo jornal, destacou que os preços do petróleo estão em alta e que a OPEP não tem muito a fazer, neste quadro. “O que a organização deve fazer agora é acompanhar a evolução da conjuntura para certificar-se de que a economia mundial não entrará em recessão. Nesta situação, o melhor a fazer é manter o ‘piloto automático’ accionado”, disse Diwan.

Ali AL-Naimi, ministro do Petróleo da Arábia Saudita, o maior exportador mundial, concordou em que os preços estabilizaram num bom patamar e que não vê razão para alterar os níveis de produção. “Não há escassez de crude no mercado, os investimentos prosseguem e a demanda deve continuar a crescer. E todos ficam felizes assim”, disse o ministro à agência de notícias Bloomberg. A produção continua a subir em muitos países produtores, nomeadamente no Iraque, Angola e Nigéria.

Nos Estados Unidos, o maior consumidor mundial, a demanda por combustível ainda permanece instável, a reflectir as dificuldades do país para vencer a recessão económica e retomar o crescimento. O nível de consumo de derivados de petróleo continua o mesmo do ano passado e a procura reduzida por diesel, utilizado maioritariamente por camiões, revela a debilidade da economia americana. Os preços do combustível nas estações de serviço continuam a subir em função da elevação do preço do crude no mercado internacional, o que deve restringir ainda mais a demanda por combustível naquele país. A China, que tem mostrado recuperação vigorosa e estável, é uma das poucas fontes de demanda crescente por petróleo no mundo.

Retoma de mega campos no Iraque muda o cenário da produção mundial

Os contratos de exploração assinados no começo deste ano entre o governo do Iraque e as grandes empresas mundiais da indústria do petróleo deverão, até o final deste ano, como esperam os analistas, começar a produzir os seus primeiros frutos e a lançar no palco da produção mundial alguns dos maiores campos de petróleo do Iraque. Estes campos estavam praticamente paralisados em decorrência da guerra e do boicote anterior ao regime de Saddam Hussein.

Os mega campos iraquianos estão entre as últimas reservas de “petróleo fácil” do mundo, isto é, aquelas que podem ser exploradas com técnicas de produção tradicionais e de menor custo, como avaliam os especialistas desta indústria. Muitas das grandes empresas internacionais de petróleo, entre elas a Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol), que participaram da última ronda de licitações, aceitaram receber apenas USD 1,15 por barril produzido, sem qualquer direito de propriedade sobre os campos, o que destaca o potencial destas jazidas.

O actual cenário indica que, em 10 anos, o Iraque poderá suplantar o Irão e a Rússia, e tornar-se no segundo maior produtor mundial de petróleo, depois da Arábia Saudita, desde que a estabilização política do país seja alcançada e que as condições de segurança venham a melhorar.

Actualmente, o consumo mundial de petróleo é da ordem de 85 milhões de barris diários, que são extraídos de mais de quatro mil campos de produção, a maioria dos quais produz menos de 20 mil barris diários. Os campos gigantes, capazes de produzir mais de 100 mil barris/dia, representam apenas 3% da produção mundial. Estes mega campos formam as mais importantes reservas de energia do planeta e são objecto da cobiça das grandes petrolíferas mundiais, segundo a revista Forbes.

O mais importante destes campos gigantescos, Ghawar, situa-se na Arábia Saudita e estima-se que contenha mais de 100 mil milhões de crude recuperável nas suas profundezas.

Leia mais sobre o assunto na edição impressa do Jornal de Economia & Finanças desta semana, já em circulação