Mateus Cavumbo

O presidente em exercício da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), ministro dos Petróleos de Angola, José Maria Botelho de Vasconcelos, descartou a possibilidade de haver este ano mais cortes na produção. Segundo o governante, Os sinais que se assistem nesta fase no mercado transmitem alguma estabilidade. Acompanhe na entrevista que se segue:

Jornal de Economia & Finanças – O preço do barril do crude no mercado internacional está a registar uma tendência evolutiva, e chegou mesmo a ultrapassar os USD 70. Como encara esta evolução?

Botelho de Vasconcelos (BV) – Houve, de facto, uma tendência de subida, mas o valor de USD 70, conforme se refere, ocorreu em uma semana ou em dois dias, e neste momento já assistimos a uma redução. O preço do petróleo brent anda à volta dos USD 60/62 o barril. Isso é uma situação em que ainda não se fazem sentir significativamente os cortes e os seus reflexos no mercado pela seguinte razão: segundo os dados que nós possuímos, e também em função das análises que têm sido feitas no seio da organização, a actual situação ainda não é confortável, em termos de controlo do preço do mercado, porque ainda existe muito óleo armazenado, quer em terra como no mar, e isso faz com que o consumo diário e os stocks existentes garantem um consumo diário de cerca 62/63 dias. Há, de facto, muito óleo no mercado.

JE- O que é preciso para que exista algum equilíbrio entre a oferta e a procura?

BV- É necessário que essa quantidade de óleo existente no mercado possa ser reduzida a um nível de 52/53 dias. Neste momento, ainda se assiste a alguma especulação, embora hajam alguns sinais positivos da crise económica e financeira mundial, que também transmitem aos países produtores da OPEP alguma confiança na procura do petróleo. Nós podemos considerar que USD 62 é bom preço, mas não dá garantias para que a actividade petrolífera possa ser desenvolvida sem atrasos e sem cancelamentos de projectos. A faixa entre USD 70 e 75, o barril, dará, de facto, algum suporte à continuidade da actividade petrolífera, desde a exploração à produção. Por exemplo, uma descoberta comercial desde o início da exploração até ao início da produção leva cerca de cinco anos. Caso haja paralisação em alguns projectos que estão em curso, vai reflectir-se no equilíbrio, o futuro entre os campos em declínio e as novas descobertas da actividade de produção e as reservas provadas. É preciso que haja um equilíbrio da actividade de produção. O que nós temos vindo a defender é que exista o nível de preços que permita manter os projectos em desenvolvimento, e que também não provoque alguns efeitos que agravem ainda mais a crise económica e financeira que ainda vivemos.

JE - Mas a previsão da OPEP para a concretização dos projectos da indústria era de que o petróleo devia atingir pelo menos USD 75?

BV- É o que eu acabei de me referir, o preço de USD 75 dá de facto cobertura ao desenvolvimento dos projectos e que também não provoca problemas no quadro da situação da crise vigente. Haverá um equilíbrio entre os interesses dos países produtores e consumidores.

JE- Qual é a relação que existe entre a OPEP e os países consumidores?

BV- Nós temos mantido algum diálogo com instituições internacionais. Ainda há bem pouco tempo, houve uma reunião entre a OPEP e a União Europeia. Normalmente, nesses fóruns abordam-se determinados temas importantes para as duas instituições, e aí é possível conhecer as várias projecções relativamente a tendência do mercado petrolífero que cada uma delas realiza num determinado período. Um dos grandes problemas é a fiabilidade de dados das projecções. Nestes encontros, discutem-se vários temas como a emissão e captura do dióxido de carbono, os bio-combustíveis e, ainda, sobre as energias renováveis. Há, de facto, temas extremamente importantes, que é necessário fazer a aproximações entre as várias organizações, para que determinados pontos de vista divergentes possam ser compreendidos de parte a parte, para que as grandes questões sobre o sector da energia sejam resolvidas numa perspectiva de desenvolvimento equilibrado, sustentável e estável para o bem da humanidade.

JE- Os contactos não têm sido unicamente mantidos com a União Europeia?

BV- Com certeza. Nós discutimos com outras instituições, como a Agência Internacional de Energia e com países como a Rússia e a China. Geralmente, são promovidos fóruns internacionais de energia. Aí, o diálogo é mais próximo, porque participam várias entidades defendendo várias correntes de opinião. Nós, OPEP, defendemos que o petróleo deve ser resultado da competição de mercado através do mecanismo da oferta e da procura. Há outros que defendem que o preço deve ser regulado. Mas no entanto são pontos de vista que são analisados numa perspectiva de aproximação.

