ISAQUE LOURENÇO

JORNAL DE ECONOMIA & FINANÇAS – COMO CARACTERIZA O MERCADO FINANCEIRO ANGOLANO?

LEÃO PERES – O mercado financeiro angolano apresenta duas características principais: o do segmento monetário que emite papéis de curto prazo, e essencialmente dominado pela banca, embora haja outros serviços e o outro de capitais que transacciona papéis de médio e longo prazo, nesta onde opera e assume papel principal a Bolsa de Valores.

JE – Face ao actual momento da nossa economia, que novos instrumentos financeiros julga necessário à sua operacionalização?

LP – No nosso caso em que ainda prevalece o segmento monetário e face à necessidade do financiamento ao investimento à operacionalização do mercado de capitais, através da Bolsa de Valores e demais instrumentos que advêm deste, deve ser assumida como tarefa primordial.

JE – A banca em Angola continua, a par do Estado, a liderar o financiamento à economia. Justifica-se este domínio?

LP – Por razões históricas ainda se compreende este domínio, sobretudo o do Estado. Sabe-se que a estrutura herdada do colonizador e posterior adopção do sistema socialista, de inspiração marxista, não permitiu as iniciativas privadas. O Estado sempre centralizou em si os meios de produção e inclusive os serviços bancários, daí que o papel de financiador sempre esteve na responsabilidade do Estado. Hoje, com as mudanças de 1991, assistimos a alterações significativas e que vão já se consolidando à medida que o sector privado interno e externo vai ganhando maior capacidade de intervenção no desenvolvimento do país.

JE – Que alterações seriam observadas com a entrada do Mercado de Capitais e com ele a Bolsa de Valores?

LP – Além de valorizar mais as acções, a Bolsa de Valores também vai assegurar maior transparência às empresas nela cotada, e deste modo transmitir maior confiança aos investidores, sejam estes particulares ou institucionais.

JE – E como é que a bolsa financia a economia?

LP – A bolsa é um excelente vector de financiamento à economia porquanto, através dela, aquelas empresas e instituições cotadas conseguem com maior facilidade os recursos de que necessitam para desenvolver as suas actividades. A bolsa oferece também liquidez às acções das empresas.

JE – Sente já estarem criadas as condições e o ambiente de que se necessita para o arranque deste serviço?

LP – Mesmo sem estar muito por dentro das perspectivas da bolsa e ao que tudo indica, sobretudo pelas informações que veiculam os órgãos encarregues pela criação dos mesmos serviços, já estão criadas as condições iniciais. Existe nas instalações, um instituto de formação para os operadores, pessoal treinado, enfim e porque não existem organizações perfeitas só o arranque permitirá vislumbrar as eventuais deficiências.

JE – Do lado dos operadores económicos sente terem estes já maturidade para participarem neste novo ciclo da economia?

LP – Na verdade precisamos de criar uma cultura financeira à população. Mas, através da participação do cidadão na banca, onde têm os salários domiciliados e disponível muitos serviços e produtos é possível adquirir habilidade e domínio das regras das instituições financeiras. Outra grande verdade é que não precisamos esperar por todos, mesmo que forem apenas uma ou meia dúzia de empresas preparadas. A bolsa pode arrancar e os outros que sigam o comboio. Sendo assim, aqueles que ainda não estão preparados ou até mesmo desinformados devem consultar a partir dos seus bancos os especialistas para mais orientações.

JE – Partilha de algum horizonte temporal para arranque?

LP – Ao que tudo indica o ano de 2010 é apontado como o mais provável. Isto significa que estão criadas todas as condições. Pessoalmente e visto todos estes pressupostos julgo ser já a hora da Bolsa de Valores no país, sem importar, repito, o número de empresas ou instituições já preparadas para participarem destes serviços.

JE – A crise não continuará a ser um factor de ponderação?

LP – Acredito que a turbulência vivida pela economia mundial tenha alguma influência até ao momento na decisão de arranque ou não. Agora, penso que objectivamente todas as premissas para o funcionamento da Bolsa de Valores, já estão criadas e a crise económica e financeira global também pode ser vista como uma boa oportunidade para atrair os investidores das grandes economias mundiais.

JE – O Mercado de Capitais pode também assegurar a continuidade da diversificação da economia?

LP – Sim. Este é de resto um mecanismo que visa assegurar um novo ciclo e novos instrumentos de financiamento à economia real. Por outro lado, o Mercado de Capitais, através da Bolsa de Valores, pode impulsionar a entrada de novos operadores económicos, sejam estes nacionais ou estrangeiros, e que por sua vez, nos diferentes ramos de actividade serão responsáveis pelo aumento e diversidade da produção interna.

JE – Face à atractividade do nosso mercado, a Bolsa de Valores pode facilitar a materialização de muitas intenções de investimentos?

LP – Pode desde que se crie um ambiente institucional favorável ao investimento. Aliás, a título de exemplo, já vemos hoje em Luanda, no município de Viana, a existência de uma fábrica de montagem de carros, isto significa muito. Em boa hora assistimos a reestruturação da Agência Nacional para o Investimento Privado (ANIP), após a nomeação pelo Presidente da Republica de Aguinaldo Jaime, que tem vindo a trabalhar na diminuição dos pressupostos burocráticos, e de forma a minorar o custo do investimento no pais, uma boa forma de atrair não só investidores estrangeiros mas também nacionais.