JE- Será que ainda este ano se assistirá a cortes na produção, se o preço registar mais uma queda acentuada?

BV- Há uma contracção relativamente à questão dos preços. Como sabe, a crise foi profunda e os seus efeitos ainda continuam a ser sentidos. E a organização é conhecedora dessa situação. O petróleo é uma mercadoria que tem uma incidência muito grande no desenvolvimento de vários países. Sabemos que qualquer alteração para acima dos níveis aceitáveis provoca sempre efeitos negativos. Quando o preço chegou ao seu nível mais baixo, nesse caso a USD 35, entre Dezembro e Janeiro, houve a necessidade de se tomar uma decisão para o equilíbrio do preço. E essa decisão tomada pela organização foi de estabelecer um corte de 4,2 milhões de barris/dia, entre os 11 membros da organização. Por causa dessa medida, assumida por todos os membros, atingiu-se um nível de corte correspondente a 80%, que provocou efeitos no mercado e que vamos sentindo até ao momento.

JE- Esse optimismo resulta do acompanhamento diário da situação?

BV- Os sinais que temos sentido até ao momento transmitem alguma estabilidade e se isso continuar a acontecer não se vão produzir os cortes, porque, no fundo 4 milhões e 200 mil barris por dia ainda não foram totalmente atingidos. Qualquer corte que houver não terá nenhum significado. Portanto, é necessário que o acompanhamento continue a ser realizado. A próxima reunião da organização terá lugar no dia 9 de Setembro. Nesse fórum, a situação do mercado será novamente analisada, e uma decisão adequada será tomada.

JE– Na qualidade de presidente em exercício da OPEP, concorda com a proposta da Venezuela e do Irão da necessidade de a transacção do crude através da moeda europeia?

BV- O assunto não é novo no seio da organização. Embora os dois países membros tenham manifestado esta intenção, é uma questão ainda em carteira e que, eventualmente, poderá vir a ser reanalisada no futuro. Mas a decisão anterior foi a da manutenção do dólar.

JE- Por ser membro do Governo angolano à frente de uma importante organização mundial, qual tem sido a mensagem que tem transmitida aos demais produtores?

BV- Angola é um país que sofreu vários anos de guerra, em que as suas infra-estruturas foram completamente destruídas. Somos um país produtor, mas em reconstrução. Temos transmitido aos nossos parceiros que entendam a nossa realidade quanto às decisões tomadas relativamente aos cortes e fazer crer nesta fase difícil de reconstrução de que Angola deve ter um tratamento diferenciado. Mas as decisões normalmente são consensuais, pois a OPEP é uma associação de membros de países soberanos e que determinados interesses também devem ser defendidos.

JE- Sente algum conforto por ser presidente da OPEP?

BV- A OPEP é uma organização com bastante prestígio e que conquistou o seu lugar e reconhecida pelas Nações Unidas. É bastante prestigiosa e dignificante, para que Angola dentro da organização projecte a sua imagem e esteja presente nas decisões que são tomadas a nível da organização e que têm reflexos no desenvolvimento da economia mundial. No entanto, a responsabilidade é grande, pois temos dado o nosso melhor para que o mandato da presidência de Angola possa ser cumprido da melhor maneira.

JE- Como Angola suporta os seus projectos, numa altura em que os custos de produção são bastante altos?

BV- Os projectos em carteira e que foram definidos em cada uma das associações em vários blocos não sofreram qualquer alteração em termos do seu desenvolvimento. Nós tivemos a ocasião de manter o diálogo com os vários responsáveis das empresas existentes no país e deram-nos sempre a esperança de que os projectos teriam continuidade. Eventualmente, haveria uma redução no seu ritmo, mas não o cancelamento dos mesmos.

JE- Por causa da lentidão de alguns, as datas da conclusão das obras da futura fábrica LNG e da Refinaria do Lobito sofrerão alguma alteração?

BV- Não. Nós regularmente recebemos relatórios, fundamentalmente da fábrica LNG e nada indica uma paralisação ou mesmo uma redução no ritmo do desenvolvimento do projecto, porquanto é um projecto que continua a decorrer normalmente, e a meta do primeiro trimestre de 2012 até este momento não foi alterada. Está-se a trabalhar para que no primeiro trimestre de 2012 possamos assistir o primeiro carregamento do navio, que vai transportar o LNG. Relativamente à futura Refinaria, é um projecto em que os seus trabalhos preliminares já tiveram arranque.

JE- Como anda o processo de angolanização no sector petrolífero?

BV- O processo continua. O mesmo teve início em 1982, que ganhou determinada experiência na sua implementação. Existem resultados positivos relativamente à integração dos quadros angolanos nas várias empresas do sector. Neste momento, ainda continuamos por realizar muito mais trabalho, porque os objectivos não foram completamente atingidos. É preciso que os angolanos a serem admitidos nas empresas devem conhecer desde o início a sua carreira de desenvolvimento até onde devem chegar.

JE- Então precisa-se de ajustes para que as metas sejam alcançadas?

BV- Exactamente. Gostaria de dizer que nós estabelecemos um instrumento para que isso possa acontecer, através da assinatura de contrato-programa com os operadores. E, nesse contexto, serão estabelecidas as metas e dar-se-á maior apoio aos angolanos, isso em termos de integração e formação dos angolanos, porque a formação continua, quer através das empresas estrangeiras, quer por intermédio das bolsas de estudo que são proporcionadas pelo Ministério e pela própria Sonangol. Mas há um outro aspecto extremamente importante, que é a integração do empresariado nacional na prestação de bens e serviços na actividade petrolífera. Estamos a trabalhar para que seja definido um plano director para uma integração correcta e que as empresas que tenham uma determinada vocação para prestação desses serviços possam representar o empresariado de uma forma em que as partes saiam satisfeitas.

JE- O que se passa, de facto, com o empresariado local?

BV- O empresariado nacional precisa, em alguns casos, de determinados apoios para que possa reestruturar-se e organizar-se melhor. E estes apoios passam pela identificação das oportunidades, foi feito um diagnóstico relativamente ao sector e o nosso papel é criar condições para que eles possam trabalhar. É possível que venhamos a dar oportunidades no segmento da pesquisa, produção, refinação, gás e distribuição. Serão identificados alguns serviços que podem efectivamente ser exercidos por angolanos.

PERFIL

O actual presidente da OPEP, José Maria Botelho de Vasconcelos, natural de Malanje, nasceu a 24 de Março de 1950. É Engenheiro Técnico formado pelo Instituto Industrial Tecnológico de Luanda em 1974. Além de Ministro dos Petróleos, exercido de Fevereiro de 1999 a Dezembro de 2002, Botelho de Vasconcelos foi o titular da pasta da Energia e Águas de Dezembro de 2002 a Setembro de 2008, altura em que foi chamado novamente para o Ministério dos Petróleos. Dentro dos cursos efectuados destacam-se o de Comercial de Derivados de Petróleos na Fina/Bélgica em 1976, mais tarde fez o curso de Lubrificação e Aplicação de Lubrificantes - Shell em França, isto no ano de 1981. Em 1983 frequentou um estágio de Engenheiro Chefe na Companhia Mobil dos Estados Unidos de América. Fez igualmente um curso de Gestão de Empresas Petrolíferas na Artur De Little (ADL)/USA e Portugal de 1991 a 1992. Além disso, trabalhou de 1974 a 1976 no Departamento de Engenharia e Manutenção na Cabinda Gulf Oil Company e um ano depois, isto de 1977 a 1979, exerceu as funções de Inspector Especializado e Adjunto da Direcção Técnica da

Fina Petróleos de Angola. De 1979 a 1983 ocupou o cargo de Chefe de Divisão de Comercialização da Sonangol e depois Director de Operações da Sonangol para Distribuição entre 1985 e 1986. De 1987 a 1999 exerceu o cargo de Director Geral Adjunto da Sonangol

para Distribuição e Comercialização de Combustíveis. Também já foi Presidente de Direcção do Clube Atlético Petróleos de Luanda entre 1990 e 1999. Botelho de Vasconcelos foi igualmente Administrador da Empresa Sopor em Portugal (Empresa Mista Sonangol/Petrogal - 1992-1999. Ainda ocupou a função de Presidente da Mesa de Assembleia da Empresa ENACOL/Cabo Verde (Empresa Mista Sonangol/ Petrogal/estado Cabo Verdiano entre 1997 e 1999. De 1997 a 1999 desempenhou o cargo de Administrador da Empresa SONATIDE (Empresa de Barcos de Apoio à Actividade Petrolífera - Sonangol/ Tidewater, e em 1998 as funções de Vice- Presidente da Mesa de Assembleia da Empresa ENCO S.TOMÉ e Príncipe (Empresa Mista Sonangol/ Estado de S.Tomé. Foi, igualmente, Presidente do Comité de Ministros de Energia da SADC de Fevereiro de 1999 a Dezembro de 2002.